November 18, 2017

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Viver: Entre o Caos e a Ordem

Viver: Entre o Caos e a Ordem

Texto de : Cássio Vilela Prado. 

                                “Desde a antiguidade grega o caos tem para nós uma função dupla. Ora significa ameaça de uma desordem devastadora, com fundo ou sem fundo, na qual corremos o risco de soçobrar. Ora justamente o contrário: é uma potência de reconfiguração do mundo. Aliás, uma das mais belas versões sobre a feitura do mundo é justamente essa, mencionada por Platão. É uma versão que faz do caos um componente do mundo. A versão é simplíssima. Quando o Demiurgo resolveu fazer o mundo, usou dois ingredientes que já existiam e os misturou. E quais são eles? O Mesmo e o Outro. Depois quem quiser pode tentar essa fórmula em casa. Um pouco de Mesmo, um pouco de Outro. Mas ocorreu um acidente. Quando o mundo parecia ter adquirido alguma estabilidade, o Outro escapuliu. Porque é da natureza do Outro tornar tudo aquilo que é de um certo jeito de outro jeito. Ele é um capeta indomável, é um pequeno demônio. E o Demiurgo sentiu muita dificuldade para conter o Outro, para acuar o Outro, a fim de conseguir que o mundo tivesse um mínimo de ordenação. Alguns dizem que ele, Demiurgo, sim, conseguiu acuar o Outro e por isso o mundo é essa mesmice que conhecemos. Outros acham que aquela vitória foi provisória, porque o Outro acabou tomando a revanche e o mundo virou esse caos que todos nós conhecemos”.

– Peter Pál Pelbart, Esquizoanalista – Conferência – Caderno Saúde Mental – ESPMG BH/2007.

E, de repente, o despertador não toca… Acordo atrasado para o serviço. Está muito frio, não queria ir, mas não, tenho que ir encontrar com aquele colega insuportável do trabalho, aí!
Vou ao banheiro comum, o meu quarto não é uma suíte. Ocupado, a minha esposa está pintando o cabelo. Vou fazer xixi lá fora…

Volto, não tem café da manhã, o meu filho me pede dinheiro para comprar merenda na escola que ainda não paguei este mês. Olho na carteira, não tenho dinheiro, preciso ir ao Banco sacar. Saio correndo, debaixo de chuva, pois o guarda-chuva eu perdi.
Chegando perto à fila enorme do ônibus, uma van despeja água de chuva em mim…

Consigo entrar no ônibus, depois de uma disputa ferrenha com os outros da fila. Claro, vou em pé, espremido, quase no ar.
Mas nossa! Me dei mal, esqueci de sacar o dinheiro no Banco para pagar o transporte. Grito, pare o ônibus, preciso descer! Com malabarismos, desço e me dirijo ao Banco. Uma fila enorme para sacar. Já são 8:00 horas, o meu chefe vai “me matar”.

Consigo sacar depois de várias tentativas, pois o leitor digital não reconhecia os meus dedinhos cadastrados.
Volto correndo à fila do ônibus, quase sou atropelado.
Novamente suspenso no ar, consigo descer e corro para “bater o ponto”. Ufa!

Sento-me para trabalhar.
A secretaria da chefia, “X-9” entra na sala e me diz com aquela cara de “bumbum”:

– A coordenadora quer falar com você!
Vou até à coordenação, dou “um bom dia sem graça” e sem retribuição, e escuto:

– Mais uma vez você chegou atrasado ao serviço! Isso já é falta de responsabilidade.
– Desculpe-me, mas eu tive vários problemas antes de chegar aqui.
– Isso não interessa a mim nem à empresa, diz a coordenadora em seu pedestal blindado. – Mas, eu… (sou interrompido).
– Você está demitido, pode passar no RG e fazer o seu acerto.

Levanto-me, me despeço de uns poucos colegas de trabalho (qual trabalho?) e vou em direção ao ponto de ônibus com a costumeira fila sem fim.
As cenas de casa pela manhã veem a minha mente: o despertador que não tocou, o banheiro ocupado, as filas, o “banho de enxurrada”, a escola, a merenda do meu filho que não lhe dei… Tudo parece desabar. E agora, desempregado!

Chego em casa sem chão. Conto aos prantos para a minha esposa, inclusive sobre a frieza e a distância da coordenadora:

– Meu amor, não se preocupe, posso te ajudar. Dei o dinheiro da merenda ao seu filho e vou quitar a escola amanhã. E, nem te conto, me disse de forma feliz, aquela empresa que você enviou o seu currículo, ligou agora de manhã. Ela quer te contratar.
– Verdade tudo isso?

– Claro!

Nos encontros e desencontros dessa vida é preciso acreditar sempre, mesmo no caos  ou na ordem. A dor não pode com a humildade e o amor, basta você acreditar que o caos é apenas uma reconfiguração da vida e a ordem é um instante efêmero do encontro.

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Brumadinho (MG), 12 de setembro de 2015.

Cassio Vilela Prado
Psicólogo, Psicanalista, Poeta e Escritor.

 https://www.facebook.com/cassiovilelaprado?fref=nf

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Créditos da Imagem: Valter Franco

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Psicanálise e Amor

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