October 20, 2017

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TRANSTORNOS ALIMENTARES: UMA VISÃO PSICANALÍTICA

Quando a alimentação não é sentida como um dos principais combustíveis para a vida e quando o corpo, a comida em si e as calorias envolvidas no ato alimentar passam a ocupar exageradamente o espaço mental.

 

Artigo escrito por * Marina Ramalho Miranda

Em nossos dias vivemos a rapidez do mundo fast, o imediatismo do ato ao invés do pensar ponderado, o reflexo no lugar da reflexão, as imagens sobrepujando as essências… e será nesse cenário imagético, instantâneo e de concretude, vivenciado mais intensamente por alguns psiquismos vulneráveis a esses fatores, que pode despontar o corpo, todo poderoso, reinando absoluto como o principal personagem dos relatos clínicos e sociais, apresentando-se como o centro das preocupações, especialmente no que tange à perfeição estética, seu volume, sua aparência, sua conservação e o lugar que ocupa no espaço.

Um corpo que parece nunca satisfazer… está sempre devendo, dono de um ideal nunca alcançado, gerando eternos desapontamentos.

Esse clima de frustrações, que assola as mentes mais porosas às influências do exterior, é somado às incongruências e contradições de uma época que interdita a gordura, apesar da exaltação à comida e às atividades gastronômicas, que proliferam na mídia; também se vive um forte incômodo com os sinais corpóreos do envelhecer, apesar de ironicamente o avanço da Medicina cada vez mais favorecer a longevidade.

O trinômio juventude-beleza-saúde faz parte do núcleo das aspirações dos jovens e adultos de nossa época e por que não dizer também das crianças, que, influenciadas pelas expectativas das famílias submetidas a essas ordens, correm o risco de herdar a severidade e ilusão de controle sobre a mãe-natureza.

Assim encontramos nossos jovens, muitas vezes quase crianças, que enredados pela imagem que produzem de si acabam aprisionando-se no corpo, que passa a ser seu senhor e seu algoz. Estamos próximos da dinâmica dos transtornos alimentares.

Um contexto delicado

Convém, nesse momento, fazer algumas considerações sobre o período adolescente, uma vez que é nesta época que são desencadeados transtornos antes adormecidos.

O adolescente, rumo à vida adulta, vê-se obrigado a dizer adeus à infância e aos poderes que isto lhe trazia, adeus às fábulas e ao faz-de-conta. Advém uma trepidação prenunciando a proximidade de um futuro que começa a se lhe apresentar. Agora surgem as incertezas a respeito de si e de suas capacidades.

Vive uma situação de intensa insegurança e abalos narcísicos, onde pequenos traços indesejáveis ou imperfeições no corpo ganham uma dimensão amplificada em seu psiquismo. Tem que dar conta de um novo corpo que se apresenta, agora dono de uma sexualidade descoberta a cada dia. O adolescente atravessa uma transição entre o que é e o que deseja ser e o que os outros esperam que ele seja. Momento delicado e vulnerável, onde os recursos defensivos podem não dar conta das pressões, das descobertas e das novidades. O corpo, agora mais ainda protagonista de suas histórias alia-se às exigências do ambiente e o adolescente pode eleger a comida como o representante dos seus afetos e de suas angústias mais profundas.

Quando surgem intensas perturbações no comportamento alimentar, quando o comer e o beber já não mais estão a serviço do viver, quando a alimentação não é sentida como um dos principais combustíveis para a vida e quando o corpo, a comida em si e as calorias envolvidas no ato alimentar passam a ocupar exageradamente o espaço mental, estamos nos referindo à dinâmica específica que compõe o quadro de um transtorno alimentar, especialmente a anorexia e a bulimia, focos principais desta escrita.

Preocupantes, esses distúrbios colocam em risco a saúde, provocando uma série de consequências desastrosas para a integridade física e mental do indivíduo acometido e comprometendo a vida da família como um todo[1]. Inundados por afetos e emoções, o corpo e a comida passam a carregar consigo histórias e representações emocionais muito intensas e que se ligam a proibições, culpas, medos, horrores, enfim, toda sorte de afetos e vivências persecutórias. No mundo dos transtornos alimentares é constante o relato de sensações de desprazer imperando o tempo todo.

Já dizia Freud (1895) que: “A neurose nutricional paralela à melancolia é a anorexia. A famosa anorexia nervosa de moças jovens, segundo me parece (depois de cuidadosa observação) é uma melancolia em que a sexualidade não se desenvolveu”.

Sentimentos de culpa são constantes: por ter comido muito ou por ter comido pouco ou não ter comido nada… ter vomitado, ter contrariado os pais, por causar transtornos no ambiente familiar. Anorexias, bulimias, transtornos do comer compulsivo, obesidade e obesidade mórbida são novos velhos sintomas investigados pela Psicanálise, que os toma como mecanismos defensivos contra estados de altas angústias onde o sentimento de culpa gerado pelos sintomas alimentares vem acompanhado por uma onda penitencial, com a sensação de débito constante de uma dívida impossível de ser quitada.

Mecanismo de compensação

Na obesidade é comum ouvirmos depoimentos de pacientes que percebem claramente que comem para preencher um espaço vazio emocional, uma falta, uma perda. Como não é satisfeita, a “fome de algo” provoca uma nova investida, pois a saciedade é fugaz, dura pouco tempo: aqui se inicia um processo compulsivo, que busca a saciedade e o prazer, difíceis de alcançar, pois há um engano quanto à direção a seguir rumo à completude almejada.

Também encontramos o sentimento de insatisfação nas anorexias. Elas têm como características centrais a restrição alimentar e o desejo incontrolável de emagrecer cada vez mais, não importando se a menina (esse transtorno incide principalmente no sexo feminino)[2] já está muito magra. Pode levar à grave inanição e estado de severa desnutrição. Em geral os quadros começam na puberdade, após dietas severas para perder peso.

Nas formas mais graves, existe distorção da imagem corporal (a menina está muito magra, mas vê-se gorda no espelho, por exemplo). Tem muito medo de ganhar peso e a gordura é aterrorizante. O pensamento é onipotente e o desejo de controle e alcance de perfeição imperam. As sensações de vazio interior ficam mescladas paradoxalmente com o sentimento de um mundo interior lotado, sem lugar para acolher mais nenhum afeto, nenhuma palavra, nenhuma alimentação.

As alterações quanto à percepção do próprio corpo fazem com que a apreciação do próprio peso e das formas do corpo assumam uma influência desproporcional na avaliação de si própria, levando à negação da gravidade de seu estado físico. A anorexia masculina vem aumentando a cada ano. Muitas vezes, a inanição fica escondida atrás dos músculos conseguidos na adesão intensa aos exercícios físicos, a chamada “vigorexia” ou síndrome de Adonis.

Tudo ou nada

As bulimias envolvem também a preocupação com o corpo e com o peso, mas sua característica principal é a hiperfagia[3], ou seja, episódios de “tudo devorar” e em curto espaço de tempo seguido de métodos compensatórios inadequados para evitar o ganho de peso, ou seja, mecanismos de purgação: vomitar o que foi ingerido, aderir exageradamente a exercícios físicos e até uso de enemas, laxantes e diuréticos como formas de expurgar as calorias que entraram em excesso no corpo.

Na bulimia, após o vômito, as meninas descrevem um humor depressivo e muita raiva por perceber a falta do controle sobre o ato de se alimentar. O início em geral é mais tardio do que na anorexia, localizando-se por volta dos 20 aos 30 anos, sendo rara a bulimia masculina. A aparência física também é diferente da que ocorre na anorexia, pois em geral, as meninas não são tão magras, seu peso é praticamente normal.

A meu ver, anorexia e bulimia não podem ser vistas e investigadas como distúrbios independentes e isolados um do outro. São duas faces da mesma moeda, ou seja, num indivíduo anoréxico está presente de forma escondida uma mente bulímica e vice-versa.

Tentativas de compreensão

A Psicanálise oferece sua contribuição aos fenômenos anoréxicos e bulímicos, tomando-os como sintomas orais, buscando o sentido da inapetência, do “nada comer”, do comer “o nada” e do “tudo devorar”. Procura ampliar o campo de compreensão dessas perturbações investigando, ao lado das manifestações expressas, as angústias primitivas e arcaicas que sombreiam o cenário desses distúrbios e que estão intimamente relacionadas aos primeiros momentos do desenvolvimento da vida mental.

Daí ser tão importante a presença da família no tratamento, e em especial a figura das mães, sofridas e assustadas e muitas vezes das avós, coadjuvantes terapêuticas essenciais do processo psicanalítico, pois temos hipóteses de que esses vínculos já vêm sofrendo dificuldades antigas na troca afetiva, tornando-se mais vulneráveis e porosos às influências do emocional ambiental.

Finalizando, essas perturbações antigas, de novas vestes, que compõem a clínica da atualidade, quais sejam: anorexias, bulimias, compulsões, adições, pânico etc., absorvem intensamente os impactos da cultura, com suas novas ordens e redes sociais, sofrem o exílio solitário que a virtualização traz, sofrem a influência tóxica das intrusões químicas de variadas procedências, enfim, embora a Psicanálise esteja sintonizada com as vivências de interioridade e rastreie a dimensão inconsciente do psiquismo do indivíduo em seu approach que vai de dentro para fora, as ressonâncias da realidade externa também são ingredientes da constituição e do discurso de nossos pacientes, fazem parte da cena da realidade, assim convocando a abordagem inter e transdisciplinar (médicos, psicólogos, nutricionistas, orientador dos pais, educador físico) em nossas investigações e grupos de tratamento.

Nas parcerias formadas, esperamos que o time que realiza o tratamento dessas perturbações sempre mantenha um vivo apetite para o trabalho, reconduzindo essas mentes para além das calorias geladas de afeto, rumo ao resgate do seu desenvolvimento saudável e de sua vida criativa, auxiliando-as na tarefa de tornarem-se quem são, inspirados nos versos de Píndaro (século V a.C.): torna-te aquilo que tu és!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION: Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fourth Edition, Washington, DC, American Psychiatric Association, 1994. DSM-IV-TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Trad. Cláudia Dornelles; – 4° ed. rev. – Porto Alegre: Artmed, 2002, reimpressão 2008.

ABERASTURY, A. Adolescencia. In: ABERASTURY, Arminda, et al. Adolescencia. Buenos Aires: Ed. Kargieman, 1976.

BIDAUD, É. Anorexia mental: Ascese, Mística: Uma abordagem psicanalítica. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1998.

FREUD, S. (1895) Rascunho G. In FREUD, S. Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, vol. I.

GRINBERG, L. La negación en el comer compulsivo y en la obesidad, Rev. Psicoanal, (Arg.)13 (2): 160, 1956.

RIO, LINDA e RIO, TARA (2003) Diários da Anorexia. São Paulo: M. Books do Brasil Editora Ltda., 2004.

 


[1] No livro, “Diários da Anorexia” (M.Books, 2004), escrito por mãe e filha podemos entrar em contato com a ilustração viva da experiência anoréxica que ambas viveram juntas.

[2] Refiro-me ao sexo feminino porque os estudos científicos estatísticos mostram um índice de 90% de incidência desses distúrbios nas mulheres. Dados extraídos do Current Medical Diagnosis & Treatment. Lawrence Thierney, Stephen McPhee, Maxine Papadakis (eds.). Stamford: Appleton & Lange, 1999.

[3] DSM-IV – Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – 4ª edição

 

Marina Ramalho Miranda: Psicóloga e Psicanalista. Docente e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Especialista em Saúde Mental pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

Fonte: http://pre.univesp.br/transtornos-alimentares#.WN52dhjOrwc  [postado em data: 26/08/15

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Psicanálise e Amor

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