November 21, 2017

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Tarde Lúgubre

Tarde lúgubre

Conto/Poesia

Autor: Cássio Vilela Prado

Aquela tarde ensolarada de inverno se tornou um insuportável pesadelo acrônico para o pai de Rafael. Toda ela, um recorte inapagável, surreal e realisticamente penoso, no qual dois conselheiros tutelares corriam atrás de seu único filho, uma criança de apenas cinco anos de idade que tentava escapar de seu destino: retornar ao convívio de sua mãe em outro município mineiro.

Eram perto de dezoito horas, quando os representantes da Lei do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) chegaram à sua residência.

Francisco era funcionário público, residia sozinho em uma pacata cidade do interior. Morava num barraco simples, embora bastante aconchegante. Apesar de ter vários amigos e colegas de trabalho, parecia que a solidão era a sua sina. Ele até gostava de viver sozinhamente. Até que o seu filho Rafael foi lhe ser uma agradável e jubilosa companhia. Durante a semana, quando ia para o seu trabalho, deixava Rafael na escolinha. Sempre de mãos dadas, desciam felizes pela ladeira… A sua ajudante doméstica buscava Rafael na hora do almoço e cuidava do seu filho até o retorno de Francisco ao anoitecer. 

– Viemos buscar o Rafael, a guarda judicial dele está em nome da mãe, é a Lei, o senhor sabe, né? Disse um deles, de forma constrangida.

Neste exato instante, Rafael, que acompanhou o seu pai até o portão da casa, feito um coelho, pôs-se a correr ligeiramente, subindo a rua e dobrando a primeira à esquerda.

Francisco, traumaticamente absorto, com o coração na mão e com a alma avariada, ainda que sem pernas, corria atrás de seu amado filho, com os conselheiros atrás.

Triste momento, o pai, diante de seu filho de apenas cinco anos de idade, sitiado pela Lei. Em apuros, alcançou Rafael e o juntou nos braços, acuado e aos prantos, embora protegido por Francisco.

– Pai, eu não quero ir. Não deixa, papai!

O silêncio imediato às palavras ditas por Rafael era bastante estridente, a agonia soluçante da criança era o único som que se ouvia naquele inacreditável instante.  O sol ainda emitia os seus parcos raios anunciando o seu iminente crepúsculo, o céu azul celestial cedia-se a um tom avermelhado escuro, talvez uma alegoria do inferno. Contudo, ao fogo solar sobrepunha-se um leve vento de inverno, prenúncio da chegada de mais uma noite fria.

Entre o amor e a Lei, estavam pai e filho. Dura castração simbólica nas entranhas reais da desgraciada díade.

Alguns transeuntes, que passavam diante daquele cenário infernal, disseram depois que o coração do pai estava aos frangalhos, sangrando pela rua abaixo, e que as lágrimas, que escorriam pela singela face de Rafael, lacrimejavam também nos olhos de todos os outros presentes.

Rafael viera a residir com o seu pai após um suplício comovente de sua mãe, mediante uma reunião realizada em sua residência. Alegara que se encontrava desempregada e sem recursos materiais, sobrevivendo apenas com a pensão alimentícia que recebia, paga mensalmente por Francisco. Estavam presentes todos os envolvidos, inclusive os representantes do ECA, que emitiram um documento no qual os envolvidos diretos o subscreveram com as suas rubricas, transferindo os cuidados e proteção da criança ao pai, com a sua imediata aceitação.

E os conselheiros daquela tarde fatídica? Pálidos e sussurrantes, pareciam não acreditar naquilo que faziam. Cumpriam uma lei, muito embora descumpriam outra: o acordo selado na residência da mãe da criança. Um verdadeiro impasse existencial se instalou à luz daquele estranho e aquentante sol, porém, gélida era a sua sensação.

Oh esquizoide sol! Indubitavelmente, a principal testemunha ocular de um cenário absurdo e dissociativo, onde a Lei era simultaneamente cumprida e descumprida, portando desmentida. A Lei nunca encontra a sua medida certa e justa… E o amor?

Que triste engano és tu, ó amor! Quando menos se suspeita, fazeis tudo desandar, soçobrais de ti apenas bêbados, poetas e pandarecos sujeitos melancólicos …

Uma dúbia e inumana lei simbólica triunfava sobre as verdadeiras e singelas emoções daquele par. O amor fraternal entre pai e filho era congelado em brasas álgidas por uma eclosão insípida e abrupta daquele episódio intemporal dramático, transbordando senão o sangue vermelho de suas almas, liquefazendo-se e escorrendo-se pelo declive de uma pequena rua.

A cena derradeira desse infausto dia não poderia ser menos traumática. Da dolorosa e relutante entrega de Rafael nos braços de uma conselheira, tudo estava turvo, não existia mais Sol nem Terra, nem brasa nem vento, apenas águas avermelhadas de desilusão e catástrofe, inundando as pálidas faces de Rafael e de Francisco.

– Não deixa eu ir, papai! Aos gritos aterrorizantes da criança, com o olhar em pânico e os lábios arroxeados.

– Vai dar tudo certo, meu filho! Eu sempre vou te ver e estarei ao seu lado. Você vai voltar a ficar com o papai! Já, já! Não se sabe como Francisco encontrou essas palavras, em meio à sua agonia inominável, para tentar atenuar a dor de seu amado filho.

No banco traseiro de um veículo oficial, nos braços da conselheira de plantão, o carro ia partindo…

Aos poucos, Rafael desaparecia… Com os olhos apavorados em direção ao trágico e apaixonado olhar de seu pai, cegamente atordoado e impotente.

Tempos depois, de fato, Rafael voltou a morar com o seu querido pai, após uma ferrenha luta no Tribunal.

Recentemente, depois de uma incessante e insana batalha obtusa desferida pela mãe, que não consegue viver sem a pensão alimentícia de Rafael, com o coração despedaçado, Francisco cedeu à pressão maternal e ao jogo psicológico perpetrado pela genitora.

Depois de muito dialogar com o seu amado filho, na tentativa de preservá-lo da guerra vil instalada, Rafael, aos treze anos de idade, retornou ao convívio da mãe.

Agora não existe mais aquela rua nem aquele sol, Francisco não precisa mais das estrelas, sequer do céu. Contudo, quando lhe bate uma saudade imensurável do filho, sempre vem à sua mente um fragmento do poema de Wystan Hugh Auden (1907- 1973):

“Funeral Blues”[1]:

“(…) He was my North, my South, my East and West,

My working week and my Sunday rest

My noon, my midnight, my talk, my song;

I thought that love would last forever, I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,

Pack up the moon and dismantle the sun.

Pour away the ocean and sweep up the wood;

For nothing now can ever come to any good.”.

– Tradução: “Blues Fúnebres”[2]

“(…) Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto

viveu, meus dias úteis, meu fim de semana,

meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;

quem julga o amor eterno, como eu fiz, se engana.

É hora de apagar estrelas — são molestas —

guardar a lua, desmontar o sol brilhante,

de despejar o mar, jogar fora as floresta

  pois nada mais há de dar certo doravante.”.

Vez ou outra, Francisco se depara com um carro oficial do Conselho Tutelar pelas ruas da cidade onde reside, fazendo-o, imediatamente, degustar o sabor amargo do nódulo asfixiante daquela tarde de inverno que se tornou indelével em seu paladar.

Naquele dia, a lembrança de Rafael sendo sequestrado pela Lei, dentro daquele carro oficial, pouco a pouco desaparecendo rua abaixo, era a única tela pintada diante dos olhos de seu pai, dia a dia, noite a noite, diuturnamente, para toda a sua vida; horas mais intensas, noutras menos, intermitentemente.

Sempre que essa saudade intransigente de Rafael bate no peito cansado de seu decrépito pai, estupefato que ficou com a fragilidade da vida com os seus correlatos momentos aleatórios e gratuitamente avassaladores, o “blues de Auden” se insurge retroativamente como fundo musical daquela tarde desencantada, atualizando-se na perpetuidade do agora.

Dizem que o verdadeiro amor é assim. Inesquecível, doído, pulsante e eterno.

Todavia, Francisco não se resignava ao absurdo da existência e da barbárie injustificada da Lei e das situações quotidianas. Aquela tarde amarga já estava terrivelmente letrada e musicalizada. Doravante, nada mais poderá silenciá-la…

Quanto à genitora de Rafael, parece viver perversamente feliz, embriagando-se cotidianamente ao som complacente e irresponsável da Lei, totalmente indiferentes ao “blues de Auden” e à musicalidade inolvidável daquela macabra tarde de inverno.

 

Conto/Poesia

Autor: Cássio Vilela Prado

[1] Original na Língua Inglesa, de acordo com:

http://archivadorvirtual.com/literatura/obras-literarias-del-mundo/tristeza-funebre-de-w-h-auden/

[2] Tradução para a Língua Portuguesa, conforme o texto em:    http://www.releituras.com/whauden_blues.asp

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Psicanálise e Amor

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