October 20, 2017

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Setting analítico: Que lugar é esse?

 

Setting[1] analítico: Que lugar é esse?

 

Luanna Lustosa

 

Quando falamos do setting analítico estamos falando de um espaço constituído por duas pessoas: o analista e o analisando. Mas que lugar é esse? Lugar de escuta e de fala entre os dois integrantes. Um lugar de estruturação simbólica dos processos subjetivos inconscientes[2]. De um lado o sujeito em análise com a sua demanda; do outro, o sujeito analista com a sua disponibilidade em escutar. Ambos regidos pelo inconsciente[3].

Por que não falar em uma relação à três ao invés de dois? Ou seja, o analisando, o analista e o inconsciente através da fala do primeiro e das intervenções e escuta do segundo. Sobre isso, Lacan afirmou que: “Se a palavra é tomada como ela deve ser, como ponto central de perspectiva, é numa relação a três, e não numa relação a dois, que se deve formular, na sua completude, a experiência analítica” (1953-1954/1986, p. 20).

No setting analítico o sujeito que estar em análise pode ser ele mesmo, sem pré-conceitos, sem julgamentos, sem receios, sem elaboração do que vai ser dito, simplesmente deixar fluir o seu eu/inconsciente e deixa-lo vir à tona através da fala, seguindo a regra fundamental da psicanálise – a associação livre. O analista por sua vez não opina, não moraliza, não julga. Ele mantém a sua atenção suspensa[4] em relação ao conteúdo que o analisando transmite. Sobre o papel desempenhado pelo analista, Freud afirmou que:

Ele deve voltar seu próprio inconsciente, como um órgão receptor, na direção do inconsciente transmissor do paciente. Deve ajustar-se ao paciente como um receptor telefônico se ajusta ao microfone transmissor. (…) O inconsciente do médico é capaz, a partir dos derivados do inconsciente que são comunicados, de reconstruir esse inconsciente, que determinou as associações livres do paciente (FREUD, 1912, p. 129).

Vale ressaltar o lugar do analista e do analisando no setting analítico. O analista cala o seu saber, ocupando o lugar da escuta analítica, para deixar o sujeito falar, permitir que o analisando se faça aparecer na cena analítica e descubra ser o protagonista dela. Tornando-se o sujeito protagonista, possibilita a sua descoberta quanto a ser sujeito de si, sujeito dos seus desejos. Dessa forma, o analista assume a posição de receptor enquanto o analisando o de transmissor, ambos conduzidos pelo inconsciente. O analista “… presença humana que escuta” (Françoise Dolto); o analisando responsável pelo desvelamento dos seus segredos mais íntimos que estão velados pelo inconsciente.

Ao final (se é que existe o fim), descobrimos que a análise e assim, o setting analítico assemelha-se a uma dimensão poética, por ser um ato criativo, de movimentação da vida a cada sessão, a cada discurso, a cada escuta, a cada silêncio, enfim, a cada[5] ato analítico o par – analista e analisando – cria e recria-se ao permitir que o inconsciente surja através do discurso e da escuta e também, das entrelinhas.

A trajetória que acontece no setting analítico pode ser associada ao caminhar, pois a análise proporciona encantos e desencantos no caminho percorrido pelo analisando e pelo analista. E o que falar para analista e analisando? Não insista em querer compreender ao “pé da letra”. E mais, com as palavras de Antonio Machado[6] prossigo: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar. ” Portanto, para ambos digo: Caminhe!

 Texto enviado pela Autora no dia 10/10/2017

Luanna Lustosa:

Luanna Lustosa , psicóloga desde 2013 e especialista em Avaliação Psicológica. Atua na clínica seguindo a abordagem psicanalítica. Reside em Ceará-Mirim/RN, onde possui o seu consultório na Clínica Santa Gema.

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Referências

FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: ___O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos (1911 – 1913)

GOMES, Sérgio. O lugar do analista e do analisando: o silêncio na psicanálise II. Rio de Janeiro, 200-.

Lacan, J. (1953-1954/1986). O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

[1] Traduzido no nosso idioma como enquadre.

[2] Em psicanálise, o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência: uma “outra cena” (ROUDINESCO, Elizabeth; PLON, Michel, 1998).

[3] “A comunicação que ali se instala entre o par analítico, liga os inconscientes e os corpos que ali dividem aquele espaço” (GOMES, 200-).

[4] Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma ‘atenção uniformemente suspensa’ em face de tudo o que se escuta (FREUD, 1912, p. 125).

[5] Repetição proposital.

[6] Poeta espanhol.

Sobre o(a) Autor(a)

Psicanálise e Amor

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