November 18, 2017

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PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE

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PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE: É POSSÍVEL UM DIÁLOGO?

Em que medida a psiquiatria e a psicanálise – campos de conhecimentos distintos – podem ser utilizados em conjunto no tratamento dos transtornos mentais? É possível um diálogo fecundo entre as duas disciplinas, tendo em vista os métodos próprios de cada uma delas?
Sobre o tema, vale conferir o ótimo e esclarecer artigo da psicanalista Thais Blucher, membro da SBPSP.

Psiquiatria e psicanálise: É possível um diálogo?

Por Thais Blucher* 

Recentemente, numa reunião de psicanalistas, um colega foi criticado quando relatou que determinados pacientes em análise necessitavam de um acompanhamento psiquiátrico concomitante. Num outro evento, em conferência num hospital, ouviu de uma colega psiquiatra que ela contraindicava psicanálise para pacientes mais graves que poderiam piorar com o método.

Esse relato parece ilustrar a dificuldade de diálogo que se intensificou nos últimos anos – um confronto entre as correntes biológicas e as correntes psicológicas – no tratamento dos distúrbios mentais.

A psiquiatria e a psicanálise são disciplinas distintas.
A psiquiatria é uma especialidade médica que estuda e trata os transtornos mentais tanto com medicamentos quanto com métodos psicoterápicos. Os psiquiatras, em sua formação, estudam a anatomia, a fisiologia das estruturas neuronais e as patologias da mente. Aprendem a bioquímica do comportamento e toda a farmacologia. Têm durante sua formação um panorama geral das abordagens distintas de psicoterapia, sendo a psicanálise uma delas. Caso o psiquiatra tenha a intenção de se tornar psicanalista deverá fazer uma formação em psicanálise nas diversas instituições reconhecidas.

Já a psicanálise nasce da medicina, com Freud, médico neurologista de Viena que, na escassez de recursos para tratar o sofrimento de seus pacientes, cria uma nova abordagem terapêutica, descolada da anatomia e fisiologia. Já na sua origem, a psicanálise se distancia do modelo médico da época.

Baseado em observações clínicas, Freud elaborou um modelo para elucidar o funcionamento mental e a formação dos sintomas, embora acreditasse que as explicações biológicas pudessem um dia ser alcançadas para explicar as transformações numa análise. Já nos primórdios ele valorizava a filosofia e a literatura como importantes conhecimentos para a prática psicanalítica. Se no início da psicanálise seus interlocutores são médicos, rapidamente ela vai agregando vários interessados de outras áreas. Em 1926 Freud publica um artigo em que defende a prática da psicanálise por não médicos, distanciando ainda mais essa disciplina de uma prática médica.

Durante a primeira metade do século 20, houve um grande domínio da psicanálise nos tratamentos psiquiátricos ambulatoriais, particularmente a psiquiatria Americana.

Na década de 50, surgiram os primeiros medicamentos psicotrópicos e, nas décadas seguintes, ao mesmo tempo em que as drogas progressivamente entravam na prática ambulatorial, também aumentava a polarização da psiquiatria entre os campos “biológico” e “psicológico”. Com o avanço das diretrizes diagnósticas e da metodologia das pesquisas, a medicina cada vez mais passou a ser baseada em evidências, território no qual os estudos com psicofármacos desenvolveram-se imensamente (muito incentivados pelos recursos da indústria farmacêutica).

Desse modo, comparativamente, a psicanálise, apoiada num paradigma muito diferente do tratamento medicamentoso, pouco pode provar sobre o quanto ela conseguia curar, prevenir ou retardar o curso dos transtornos mentais. Como consequência, a psicanálise foi se distanciando da comunidade médica, dando espaço para psicoterapias mais breves, mais simples de serem avaliadas como, por exemplo, o método cognitivo.

Como será que estas disciplinas conversam?

A psicanálise se propõe a compreender os sintomas por meio do método da associação livre, em que o paciente fala o que lhe vem à mente e o psicanalista tenta dar sentido ao relato, supondo que desta forma o sofrimento ganhará uma compreensão e poderá ser elaborado. Um bom modelo seria o de um quebra-cabeça. O paciente traz vários relatos sobre si e juntos, paciente e analista, tentam encontrar a ligação entre as peças e assim dar instrumentos para o analisando lidar com as questões da vida.

Ora, se o paciente encontra-se numa crise intensa seja depressiva, maníaca, de ansiedade, num distúrbio alimentar ou outras, esse sofrimento pode retardar ou até impedir a evolução do processo.

Num texto interessante, dois colegas psiquiatras e psicanalistas Fiks e Santos Jr citam a pesquisadora Kay Redfield Jamison, uma das maiores especialistas no campo dos transtornos bipolares, ela mesma portadora da doença, que relata que quando estava em excitação ou depressão não conseguia produzir nada.

Ao contrário da cultura leiga que acredita que a aceleração produza mais ideias e a depressão mais conteúdo ao sofrimento, Jamison relata que a excitação é muito pueril e que a inibição depressiva traz um sofrimento exagerado. Dentro deste ponto de vista, a medicação psiquiátrica será um instrumento de colaboração ao atendimento psicanalítico, pois alivia o paciente do excesso de sofrimento e permite maior condição para o desenvolvimento da análise.

Por outro lado, as medicações psiquiátricas têm seus mecanismos de ação e sua farmacocinética bastante conhecidas, mas nem todos os sofrimentos são resolvidos com os psicofármacos, sugerindo que existam outros fatores, que não apenas os biológicos, contribuindo para o desencadeamento e manutenção dos sintomas.

A psicanálise poderá trazer outra versão para os acontecimentos da mente e buscar na compreensão dos processos mentais a origem e o desencadeamento dos sintomas. Pode inclusive contribuir na melhor aceitação do analisando para o uso da medicação, compreendendo as fantasias inconscientes que às vezes impedem a aderência ao tratamento.

Finalizarei citando Frey, Mabilde e Eizirik num artigo para Revista Brasileira de Psiquiatria: “acreditamos que, ao abordar os problemas mentais a partir de uma visão exclusivamente biológica ou psicológica, pode-se estar negando um tratamento mais adequado ao indivíduo que sofre. Um dos nossos desafios é reconhecer a complexidade e a multifatoriedade dos transtornos mentais e buscar meios em que se possa integrá-los ou, ao menos, desenvolver e manter um diálogo respeitando as especificidades de cada um. Talvez essa meta precise levar o tempo necessário para a elaboração do luto da perda da onipotência daqueles que (ainda) defendem o reducionismo”.

*Thais Blucher é psiquiatra, psicanalista e membro da SBPSP.

Origem do texto: http://psicanaliseblog.com.br/2015/07/06/psiquiatria-e-psicanalise-e-possivel-um-dialogo/

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Psicanálise e Amor

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