December 12, 2017

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O que pode um psicanalista

OS LIMITES DE UMA PRÁXIS: O QUE PODE UM PSICANALISTA?

Silvia Mangaravite

Certa vez uma velha dama da psicanálise me disse: “indico esta pessoa para voce pois sei que, caso tenha que escolher entre a pessoa e a psicanálise, escolherá a pessoa”
Na época não entendí bem a que ela se refería, mas há algum tempo me veio o sentido deste dito ao conversar com um amigo psiquiatra sobre uma mulher que indiquei a ele para que a medicasse, ele me disse: ” voce pega estes casos?” e eu: “como assim?” e ele me responde: ” porque a maioria dos analistas não pega não”. Eu fiquei surpresa com este dito e respondí-lhe: ” e desde quando nossa funçao de analista, nos permite éticamente a escolher os analisantes?”.
Trago este relato aqui para expor uma questão: O que é permitido ao analista quando ele sai de sua funçao, é possível que ele consiga operar saindo de sua funçao?

Levou muitos anos para que Lacan elaborace os conceitos da psicanálise através de seu estudo de Freud e sua elaboração foi toda ela feita através de sua práxis, para que ele conseguisse nos aproximar o mais claramente possível de seus conceitos:

1)o que é um psicanalista?
2) que é uma psicanálise?

Questão esta trazida como herança freudiana, não sem os furos da angústia, a invasão do Real no Imaginário, sem que tenhamos que “ser” psicanalistas mas sim a partir de uma função, um lugar que se ocupa,”poder estar funcionando neste lugar de psicanalista para alguém que nos delega este lugar”.

Este “deve pagar com uma libra de carne, com seu des-ser.”

E quando sabemos que não estamos mais nesta função de analista? Uma das coisas que não temos dúvida é quando a angústia nos toma,alí estamos nós, os sujeitos, e não o sujeito que abriu mão de seu ser para fazer a função de analista para aquele outro que o procurou para aplacar a sua dor.

E é possível ocupar esta funçâo o tempo todo em uma prática? Lacan mesmo vem nos dizer que não, que isto não é possível. Somos falantes e como tais existimos a partir de uma falha, falta, buraco, seja lá qual significante preferirem.
E quando nossa responsabilidade de dirigirmos uma cura falha, por um erro de cálculo nosso?
É sobre esta questão que me propus discutir aqui hoje.

Vou trazer um pequeno fragmento de minha clínica para exemplificar: Uma jovem senhora que estava em tratamento comigo separou-se do marido e este era ” sua segurança”. Logo a seguir não sustentou esta posição e decidiu voltar e o marido não quis. Esta senhora então toma uma série de compridos e telefona para seu ex marido para contar-lhe o ocorrido. Ele me telefona e pede uma orientação e eu digo que por mais que ele tivesse suspeitado de uma manipulação dela, era necessário que ele fosse até lá verificar. De outras vezes ela fez a mesma coisa e sempre no intuito de que ele fosse até ela. Como uma determinada vez também tentou se jogar pela janela na presença dele. Aconteceu que depois de alguns meses sem estes episódios,o marido desta minha analisante me telefona de outro país e me diz que ela estava tentando se matar em casa. Eu telefono para ela e ela não atende. Telefono para ele e ele me pede para fazer o que fosse possível para salvá-la, isto depois de uma conversa onde ele ficou com a dúvida de que podería ou não ser manipulação. Pensei então o seguinte: Não foi ela que me pediu socorro, o que eu faría? Angustiei-me com esta dúvida, ao angustiar-me sabía que havía saído de minha função de analista e mesmo assim agí. Telefonei para ela e nem seu telefone de casa nem o celular atendía. Fui até a casa dela e batí na porta. Não atendeu o interfone nem a campainha. Ligo novamente para o telefone da casa e celular. Nada. Chamo os bombeiros e eles quebram a porta. Entramos e ela está estendida no chão. É levada para o hospital e depois de ficar em coma por 3 dias, sobrevive. Depois disto a analisante demorou alguns meses para retornar a meu consultório. De seu relato incial disse-me que eu invadí sua vida, que não tinha direito de interromper sua decisão. Mais tarde disse-me do medo de ter morrido, que ouviu no hospital o médico dizendo que ela podería ter morrido. Depois consegue me dizer que foi naquele momento que decidiu que não tentaría mais se matar e que ficou com raiva de mim porque se eu não tivesse ido até lá salvá-la, ela jamais sabería de seu erro de cálculo. ( ela quando ligou para o ex marido não sabía que ele não estava na cidade)

Daí ficou claro para ela que até mesmo sua decisão de “morrer” ela havía atribuído a mim seu fracasso e foi a partir deste ponto que ela percebeu que sempre que colocasse sua responsabilidade na mão do “outro”, ela fracassava.

Em quase 30 anos de prática, vejo que nos 6 analisantes que houve ou o dizer de que se mataríam ou a tentativa de se matarem, e se digo 6 podem ter certeza de que foram exatamente 6, porque isto não é possível de se esquecer, ainda que em nehuma destas tentativas tenha havido sucesso nestas, não posso dizer que sempre houve sucesso em minha condução, isto porque, primeiro, quando o analista saí de sua função ele precisa se reposicionar para verificar quais foram os furos, se os houve, de sua condução e ao mesmo tempo, por parte do analisante, a presença física do analista fora do setting, ainda mais em seu espaço físico mais íntimo que é da casa do analisante, pode ser extremamente invasor e devastador. Se o analisante tomar como “devasta/dor”, ele possivelmente continuará sua analise, se não, ele a irá interromper, pelo ao menos com aquele analista que o antendía anteriormente.

Agora, para concluir, direi que mesmo sabendo que saio de minha função pelo sinal de angústia, prefiro me arriscar a escolher o analisante do que o não sair de minha posição e escolher a psicanálise. Isto porque mesmo estando sendo sujeito sob angústia num segundo momento, estarei ainda assim escolhendo a psicanálise, pois impedindo ou tentando impedir a morte de alguém, mesmo que suposta, o que estou escolhendo realmente é a psicanálise, pois como analista a única coisa que posso desejar é que o analisante fale e nada mais, ou seja, “o desejo do psicanalista é de que haja análise, somente este”, por isto quando alguém morre, deixará de se manter como falante, então o que pensam que escolhí?

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Autora: Silvia Mangaravite Psicanalista – Fonte: http://psicanaliseparaquem.blogspot.com.br

Créditos direto na Imagem.

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Psicanálise e Amor

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