November 18, 2017

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Neurose Atual Neurose de Angústia

Neurose Atual – Neurose de Angústia e Neurastenia / Psiconeurose
                                                                                                                                                         

   Texto de:  Sandra Barboza Costa – Psicóloga e Psicanalista em Jundiaí

Comida – Titãs

Bebida é água! Comida é pasto!
Você tem sede de que? Você tem fome de que?…

A gente não quer só comida
A gente quer comida, Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída, Para qualquer parte…

A gente não quer só comida, A gente quer bebida, Diversão, balé
A gente não quer só comida, A gente quer a vida, Como a vida quer…

A gente não quer só comer, A gente quer comer, E quer fazer amor
A gente não quer só comer, A gente quer prazer, Prá aliviar a dor…

A gente não quer, Só dinheiro, A gente quer dinheiro E felicidade
A gente não quer Só dinheiro, A gente quer inteiro, E não pela metade…
Desejo, necessidade, vontade…

Freud elege a angústia como tema da clínica e da reflexão. Mas afinal, o que é a Angústia?

Como diz Laplanche e Pontalis, Freud isolou e diferenciou Neurose de Angústia:

– do ponto de vista sintomático;
– do ponto de vista etiológico;

Do ponto de vista sintomático, diferenciou Neurose de Angústia, da Neurastenia, pela predominância da angústia (espera ansiosa crônica, acessos de angústia ou equivalentes somáticos desta).

Do ponto de vista etiológico, da histeria. A Neurose de Angústia é uma neurose atual, mais especificamente caracterizada pela acumulação de uma excitação sexual que se transformaria diretamente em sintoma, sem mediação psíquica.

De acordo, com Laplanche e Pontalis, do ponto de vista nosográfico, Freud isola da síndrome classicamente descrita como Neurastenia uma afecção centrada em torno do sintoma principal da angústia. Sobre um fundo de excitabilidade geral, destacam-se diversas formas de angústia: angústia crônica ou espera ansiosa suscetível de se ligar a qualquer conteúdo representativo que lhe possa oferecer um suporte; acesso de angústia pura, como, por exemplo, o pavor noturno, acompanhada ou substituída por diversos equivalentes somáticos, como vertigem, dispnéia, perturbações cardíacas, exsudação etc; sintomas fóbicos em que o afeto de angústia se acha ligado a uma representação, mas sem que se possa reconhecer nesta um substituto simbólico de uma representação recalcada.

… Freud fala sobre a angústia a vida inteira, o primeiro livro onde o tema da angústia aparece é de 1893 e diz sobre a etiologia das neuroses e o último é uma palestra nas novas introduções de psicanálise conferências de 1932. São 39 anos escrevendo sobre angústia, ou seja, de 1893 a 1932. O tema sobre os critérios para destacar da Neurastenia uma síndrome particular intitulada de “Neurose de Angústia” é um dos escritos  mais importantes sobre o tema da angústia. Os especialistas dividem o estudo de Freud sobre angústia entre a primeira teoria da angústia e a segunda teoria da angústia, sendo que o tema acima descrito é um dos mais importantes textos da chamada primeira teoria de angústia de Freud.  Ainda aqui e até o fim da vida de Freud a teoria de angústia é uma teoria inacabada, provisória, incompleta. Ele sempre dizia que não estava pronta. Alguns autores, como Manoel Tosta Berlinck, sociólogo e psicanalista, diz que Freud não tem teoria, pois teoria dá uma idéia de estabilidade, coisa que Freud não tem, diz ele. Para Manoel Tosta Berlinck, Freud  tem metapsicologia, mas não teoria.

Metapsicologia é uma reflexão dinâmica sobre a clínica e vai estar sempre sendo alterada.  Luiz Alfredo Garcia-Roza, em Metapsicologia Freudiana volume 3, menciona que Freud muito se incomodava com o fato de Adler ter pretendido dar uma explicação para todo e qualquer comportamento humano, pois isso contrariava demais a proposta Freudiana, a qual jamais pretendeu oferecer uma teoria completa da atividade mental humana. Freud tem a concepção de ciência muito dinâmica. Aliás, a concepção de ciência de Freud, diga-se de passagem, é muito moderna em si.  Freud, ao contrário de querer ter a verdade sobre tudo, dizia sempre para fazerem questionamentos sobre a sua interpretação dos fatos. Dizia ainda, que sua interpretação dos fatos era sobre os fatos clínicos que ele conhecia e que portanto, se faz muito importante para o clínico fazer a distinção  entre   uma  fenomenologia, ou seja, aquilo  que  ele  vê,  percebe,  encontra e uma interpretação dos fatos. Maurice Merleau-Ponty, filósofo fenomenologista francês, estudante da psicanálise e da psicologia disse uma frase genial que diz: “uma boa descrição é quase uma interpretação”. Freud é muito cuidadoso na descrição dos fatos e faz uma descrição cuidadosa da sintomatologia da neurose de angústia.  Descreve distúrbios respiratórios, cardíacos, parestesias entre outros, com rigor de um médico e nos mostra que ele é muito cuidadoso com os fatos e muito cuidadoso para descrever o que está diante dele.

Zeferino Rocha, psicanalista brasileiro, doutorado na França e professor em Recife, senhor maravilhoso com ótima formação filosófica, segundo professor Sérgio Telles, autor do livro Os destinos da angústia na psicanálise Freudiana, trata em seu livro sobre a angústia na obra de Freud e na obra de Heidegger. Sérgio Telles enfatiza a importância do trabalho de Zeferino Rocha, por este colocar Freud dialogando com Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, que tem a angústia como um dos temas centrais de sua obra. Heidegger diz que a angústia é a experiência que nos devolve radicalmente à condição humana, pois quando não sabemos nada sobre a angústia, não sabemos nada sobre a condição humana e nem sobre a condição da nossa finitude. Estar com a experiência da angústia é saber que nós somos mortais, lembrando que Freud, também tematiza isso de uma maneira ou de outra.

“ A angústia não é só um dos conceitos fundamentais da metapsicologia freudiana, ela é no dizer do Freud um ponto nodal, para o qual convergem as mais importantes questões da pesquisa psicanalítica e a reflexão sob esse enigma deve projetar uma torrente de luz sobre a nossa vida psíquica. Assim sendo, não é de admirar que ela seja na avaliação do próprio Freud um dos problemas mais difíceis da existência humana “  Zeferino Rocha – Os destinos da angústia na psicanálise Freudiana

Como dito anteriormente, Freud atravessa sua obra inteira com o tema da angústia. Lida com a angústia com uma riqueza e com uma profundidade incrível. Em pelo menos treze de seus trabalhos ele trata sobre o tema da angústia, tanto com implicações teóricas, quanto com implicações clínicas.

Nós poderíamos resumir, e brincar talvez, como sempre digo ao professor Cláudio E.M. Waks, é muito bom aprender brincando, porque não brincar uma vez que a psicanálise  nada mais é do que uma estratégia para pensar e lidar com a angústia humana ou com a angústia dos nossos pacientes.

O texto sobre critérios para destacar da Neurastenia uma síndrome particular intitulada de “Neurose de Angústia” é um entrecruzamento de duas linhas de investigação de Freud, a saber. A primeira investigação é sobre a angústia que é um tema complexo e difícil em que Freud vai aprofundando e transformando-a ao longo de toda a sua obra, sem obter uma resposta simples; e a segunda investigação é sobre a neurose atual.

No tema da neurose atual estamos mais em contato com o Freud neurologista, médico. Freud está olhando sua clínica e está vendo coisas que está inquietando-o.

Freud, com a descoberta do inconsciente, através do estudo feito em pessoas, na maioria mulheres, denominadas pacientes histéricas, que apresentavam distúrbios crônicos do corpo sob a influência de distúrbios emocionais, abala profundamente o conceito de sintoma. Antes, o sintoma era tido como o reflexo direto de uma causa, com a qual guardava uma relação de correspondência direta de causa e efeito, não suspeitando, nem de longe, que o sintoma percorresse etapas tão distantes da consciência. Era difícil imaginar que as respostas orgânicas do sistema imunológico, dos hormônios, sofressem influências de mecanismos inconscientes. Foi preciso que Freud, em seu trabalho, junto com Josef Breuer, médico e Jean Martin Charcot, também neurologista, notassem que certas paralisias atípicas para os padrões de anatomia do sistema nervoso central e periférico, pudesse se originar da atuação de algo ainda não reconhecido, o que pode posteriormente comprovar e batizá-las de sintomas histéricos. Examinando as pacientes (quase exclusivamente mulheres), Freud percebe que, além da atipicidade sintomática, havia a possibilidade de reversão do quadro, fazendo uso de procedimentos sugestivos. Naquela época usava-se uma técnica de cura chamada de magnetismo animal, uma espécie de infusão de energia que teria a propriedade de resgatar a saúde. Esse método era desenvolvido pelo frei Antão Mesmer, o que motivou o nome de mesmerismo para esse tipo de tratamento. Mesmer percorria a Europa cuidando da saúde das pessoas, fazendo uso de seu método, que consistia em colocar a mão sobre a testa do doente e infundi-lo com ondas de energia que passariam pela ponta de seus dedos. Para alguns, isso era totalmente inútil, enquanto para outros promovia curas milagrosas. A coincidência que chamou a atenção de Freud foi que as pessoas que melhoravam eram exatamente as atípicas, as outras nem se abalavam. Preocupado com o fator que interagia, tanto na atipicidade, quanto em sua recuperação, improvável nos quadros neurológicos, observou com cuidado as características emocionais dessas pacientes, por notar certo padrão em sua forma de ser. Chamou-lhe particularmente a atenção a fragmentação do discurso histérico. As variações dentro de um mesmo tema, exageros, esquecimentos e teatralidade, caracterizavam a forma de ser histérica e puderam ser percebidos por Freud como a manifestação particular de um conflito. As paralisias eram apenas expressões finais de uma longa cadeia de acontecimentos, que se mantinham na maior parte, ainda distantes da consciência. Ao centrar-se no discurso e não no sintoma, Freud promove o salto estrutural, semelhante ao que acompanhamos na antropologia, ou seja, passa a decodificar nas ações humanas uma marca, um índice de seus esquemas de funcionamento. Freud relega o sintoma a uma posição secundária, uma vez que nem sempre o sintoma guarda uma relação direta de causa e efeito com uma afecção. No caso da histeria, não havia uma afecção e sim uma forma particular de expressar-se que refletia tendências subjetivas, insuspeitas para o próprio sujeito, as quais se refletiam em seu desempenho. Analisá-lo poderia fazer com que se revelasse a essência do que confundia o sujeito, até mesmo para si próprio.

Logo depois de investigar o tema da histeria junto com Josef Breuer e com Jean-Martin Charcot, Freud vai numa linha paralela começar a pensar o tema da neurose atual. Freud estuda esse enigma da neurose atual por uns 8 ou 10 anos e concluindo que a psicanálise pode fazer pouco para a neurose atual, abandona esse tema, retomando-o no fim da sua vida como uma antecipação e uma provocativa para que pudéssemos retomar os estudos sobre neurose atual em nossos últimos 20 ou 30 anos. Parece que a provocativa de Freud deu certo, pois o tema da neurose atual está sendo recuperado na psicanálise de todo o planeta como um grande tema da atualidade, aproximando a psicossomática deste tema. É um cruzamento do tema da angústia e da neurose atual.

Olhando a obra de Freud dinamicamente, ou seja, para trás e para frente, vemos que ele pretende separar neurastenia da neurose de angústia. Em 1893 e 1894, Freud está elaborando a idéia de que qualquer neurose tem origem sexual. Neste momento ele está fazendo a distinção fundamental de sua obra entre neurose atual e psiconeurose, chamada atualmente, por vezes, de neurose, chamada também, por Freud, de neurose de transferência. Nesse momento, Freud distingue a neurose atual da psiconeurose; sustenta que as duas têm uma origem sexual e paga um alto preço por isso. Chegou a  brigar com Josef Breuer por causa disso. Breuer falou que não queria seu nome num artigo que sustentasse tal hipótese e disse à Freud que se o mesmo quisesse publicar deveria colocar só com o seu nome. Desde então, Freud e Breuer, começaram a publicar separadamente. Breuer fala que até concordaria e assinaria se Freud dissesse que algumas neuroses têm origem sexual, mas dizer que todas são de origem sexual, isso ele não assinaria. No entanto, Freud continuou a insistir que tanto a neurose atual quanto a psiconeurose ou neurose de transferência sempre têm uma origem sexual.  Freud explica que a neurose de angústia é um acúmulo de excitação sexual que não encontra estar, que não encontra fluição.

Moustapha Safouan, em Seminário – Angústia, Sintoma e Inibição, diz que a angústia está ligada não à perda de um objeto, mas à insatisfação que resulta do crescimento da tensão da necessidade.
Freud diz num de seus rascunhos para Wilhelm Fliess, seu grande amigo, que encontrou na clínica psicanalítica uns cem números de pacientes que estavam sofrendo de neurose e de angústia, em particular,  porque a vida sexual deles era insatisfatória. Neste momento faz-se a primeira distinção entre uma neurose atual e uma psiconeurose, lembrando que a neurastenia faz parte das neuroses atuais.

Freud percebe que certas pessoas são neuróticas no sentido da sintomatologia do comportamento de uma neurose, mas que essa neurose não tem a ver com a biografia psíquica do sujeito, ou melhor, não tem prioritariamente a ver com a biografia do sujeito. Isso pode parecer estranho, mas é que na neurose atual a causa da neurose não tem a ver com o Édipo. Nas psiconeuroses, chamadas comumente por Freud de neuroses de defesas ou de transferência, Freud diz claramente que a origem disso tem a ver com o Édipo. Simplificando uma coisa complexa, Freud diz que neurose está relacionada com o Édipo, com a biografia do sujeito, ou seja, tem a ver com a forma como o sujeito se relaciona com papai e mamãe. Tem a ver com o destino psíquico que o sujeito dá para a libido. Diferente das psiconeuroses, Freud está dizendo que nas neuroses atuais a energia sexual nem passa pelo aparelho psíquico.  Apesar de corpo e mente ser uma coisa só para Freud, ele diz que existem duas faces dessa realidade humana e que a neurose atual manifesta-se mais na face corporal, somática.

Em comum, Freud diz, em 1893, que toda neurose, tem a ver com uma insuficiência na realização sexual. Na psiconeurose (neurose de transferência, neurose de defesa) ou no sentido clássico, na neurose que a gente chama de neurose hoje em dia, a insuficiência sexual tem a ver com conflitos de natureza psíquica. Basicamente nesta época, Freud pensava que esses conflitos se davam entre o ego e o superego, ou entre o id e o ego, ou seja, o sujeito tem o desejo de sexo, tem a pulsão erótica, mas tem uma sociedade que o reprime. O ego lhe diz que não pode ficar transando toda hora, com todo mundo, por exemplo, então você tem uma frustração e isso em grande medida explica a neurose.  Explica que a neurose é a tensão entre instâncias da psique que desejam e proíbem o prazer e a realização sexual ao mesmo tempo. Essa definição é dada à neurose clássica, ou seja, à psiconeurose. Neste sentido, o que Freud está dizendo é que na neurose atual existe uma frustração sexual, mas ela não encontra na biografia do sujeito a sua explicação. Encontra a sua explicação em outro lugar. Qual é este lugar? Este lugar é hoje, atual. O sujeito encontra uma frustração em sua vida sexual hoje, ou seja, atualmente. Não é no passado. O grande exemplo que Freud associa neurose de angústia com uma prática muito comum no final do século XIX é a prática do coito interrompido. Sabemos que no final do século XIX não tínhamos o anticoncepcional. Isso era um grande problema. Tínhamos métodos precários contra a natalidade. Hoje em dia não fazemos idéia da revolução que a pílula anticoncepcional produziu. Podemos pensar também e refletirmos como psicanalistas, sobre a grande revolução que o Viagra também está produzindo em nosso meio social e psíquico, incluindo também as técnicas todas de reprodução assistida. Freud está dizendo que no século XIX os casais dispõem de poucos recursos para evitar a gravidez e o recurso muito comum no fim do século XIX e início do século XX era o que se chamava de coito interrompido ou onanismo. Esta palavra conta de um relato que está lá no livro do Gênesis de um homem chamado Onã que fazia isso regularmente.

Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. Gênesis 38:9

Como acima descrito, vemos que essa prática é antiga.  O coito interrompido se dá quando o homem em vias de ejacular sai da mulher e ejacula fora. Freud diz que se isso acontecesse vez ou outra não faria mal nenhum, mas se um homem pratica regularmente com sua mulher o coito interrompido, então pode gerar a neurose atual. Essa é uma das práticas que Freud mais destaca no seu artigo de 1893 em que distingue neurastenia de neurose de angústia. Numa relação sexual há duas possibilidades. Existe a possibilidade do homem ser gentil e cuidadoso com sua mulher para ela não engravidar, onde ela tem orgasmo e ele tem orgasmo muito prejudicado fora dela, passando ele a ter neurose atual se isso for sua prática regular e contínua depois de anos a fio; e outra possibilidade é se for o contrário. Ele, o homem, é pouco cuidadoso com sua mulher, ejacula rápido demais e ela não tem orgasmo e/ou ele tem mais prazer do que ela porque ele controlou a velocidade do ato sexual para ele ter mais prazer,  então ele não adoece e ela adoece se isso também for uma prática regular que acontece por anos a fio. Isso não é uma coisa que acontece de uma hora para outra, para gerar uma neurose atual tem que ocorrer por muito tempo.  Freud atendeu casais que estavam muito mal, mas que a mulher ao engravidar, visto que podiam, por nove meses, transar sem fazer coito interrompido, com uma prática sexual mais gratificante para os dois, fez com que a neurose desaparecesse. Com isso, Freud está dizendo que se o sujeito tem uma vida sexual que tem estímulo sexual e não tem gratificação, e que se essa for a sua prática sexual mais importante ou única por muitos anos, o mesmo pode adoecer de uma neurose, chamada aqui de neurose atual. Essa é a primeira explicação que o Freud dá sobre o que é a neurose atual.

Com a masturbação é a mesma coisa? Aí é que entra a distinção que Freud faz entre neurastenia e neurose de angústia. Freud descobre em sua prática clínica que muitos homens são masturbadores, sem contudo excluir as mulheres. Ele fala que existe muitas mulheres que têm esse homem que está mais preocupado consigo mesmo do que com o orgasmo delas e que então, elas acabam encontrando o orgasmo na masturbação, lembrando que esta pode ser uma prática até os dias de hoje, pois existem mulheres que não têm orgasmo na penetração e acabam se masturbando para conseguir obtê-lo. Freud, então, começou a fazer a distinção que pretendia há tempos. Ele estava tentando fazer duas distinções, uma entre neurose atual (neurastenia) e psiconeurose, que são os dois grandes temas do trabalho de Freud na década de noventa.

Freud está lutando para entender os fenômenos que são de natureza neurológica, pois Freud nunca deixou de ser médico. Ele está trabalhando com a histeria, que é a grande referência com o tema da psiconeurose de defesa, neuroses transferênciais e com outro tema que é o tema da neurose atual, que é onde ele se preocupa com o corpo propriamente dito e seus sintomas, incluindo palpitação, dispepsia, dificuldades respiratórias, pequenas lesões… Esse é o Freud médico, neurologista. Ele nomeia três classes de problemas nas neuroses atuais: distúrbio do coração (taquicardia, arritmia), distúrbios de respiração (dispnéia) e distúrbios digestivos, chamados de dispepsias. Esses sintomas são bem parecidos à sintomatologia do pânico que se apresenta nos tempos atuais.

Freud diz que a neurose atual tem a ver com uma vida sexual insatisfatória atual. A neurose de transferência (psiconeurose) tem a ver com uma vida sexual insatisfatória, mas de natureza psíquica e não atual. Freud fala muito de neurose atual em pessoas que assumem a abstinência, por razões várias, de ordem religiosa ou por razões morais e que sistematicamente isso traz conseqüências.

A neurose atual, para Freud, se dá devido a uma má gratificação da vida libidinal, ou seja, quando o sujeito gratifica mal a vida libidinal isso produz angústia. Porque produz angústia? Diz Freud. Porque tem um resíduo de excitação corporal tão grande que ele não consegue escoar. O que Freud está dizendo é que por uma razão que não se entende completamente, nas chamadas neuroses atuais a excitação sexual ou libidinal, excitação somática, o sujeito não consegue ter isso claramente na psique.

Freud diz que a neurose atual tem a ver com dois elementos da prática sexual insuficiente. Uma delas, na neurose de angústia o grande símbolo é o coito interrompido e na neurastenia é a masturbação. De qualquer forma, na neurose atual, o sujeito tem uma insatisfação na vida sexual devido a uma vida sexual, que podemos chamar de “pobre”. Contudo, não é só isso diz Freud. O neurótico atual tem alguma coisa no funcionamento dele em que a excitação corporal não entra na psique.

Neurose Atual:

• Ausência de mediação simbólica;
• O mecanismo de formação dos sintomas em jogo nas neuroses atuais seria sintomático e não simbólico;
• Não significa, pura e simplesmente, uma descarga da tensão no corpo, mas a impossibilidade, total ou parcial, de sua elaboração e transformação em afeto;
• Por isso, diz-se que o sintoma ocorre sem nenhum propósito aparente à  não se sabe qual seria sua intenção.

Sabemos que Freud inventou a noção de pulsão (trieb). A pulsão é uma “coisa” que fica entre o corpo e a alma. A pulsão transmite para a psique aquilo que o corpo excita. O corpo se excita e a pulsão passa para a psique, é como se a pulsão fosse os neurotransmissores que chegando até o cérebro pedissem para que o mesmo traduzisse para o corpo o que está acontecendo.  Há uma contigüidade lingüística, como diz Luiz Hanns, e também psicanaliticamente, que acompanha todo esse movimento da pulsão que conduz do somático ao processo secundário, passando pelo primário, que são enlaçamentos semânticos entre os verbos representar, alucinar, imaginar, fantasiar, desejar e pensar. Essa seqüência pulsional se forma e emana do corpóreo (somático), passa pelo processo primário e desemboca no pensamento do processo secundário. Quando flui naturalmente, você é um psiconeurótico, ou seja, um neurótico de defesa e/ou um neurótico de transferência, porque trouxe a pulsão ao seu aparelho psíquico.  Aí vem o superego, com regras e/ou leis proibidoras, como por exemplo, não, não pode transar, isso é pecado… aí vem o conflito… Isso é a psiconeurose, vem a excitação no corpo, entra a pulsão na psique, faz conflito e se você não conseguir resolver o seu conflito você adoece de uma neurose e vai para um analista e se as coisas funcionarem melhor você não precisará de um analista. O que Freud está dizendo é que quando a pessoa não consegue passar para a psique essa excitação sexual e o corpo, além disso, não consegue descarregar a excitação numa vida sexual boa, a pessoa cai num outro tipo de neurose,  que não é a psiconeurose, mas é a neurose atual a qual tem quase os mesmos sintomas da psiconeurose, mas com origens diferentes.
Pensando na histeria, que é uma psiconeurose, é muito importante lembrar que a excitação corporal entra na psique. Como o histérico não suporta angústia ele devolve a angústia para o corpo, mas a angústia entrou na psique, processou o conflito e então devolve para o corpo, essa é a conversão histérica. Na neurose de angústia é diferente porque o conflito, a angústia não consegue entrar na psique. Então a excitação sexual, libidinal fica inteiramente no corpo. É muito interessante, em nosso mundo contemporâneo quando nos defrontamos com o sujeito que tem síndrome do pânico, por mais que investiguemos, não tem sentido para o sujeito apresentar tais sintomas. Não tem história. É muito diferente do sujeito que está angustiado e que começa a fazer associação dizendo que está angustiado porque aconteceram tais e tais coisas…  Na neurose atual, como exemplo na síndrome do pânico, o sujeito só sabe falar que seu corpo está tremendo, ele não faz associação, assim como nas manifestações somáticas, que são muito diferentes das manifestações histéricas. A manifestação histérica não tem lesão no corpo, a psicossomática tem lesão.

Na neurose de angústia, que é uma neurose atual, a pessoa não tem associação. É uma angústia que passa para o corpo sem mediação da psique. Como é o caso das doenças auto-imunes. O sujeito se angustia sem ser uma angústia neurótica. É uma angústia que fica no corpo. Isso é neurose atual. Na neurose atual, existe uma deficiência no aparelho psíquico que não consegue absorver, capturar essa excitação corporal e o fator disparador  é uma vida sexual insuficiente. Então, uma longa vida sexual insuficiente e um aparelho psíquico que  tem certa deficiência para capturar  a excitação sexual desembocam na neurose atual. Interessante que na neurose de angústia não existe a representação do recalcado. Quem estudou muito sobre o tema das neuroses atuais em nosso mundo contemporâneo, foi Pierre Marty, grande psicanalista. A psicossomática do Marty, diz que o aparelho psíquico dos somatizantes, pessoas que somatizam é muito diferente de pessoas que têm conversão histérica. Segundo ele, os somatizantes, têm uma deficiência em simbolização, eles são pobres em simbolização, eles sonham pouco, são operativos,  são muito grosseirões, muito conectados com o concreto da vida e que por isso a excitação sexual não consegue entrar no aparelho psíquico. Joyce McDougall também trabalha muito esse tema. Para ela, às vezes, os adultos funcionam psiquicamente como bebês que, por vezes, não podendo utilizar as palavras como veículo de seu pensamento, só conseguem reagir psicossomaticamente a uma emoção dolorosa, provocando um curto-circuito na representação da palavra. É algo mais perto da psicose.

É muito importante entender que Freud, nesta época, 1893,  faz distinção muito clara, colocando de um lado todas as neuroses que entram no aparelho psíquico daquelas que não entram no aparelho psíquico e diz que as que entram no aparelho psíquico fazem parte do campo da psicanálise e as que não entram é do campo quase da medicina. Por pensar assim nesta época, ele abandona a neurose atual, porque não passa no aparelho psíquico e por achar que ele não tem nada a fazer. Freud diz que no paciente neurótico atual não há pulsão. Diz que na neurose atual, a excitação corporal, não entra perfeitamente, ou seja, ela não entra direito no mundo da psique. Ela fica excessivamente no nível do corpo e vira angústia. O corpo é quem sofre. A angústia é  corporal. Freud está dizendo que na psiconeurose entrou mais na psique e virou conflito e que na neurose atual não tem conflito. Marty propõe algumas estratégias com pacientes somatizantes como fazer um esforço para aumentar a capacidade simbolizante dele, bem como aumentar o seu imaginário.
Na neurose de angústia o corpo excita, excita, excita e não descarrega, porque ele não tem uma vida sexual boa e tem algum empobrecimento  na vida psíquica. Então fica um resíduo. Isso é neurose de angústia, onde a excitação fica no corpo. Para Freud os ataques de angústia são parecidos com aquilo que o sujeito sente na hora do orgasmo. Ele faz um paralelismo entre orgasmo e ataques de angústia dizendo que os dois são muito parecidos. Para Freud, os ataques de angústia é uma simulação que o corpo está fazendo do orgasmo. É uma tentativa de descarregar esta excitação que está no sujeito.

Atualmente os teóricos da psicanálise estão aproximando a neurose atual muito mais com a idéia de que a pessoas tem uma deficiência no aparelho psíquico que as impede de lidar com a angústia corporal, sem contudo isentar a questão sexual. Estudiosos estão dizendo que o fato do sujeito ter intensa liberação sexual como hoje temos, não quer dizer necessariamente que a satisfação sexual do homem contemporâneo seja maior do que há 50, 100 anos atrás. Ao contrário, os autores estão dizendo que a satisfação sexual está declinante e não aumentante. Há vários autores dizendo que a liberação do sexo em nossa sociedade não está produzindo mais prazer e realização sexual. Inclusive, alguns autores, estão dizendo, que nós estamos fazendo sexo compulsivamente. É como Lacan diz, não tem a ver com o prazer, tem a ver com o gozo, lembrando que o gozo em Lacan quer dizer outra coisa. J.D.Nasio diz em Cinco Lições sobre a Teoria de Jaques Lacan que o gozo é que o ser, ao cometer um equívoco, põe em ato o inconsciente.

Alguns autores dizem que falta nesse tema da neurose atual, para pensar a somatização e a síndrome do pânico, algo sobre a agressividade, pois Freud em 1990, não estava, ainda, pensando a agressividade de maneira suficiente para tratar esse tema.

Sobre a neurastenia, Freud fala sobre a mesma como outro fenômeno e que por isso quer distingui-la da neurose de angústia. Para Freud, neurastenia é a incapacidade  de suportar a excitação. O sujeito neurastênico, não suportando qualquer excitação logo se masturba ou tem alguma prática sexual insuficiente. Fica sempre descarregando, não suporta excitação. Freud entende que para ter prazer o sujeito tem que “subir e cair”, ou seja, suportar a excitação para depois descarregá-la. O neurastênico não tem amplitude. Não tem prazer. Tem um comportamento neurótico atual, onde o tema da angústia é diferente. Seu principal sintoma é a fraqueza. Aparece em Freud como certa impotência. Não se trata só de impotência sexual. O Neurastênico é impotente socialmente também. É um sujeito que não consegue fazer afirmação suficiente de si, porque falta para ele a potência da excitação, ele está sempre esvaziando, subiu a pressão, ele esvazia. Os sintomas da neurastenia é a sensação de fraqueza física e psíquica. Esse pensamento de Freud é muito econômico, no sentido que ele está lidando com energias. Na obra de Freud, tem momentos que ele atenua a dimensão econômica, em outros fala mais da dimensão tópica e em outros fala mais da dimensão psicodinâmica. Neste contexto, Freud está pensando economicamente, no sentido que ele está lidando com energia, pressão; sobe a pressão e quem descarrega? Alguém tem que descarregar essa pressão. Na neurose de angústia existe uma sustentação dessa carga e isso acaba provocando um incômodo que o corpo vai ter que se virar para descarregar. Os autores contemporâneos,  Pierre Marty e Joyce McDougall  dizem que essa excitação corporal produz dano de pele, dano de estômago, ataque cardíaco, e outras tantas coisas mais.

Freud descobriu que na psiconeurose, ou seja, quando você entra no aparelho psíquico o dano não é corporal, veja a diferença clássica que tem sido feita entre conversão histérica e somatização. A conversão histérica não produz dano no corpo. Freud descobriu que a neurose é uma dissociação entre a representação e o afeto. É quando o afeto e a representação se divorciam. O que acontece com o afeto na neurose obsessiva? O sujeito dissocia o afeto de uma idéia que lhe produz dor, sofrimento e associa aquele afeto com uma idéia que não produz dor para ele. Por exemplo, confere o livro, antes de dormir confere a porta… o que ele está fazendo? Ele está pegando o afeto dele e conectando com uma idéia totalmente diferente da idéia conflituada. A idéia conflituada tem a ver com o Édipo. É o conflito com papai e mamãe. Coloca o afeto, por exemplo, no fechar a porta, lavar a mão etc. O que a histérica faz? A histérica pega esse afeto e joga para onde? Para o corpo. Fica com dor no corpo; fibromialgia, hoje em dia, é pura histeria. Essa é a teoria do Freud sobre a clássica neurose. O que a análise faz? A análise cola de novo, reconcilia a representação com o afeto, através de associações, atos falhos, interpretação dos sonhos… e então o sintoma desaparece. A histérica começa a mexer a perna de novo, e o sujeito obsessivo pára de mexer quinze vezes na janela para ver se está trancada a noite e dorme. Enfim, o sujeito suporta mais o conflito e a angústia. Teoricamente, a descarga seria algo a serviço do prazer, só que na impossibilidade de suportar a carga proveniente da junção deste afeto com uma determinada idéia eu dissocio e produzo outro tipo de descarga, obsessivamente ou histericamente, só que em vez de ter prazer eu tenho dor e angústia. Essa descarga Freud chama de sintoma. Sintoma é uma tentativa desesperada de substituir a verdadeira descarga. O neurótico atual fica ofegante, com pânico, por exemplo, o neurótico obsessivo, fica arrumando os livros e a histérica fica com dor na perna, de fibromialgia.

No caso da neurastenia o que existe é a impossibilidade de suportar uma carga maior. Diante de pequenas cargas, ou diante de qualquer excitação ele vai descarregar. Nunca está satisfeito, essa é a característica do neurastênico.

Sendo assim, Freud vai descobrindo na medida em que ele vai fazendo clínica que é verdade que a vida sexual insatisfatória produz neurose e produz angústia, quer seja de um jeito, quer seja de outro. Ele vai compreendendo também que por mais saudável que alguém seja, aliás, Freud não crê que alguém seja saudável por completo, acredita que haja em certo grau algo de neurótico, psicótico ou perverso em todos nós. Freud vai compreendendo que mesmo com o exercício de uma vida sexual boa, existe angústia. Por isso ele vai começar a pensar angústia segundo outros temas. Ele não joga fora aquilo que ele fez antes, mas começa a compreender  que tem mais coisas por aí. Freud vai compreendendo cada vez mais a complexidade da experiência humana e vai  jogando fora as visões simplificadoras do ser humano. Essas visões simplificadoras não dão conta. Ele tem um fundamento clínico extraordinário, mas isso é uma primeira aproximação, depois tem uma segunda, uma terceira, uma quarta, uma quinta… Na verdade o que Freud pensa é que angústia é uma eterna companheira nossa e que não podemos desligá-la, pois ela é o motor da vida.

Para tanto, Freud propõe em seu livro chamado as cinco lições de psicanálise, aliás este é um dos poucos textos em que ele fala de saúde, como ajuda aos neuróticos, psiconeuróticos, as seguintes lições: 1- ensinar o seu neurótico a aumentar o nível de gratificação, ou seja, gratificar-se mais, lembrando que isso não é uma questão de transar mais, e que, aliás, nem é uma questão de transar, é uma questão de obter mais prazer, mais alegria e felicidade da vida. Isso é um objetivo da clínica, mas Freud reconhecendo que o sujeito que está no tope disso, está muito longe de gratificar-se com tudo dessa vida, terá, então, que aprender outra coisa, ele diz:  2- suportar as frustrações; e por último, 3- aumentar a capacidade de sublimação. O que é sublimação? A sublimação é parte da energia psíquica que você não consegue descarregar e que ao invés de você ficar frustrado você investe essa energia no trabalho, na arte e/ou na religião.

Sendo assim, o sujeito saudável para Freud é o sujeito que sofre muito, agüenta esse sofrimento, além do sofrimento consegue ter muito prazer e felicidade na vida e ainda consegue sublimar.

Falando de sublimação…. e desejo…

… Também decepcionante, embora de um jeito diferente, é a introdução feita da Apple de uma peça magnética que liga a máquina ao cabo de alimentação. Sem dúvida isso impede que, sem querer, derrubemos a máquina no chão. Se tropeçarmos no cabo, este se desprende com uma pressão mínima. Mas isso também significa que o cabo de alimentação e o transformador do modelo antigo – acessórios que custaram cem libras, quantia que está longe de ser insignificante, quando os comprei avulsos na ocasião em que esqueci os originais no quarto de um hotel em Veneza – são agora absolutamente inúteis…
SUDJIC, Deyan.

Bibliografia
FREUD, Sigmund.  Obras completas. Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada “Neurose de Angústia” (1893). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HANNS, Luiz Alberto. A teoria pulsional na clínica de Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
NASIO, Juan David. Cinco lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
ROCHA, Zeferino. Os destinos da angústia na psicanálise fredudiana.  São Paulo: Escuta, 2000.
SUDJIC, Deyan. A linguagem das coisas. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2010.
TELLES, Sérgio. Aula teórica. Sobre os fundamentos para destacar da neurastenia uma síndrome específica denominada “Neurose de Angústia” (1893).CEP. São Paulo, 29.09.2011.
VOLICH, Rubens Marcelo. Psicossomática: de Hipócrates à Psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

 

Fonte: Este texto foi autorizado pela autora para ser publicado neste site, no dia 18/07/2016.

Contato com a autora: http://www.sandrabarbozacosta.com

 

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