November 17, 2017

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Metáfora e real no amor

Metáfora e real no amor: os destinos do amor na clínica psicanalítica

Maria Angélica Augusto de Mello Pipeta 

Diversa :: Ano I – no 2 :: pp. 147-157 :: jul./dez. 2008

Resumo

Neste artigo pretendemos discutir questões cruciais da clínica psicanalítica lacaniana: as relações entre o amor romântico e a transferência e os destinos que estes experimentam no percurso de uma análise. Para tanto, discutimos as conceituações freudianas e lacanianas sobre o amor e a transferência em suas relações com o conceito de narcisismo. Nossa questão central situa-se na discussão da estrutura do amor e do reconhecimento do outro a partir da consideração de que o amor é essencialmente narcísico. Nesse sentido, para nós, o amor que a transferência veicula é o instrumento principal do narcisismo, por comportar um tamponamento da castração. A referência aos conceitos fundamentais da psicanálise nos serviram para circunscrever o lugar que o analista é chamado a ocupar na transferência e, a partir disso, que resposta pode ele oferecer.

Abstract

In this paper we propose a discussion about crucial questions of the lacanian psychoanalytical clinics: The relationship between the romantic love and transference and the destinies that they experience in analysis course. So we discuss the Freudian and Lacanian concepts about love and transference connected with the narcissism concept. Our central purpose can be seen in the discussion of love’s structure and the other’s reconnaissance but considering that love is essentially narcissic. In this meaning, for us, the love that transference propagates is the main instrument of narcissism, for having a castration’s obstruction. The reference to the fundamental psychoanalysis concepts serve us for circumscribing the place that the analyst is calling to occupy in the transference and, from that, which answer he can offers.

É o amor que nos tira o sentimento de estranheza e nos enche de familiaridade, promovendo todas as reuniões deste tipo (PLATÃO, 1972, p. 19).

Trataremos da “transferência como metáfora do amor”, conforme indica Lacan (1992/1960-61), enfatizando a posição do analista, que põe à mostra,para o analisando, a sua posição no enamoramento dentro e fora da análise. Pretendemos discutir, ainda, a essência narcísica do amor, tal como Freud e Lacan acentuaram, como campo do encontro imaginário entre os sexos. Para tanto, destacaremos os seguintes pontos: A perspectiva freudiana do amor como aquilo que une e a contrapartida lacaniana do amor como narcísico, com sua vertente de agressividade; a formação do objeto a partir do narcisismo, como um prolongamento da essência narcísica no mundo e a impossibilidade de um “amor autêntico” e nalmente o amor romântico, como metáfora do narcisismo, como fundamento da demanda de amor na clínica.

Freud destaca do amor o fator civilizador e construtor entre os homens (1980/1927). Sua visão do amor como Eros, aquele que tudo une e combate a pulsão de morte é uma das marcas de seu trabalho. Em Psicanálise silvestre (1980/1910) Freud distingue amor de enamoramento como paixão amorosa, indicando que vê o amor como sinônimo de sexualidade, ou seja, fator de união entre os seres. Em Psicologia das massas e análise do eu (1980/1921) temos sua posição de nitiva em relação ao amor: Eros, como pulsão sexual inclui sobre seus domínios tanto a amizade, o amor fraternal e parental quanto a sexualidade e o amor romântico. Sua posição nal é a de um amor que engloba desde a paixão amorosa até a tendência pulsional de construir, unir. É a faceta da pulsão sexual. Aqui vemos as diferenças conceituais entre Freud e Lacan. Sexualidade para Lacan é tudo o que separa, diferencia. Temos aí a “premissa da inexistência da relação sexual” (1985/1972-73), e uma disjunção muito especí ca entre amor e sexualidade.

Já para Freud, a sexualidade pode unir, por Eros. Contudo, o narcisismo, estádio de objetalização do eu (1980/1914), para Freud, vem colocar um senão na concepção do amor como fator de união entre os homens. Se é o próprio eu o objeto por excelência do sujeito, como haveria a união entre os seres, proposta com o conceito de Eros?

O avanço de Lacan (1992/1960-61) se introduz neste ponto para destacar que Freud situou em primeiro lugar o amor, por mostrar que sua essência é narcísica, e que, portanto, o sujeito só reservaria para si mesmo o pretenso bem destinado aos seus iguais. Demonstrando a queda deste ideal, e acentuando a quase inexistência do outro no amor, Lacan se questiona em Mais, Ainda … (1985/1972-73) acerca da possibilidade de pensarmos na existência do amor, senão como uma “suplência à não existência da relação sexual”. Para nos fazermos claros, entendemos que por não-existência da relação sexual em suas relações com amor, Lacan aponta para a diferença absoluta que torna da ordem do impossível o encontro dos dois sexos. A inexistência de um significante que representasse a mulher, no inconsciente, faz a metáfora desta impossibilidade do encontro entre os sexos. A relação será sempre de cada um com o falo, a partir da inexistência de uma pulsão genital que uni caria as pulsões parciais e proporcionaria um pretenso encontro (MILLER, 1997).

O que pretende então aquele que se dedica ao amor romântico? A questão aqui seria: Por que o sujeito sai do narcisismo, pretenso estado de complementação, para enamorar-se?

AMOR ROMÂNTICO E DEMANDA

Observa bem, continuou Sócrates, se em vez de uma probabilidade não é uma necessidade que seja assim, o que deseja, deseja aquilo de que é carente. Sem o que, não deseja, se não for carente. É espantoso, Agatão, como me parece ser uma necessidade, e a ti? (PLATÃO, 1972, p. 29).

O problema do investimento objetal, após o conforto imaginário que o narcisismo proporciona é, para Freud, um problema da economia do desejo. Assim Freud o decifra: “precisamos amar para não adoecer” (1980/1914, p. 231), demonstrando que trata- se de um limite econômico, de quantidade de libido nos domínios do eu. Como nos diz ele, a libido aprisionada nos limites do eu provocaria um “estado mórbido” evitado através do investimento objetal (1980/1917). Pressionado pela realidade, este eu teria a necessidade econômica de investir nos objetos, relançando para si apenas uma parte suportável de sua própria energia libidinal. O excesso pulsional aqui é demarcado, indicando o caráter excessivo e traumático da pulsão.

Lacan encontra outro caminho para tratar desta questão. Mais pela esfera do dinâmico, a rma que o homem impregna a realidade com sua própria face, através do estádio do espelho. Por este ele constitui seus objetos, num prolongamento do narcisismo. Não se trata apenas, como poderíamos pensar com a noção econômica de Freud, de uma “retirada estratégica” por excesso de libido, mas da própria constituição dos objetos regulada pelo narcisismo. Deste modo, o objeto do desejo, libidinal, seria construído a partir da prótese do narcisismo, no espelhamento. Contudo, a necessidade de retirar-se do estado de enamoramento por si, narcísico, em direção aos objetos é um enigma lacaniano, destacado pelo autor:

Se no nível libidinal, o sujeito é realmente constituído de uma maneira tal que seu m e sua visada sejam satisfazer-se com uma posição inteiramente narcísica – pois bem, como é que ele não consegue, de um modo geral, permanecer ali? (LACAN, 1992/1960-61, p. 328)

A projeção de caracteres do sujeito no objeto permite seu reconhecimento e se dá graças à impossibilidade real de permanecer apenas no imaginário especular. Como nos diz Lacan, em outro seminário, assim, o sujeito pode “amar-se através do outro” (1988/1959-60, p. 368).

Alteridade não reconhecida, o objeto se presta a um prolongamento dinâmico do eu, já marcado pela castração. No texto O estádio do espelho como formador da função do eu (1988A), e ainda em A agressividade na Psicanálise (1988B), Lacan indica que o homem, para além do animal, deixa-se capturar pela miragem de sua imagem. É ali que se reconhece, ainda que em parte. Por esta fenda na constituição de seu eu, o outro se aloja, neste que mira o próprio eu, outro de si, rival: “essa furiosa paixão, que especi ca o homem por imprimir na realidade a sua imagem, é o fundamento obscuro das mediações da vontade” (1988B, p. 119).

A agressividade é constitutiva desta primeira aproximação e captura do sujeito pelo seu eu. Já que o outro que completa é também aquele que aliena, este outro alienante será sempre eu- outro, procurado como o complemento. No mesmo movimento em que complementa, destrói, por encerrar em si toda a verdade especular do sujeito. O eu é o outro do sujeito no que se refere ao imaginário, enquanto que o inconsciente é o Outro do sujeito, no registro do simbólico: “Ele (o eu) é o caramujo que encerra no âmago de sua carapaça imaginária o objeto que causa tanto meu ódio quanto meu maravilhamento” (QUINET, A. 1997). Em virtude disso, os momentos de identi cação e negação do eu se confundem com a acusação da usurpação do outro sobre si (LACAN, 1988B, p.117).

A essência imaginária do eu, destacada por Lacan do texto freudiano, não prescinde do reconhecimento simbólico ofertado pelo olhar da mãe. Porém é decisiva para entendermos a dinâmica do enamoramento. A mediação da captura imaginária, deste modo, encontra-se no olhar da mãe, que projeta de seu inconsciente uma imagem modeladora, possibilidade do primeiro reconhecimento possível. Um eu pretensamente uno se projeta no espelho, ordenando, nesta miragem, um corpo espedaçado. Ao lançar seu olhar, indicando seu desejo, a mãe não apenas introduz alguma ordem no caos autoerótico como indica a pretensa identidade do eu. A dinâmica do eixo imaginário, da visão que o bebê tem de si mesmo, só é signi cada a partir do reconhecimento da mãe. Sendo visto, quando se vê, o bebê deixa de ser, para si mesmo, um total desconhecido, formando o ideal do eu.

Des-conhecido de si mesmo, rival, mas em parte conhecido. Podemos ver aqui uma das fontes de todos os problemas do amor. A faceta do ódio no amor, de rivalidade, é bem demonstrada, especialmente no amor-paixão. Seria essa vertente “contingência” de uma relação ou “condição” da existência do investimento amoroso? Como nos indica Viltard:

Que signi ca então, na fortuna de um bom encontro, a resposta do amor se, por querer a felicidade do parceiro, é preciso enfrentar um gozo nocivo, maligno, do próximo, que se apresenta como o verdadeiro problema desse amor? (IN KAUFMANN, 1996, p. 35).

A vertente de agressividade se encontra fundamentada na formação do eu enquanto alienado no outro, que só a partir da identi cação, para além do imaginário primordial, pode ser mediada (e não superada) na identi cação ao Pai (simbólico). A identi cação ao pai já se encontra, como dissemos, no olhar da mãe, que tando a criança no espelho deixa entrever seu desejo, fruto de sua falta inscrita no simbólico. É seu olhar que vem perturbar a absorção especular imaginária entre eu e outro. Lacan estrutura conceitualmente o olhar como objeto não-especularizável, que impõe uma saída à sideração especular proporcionada pelo imaginário (2005/1962-63, p. 252). Sua inscrição na fantasia, destacando uma posição de gozo do sujeito, virá cristalizar-se no complexo de Édipo, tal como Freud destacou. A partir dele, se inicia a mediação da metáfora paterna numa relação mínima entre um sexo e outro, num encontro possível na fantasia (LACAN, 2005/1962-63, p. 260).

Se, como Lacan sublinha, por intermédio do espelho, nos vemos a nós mesmos nos objetos, coloca-se em xeque o próprio conceito de amor, já que não se sai dos limites dinâmicos do eu no investimento objetal (LACAN, 1985/1972-73, p. 12). Seria o amor apenas uma miragem ideal, onde eu ideal e ideal do eu se fundem? Ou há, no reconhecimento do outro em sua mínima alteridade, superação em alguma medida do narcisismo, sem tamponamento da falta?

Vemos que na clínica é do ideal do amor romântico que se queixam os neuróticos, e é do mesmo material imaginário que se trata no amor romântico e na transferência amorosa analítica. Freud já havia destacado o caráter de “falsa ligação” da transferência nos Estudos sobre a histeria. Entendemos aqui que o falso implicado nesta a rmação não se refere à transferência, mas ao amor, na sua constituição.

Na clínica vemos amor interrompido, amor não satisfeito, ilusões amorosas, desencontros … O que promete uma psicanálise? Se não podemos prometer a felicidade, algo do possível se insinua no terreno do amor, desde que o sujeito “caia na real” da impossibilidade do encontro sexual, pela queda dos ideais e do atravessamento da fantasia, proporcionado no percurso de análise. Nesse sentido, nos perguntamos: só há amor possível, para além da face narcísica do amor, a partir de uma mudança de posição do sujeito em direção ao seu investimento amoroso, fruto de uma análise?

Seja como for, esta mudança de posição passa pela metáfora do amor na clínica, atualizado na transferência ao analista. No amor romântico, tal como Freud (1980/1914) demonstrou, trata-se de uma troca, onde o sujeito ama para ser amado, atraindo para si o desejo do Outro. Podemos supor a metáfora – termo lacaniano utilizado pelo autor no seminário sobre a transferência – não apenas na cena analítica, mas na própria constituição do amor. Assim, o amor romântico, para nós, é metáfora do narcisismo. Já na clínica, por se tratar do mesmo material imaginário, temos na transferência, uma metáfora do amor romântico. Essa metáfora clínica se dá pela

AMOR E CLÍNICA PSICANALÍTICA

A transferência é menos um amor verdadeiro que a verdade do amor (PORGE, IN KAUFMANN, 1996 p. 552) tentativa de repetição da posição do sujeito em relação ao Outro, representado pelo analista, colocando em cena as peculiaridades destas relações.

Contudo, o analista, amante avisado da inexistência da relação sexual e de sua posição frente ao desejo do analisante, não se oferece como amante, fazendo valer sua posição de objeto a1 . Ali onde o sujeito deseja seu amor, o analista responde com sua presença de analista, ausentando-se como sujeito. No que o analista se presta ao apagamento de si, faz surgir a relação existente entre o sujeito e o Outro que o constituiu. Há coincidência do material imaginário na análise e no amor romântico, na própria repetição que faz, do analista, sujeito suposto saber. Assim, na análise, podemos ver a diferença na “função do amor”. Em ambas as escolhas objetais (analista e parceiro amoroso), repete-se a história erótica do sujeito. Contudo, algo de novo se passa na transferência, indicando o surgimento do desejo, para além do lugar congelado do sujeito em relação ao Outro.

Esse congelamento tem a faceta do desconhecimento. Nas palavras de Lacan (1985/1972-73, p. 13): “O amor, aí está uma paixão que pode ser ignorância do desejo”. É interessante a relação explicita aqui entre o amor e o não saber sobre seu próprio desejo. Por isso vemos que na metáfora do amor que se repete na transferência, há que obter-se uma torção na posição em que o sujeito se situa, de amar o suposto saber, para que o próprio sujeito possa saber sobre seu desejo.

A transferência está, deste modo, a meio passo entre o amor e o desejo. Para ser amado, o sujeito demandava ao analista seu reconhecimento, seu desejo, sua presença. Como nos indica Lacan (1992/1960-61), a partir da abstinência do analista, pela substituição do lugar que antes ocupava (amado do Outro), o sujeito passa a ser o amante do analista, situado no lugar do Outro, tendo como condutor seu próprio desejo. É o que ele denomina ‘metáfora do amor’. Cabe esclarecer que o conceito “Outro” é fundamental na obra de Lacan. Indica o lugar da palavra, dos signi cantes, que primordialmente é encarnado pela mãe ou por quem se encarrega dos cuidados dispensados ao infante.

A “metáfora do amor” (amante, desejante/amado, desejado) a que se refere Lacan neste seminário se dá porque o sujeito, a partir de uma (nova) posição de desejante, passa a perceber que o Outro também desejava, deixando entrever sua falta. É aí que vemos a ‘signi cação do amor’ (PORGE, Op. Cit.). Pode-se dizer que o sujeito se des-cobre, na transferência, como desejante. Essa descoberta é a “signi cação do amor”. Opera-se a metáfora do amor, tal como depurou Lacan do discurso de Sócrates em O banquete (1992/1960-61). De amante do analista, o paciente passa a amante dos objetos de seu desejo, desde que descobre que é seu próprio desejo que está em cena em sua relação com o Outro, e não do desejo do Outro. Notamos aqui uma travessia do amor ao desejo, tendo como propiciador o estabelecimento de uma transferência.

Lacan (1992/1960-61) demonstrou neste mesmo seminário que Sócrates, ao questionar Agatão sobre seu discurso, faz aparecer o desejo, onde só havia o amor. É da verdade de Alcibiades que se trata na questão do amor, pela qual entrevemos que a visada do enamoramento, por trás do disfarce da paixão amorosa, é “a queda do Outro, A, em outro, a” (LACAN, idem, p.178). Em última instância o objetivo da analise seria barrar o grande Outro, e submetê-lo a desejado, outro.

Do lado do analista teríamos então o amante, inicialmente, que pela aceitação da demanda de amor do paciente se converte, em sua fantasia, em seu parceiro. Neste inicio, o paciente se colocaria no lugar do amado. Na recusa da demanda de amor o analista oferece o vazio de sua posição, favorecendo a reviravolta dialética de que fala Lacan em Intervenções sobre a transferência (1998C), donde as posições do analisante se invertem, ocupando ele, então, o lugar de amante. O analista cede ainda mais seu lugar à falta na dissolução da transferência. O analisante perceberia, então, que é sua falta que o faz desejar, e não o desejo do Outro.

Vemos assim que a verdade do amor se refere na análise a um engano primordial. Encruzilhada que prevê obturação da falta, pela aceitação da demanda de amor do analisante, ao mesmo tempo, sustentação do desejo que está encoberto pela demanda de amor. Na metáfora do amor desvela-se para o sujeito a verdade de sua própria condição. Como Freud (1980/1914) nos diz, o sujeito ama como artimanha para se sentir amado, numa busca de recuperação narcísica. Podemos ver aí que não é o Outro que ele deseja nessa demanda, mas o desejo do Outro, que, recaindo sobre si, lhe dê noticia de seu eu ideal. É, desta forma, a verdade do amor que está em causa numa psicanálise. “Este amor revela sua verdade de embuste e se volta para o sujeito suposto saber” (LACAN, IN KAUFMANN, 1996, p. 556).

Vemos que a identi cação ao pai – como a primeira marca do sujeito que relativiza a prevalência do narcisismo e introduz um elo primitivo com o Outro simbólico – condiciona os investimentos e de ne toda relação com o objeto, a partir da falta que é buscada no outro. A máxima lacaniana “amar é dar o que não se tem”(1992/1960-62, p. 169) indica este atrelamento do desejo à falta e relativiza a importância dada ao amor por Freud, como fator civilizador. Assim, desdobramos nossa questão inicial. Haverá amor para além da lei do simbólico, sustentada pela fantasia?

Na clínica a resposta se dará pela dissolução da transferência, onde o amor de transferência, em sua dialetização, mostrará ao sujeito o engodo de sua fantasia de amor. É o que Lacan nos aponta, quando postula que na transferência o desejo do analista tende para o avesso da identi cação, num atravessamento desta, nos mostrando que, ao m de uma análise, no mínimo, restaria uma posição diante do amor que seria ‘para além da identi cação ao Pai’ (LACAN, 1985/1972-73, p. 259).

Teoricamente vemos que isso abre uma fenda no conceito de amor, pois algo do encontro amoroso resta ao m de uma análise. Nossa questão primordial não se volta para o m da análise, mas para a conceituação necessária aos destinos do amor na posição que o sujeito passa a ocupar em relação ao seu inconsciente. Se há um amor para além da identi cação, da fantasia fundamental que ordena a pulsão, o caminho de pesquisa nos levará invariavelmente para a reviravolta amorosa que a análise proporciona.

Nota

1.O conceito de objeto a é central na obra de Lacan. A partir do seminário X (2005/1962-63), ele traça primeiras marcações deste conceito modi cando-as no desdobramento de seu ensino. Para o entendimento das proposições deste artigo, podemos acompanhar o autor, a partir da perspectiva de que tal objeto se constitui em torno da perda radical do objeto de satisfação, na constituição do sujeito. É a partir desse ponto de opacidade e falta de objeto que o desejo gira, estabelecendo, nesse contorno, os objetos do desejo.

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Sobre a autora

Maria Angélica Augusto de Mello Pisetta
Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Professora da Faculdade de Psicologia da Universidade Católica de Petrópolis; Membro correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Rio
e-mail: angelica.pisetta@ucp.br

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