December 12, 2017

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Luta antimanicomial, 18 de maio

O estigma, a loucura e a doença. 

Escrito por: Caroline Gouvêa S. Wallner

O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem. (Manuel Bandeira)

 

Durante séculos o sujeito considerado doente mental, não apenas pela medicina, mas também julgado pelo olhar da sociedade, sentiu de perto o estigma por ser visto como “louco”. A loucura associada à doença mental.

Nos séculos XV e XVI não havia qualquer proposta de tratamento para os loucos, que eram abandonados à sua própria sorte, para morrer de fome ou por ataques de animais e serem excluídos para fora dos muros da cidade – o que era mais comum aos loucos estrangeiros.   (Foucault, 1995).

E antes de se tornar um tema essencialmente médico, o louco habitou o imaginário popular de diversas formas. De motivo de chacota e escárnio, a possuído pelo demônio, até marginalizado por não se enquadrar nos preceitos morais vigentes, o louco era e ainda é um enigma que  “ameaça” os saberes constituídos sobre o homem.

Estígma é definido como um atributo profundamente depreciativo, que os olhos da sociedade serve para desacreditar à pessoa que o possui, contribuindo para a discriminação social.

Foi no século XVII que a loucura começou a ser objeto de exclusão visível, eram confinados em casas rotuladas especificamente para este fim, concomitante iniciou o estudo da doença mental através da medicina. Foi necessário segregar.

A doença mental começou a ser rotulada e discriminada de forma a excluir àqueles que naquela época possuíam traços de comportamento que não condiziam com a “normalidade” da sociedade. Na Renascença, a segregação dos loucos se dava através dos muros construídos nas cidades europeias,  e o seu confinamento era  errante: eram condenados a andar de cidade em cidade ou colocados em navios que, na inquietude do mar, vagavam sem destino, chegando, ocasionalmente, a algum porto.

No entanto, desde a Idade Média, os loucos são confinados em grandes asilos e hospitais destinados a toda sorte, nomeados de indesejáveis – inválidos, portadores de doenças venéreas, mendigos e libertinos. Nessas instituições, os mais violentos eram acorrentados;  e a alguns era permitido sair para mendigar. Foi a partir desta exclusão que a medicina começou a se dedicar para estudar, separar e nomear os determinados tipos de comportamento, isso aconteceu no final do século XVIII e foi marcada pela figura de Philipe Pinel. Esse criou o alienismo , reunindo três dimensões: o espaço institucional ( hospital psiquiátrico), o arranjo nosográfico das doenças mentais e a relação de poder entre médico e doente mental. ( Castel 1991; Barros e Egry, 2001). Assim aconteceu o advento da clínica psiquiátrica e das internações.   Para Goffman (2004) foi durante a transição do século XVIII para o XIX que nasce o estigma da loucura, pois a medicalização da loucura no século XIX implica numa nova condição jurídica , social e civil do louco, pois em 1838 o parlamento francês aprova a primeira lei da Europa sobre os alienados,  reforçando os aspectos de periculosidade e ordem publica, presentes na psiquiatria até os dias atuais. (Barros e Egry, 2001). Portanto a herança cultural de que o louco é agressivo,  perigoso e impossibilitado de trabalhar,  veio de leis como essa.

A estigmatização vem acompanhando a história e a evolução da humanidade no que tange doença mental e os movimentos que se organizarão sobre a assistência.

Quando rotulamos alguém, não olhamos para o que essa pessoa realmente é ou sente, e isso dificulta a busca por ajuda necessária para a possibilidade de alívio deste sofrimento.

O estigma é gerado pela desinformação e pelo preconceito, e cria um círculo vicioso de discriminação e exclusão social, que perpetuam a desinformação e o preconceito. As consequências para as pessoas que sofrem o estigma são muito sérias:

  • O estigma e a discriminação tornam –se  mais difíceis, para as pessoas que sofrem de algum transtorno mental, no reconhecimento de que têm algum problema, e posteriormente  procurar apoio e tratamento.

  • Por causa do estigma e da discriminação, as pessoas que sofrem com os transtornos mentais são frequentemente tratadas com desrespeito, desconfiança ou medo.

  • O estigma e a discriminação impedem as pessoas que tem problemas de saúde mental de trabalhar, estudar e de relacionar-se com os outros. Inicia-se o processo de isolamento.

  • A rejeição, a incompreensão e a negligência exercem um efeito negativo na pessoa, acarretando ou aumentando o autoestigma, como por exemplo: a imagem negativa que as pessoas com esquizofrenia desenvolvem a respeito de si. Estudos têm mostrado que o estigma é a influência mais negativa na vida das pessoas com algum transtorno mental

  • A discriminação causa dano, destrói a autoestima, causa depressão e ansiedade, cria isolamento e exclusão social.

As estratégias para mudar atitudes estigmatizantes usualmente envolvem educação (informações sobre as doenças mentais) – que não se mostra duradoura e não necessariamente muda atitudes, contato por meio da interação direta de pessoas com doença mental e protesto (buscando suprimir atitudes estigmatizadas, principalmente na mídia), sendo esta última a menos eficiente. Atualmente, estratégias favorecedoras de empoderamento (empowerment) das pessoas com esquizofrenia, por exemplo, têm sido preconizadas de forma a promover sua participação efetiva no planejamento terapêutico e na própria avaliação dos serviços de saúde mental.

Acredito que o caminho para reduzir o estigma seja o afeto, através da inserção do sujeito no discurso, integrando o que é individual e particular para cada sujeito no social associado com o sistema e com o outro da relação.

”Longe de a loucura ser um fato contingente das fragilidades de seu organismo, ela é virtualidade permanente de uma falha aberta na sua essência. Longe de ser um insulto para a liberdade, ela é sua mais fiel companheira, seguindo seu movimento como uma sombra. E o ser do homem, não somente poderia ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem se, em si, não trouxesse a loucura como o limite da liberdade.” Lacan,J., “Formulações sobre a causalidade psíquica” in Escritos .J. Zahar ed..,R.J., 1988.

18/05/17

  • Caroline Gouvêa S. Wallner: Psicóloga clínica (2006) há 11 anos percorrendo e vivenciando a psicanálise; Especialista em Saúde Mental. Atende adolescentes e adultos. Editora e responsável pela Psicanálise e Amor: uma transmissão.  Atua em Sorocaba/SP ( www.sorocabapsicologa.com.br)

Referência Bibliográfica:

http://www.abrebrasil.org.br/web/index.php/esquizofrenia/estigma

BANDEIRA, Manuel. Belo Belo.publicado em 1948.

BARROS S e EGRY EL, O louco, a loucura e a alienação institucional: o ensino de enfermagem sob judice. São Paulo. Cabral, 2001.

CASTEL, R. A ordem Psiquiátrica: A idade de ouro do alienismo. 2ed. Rio de Janeiro: Graal, 1991.

FOUCALT, M. A história da loucura na idade clássica. 4 ed. São Paulo: Perspectiva. 1995.

LACAN,J., Formulações sobre a causalidade psíquica. in Escritos .J. Zahar ed..,R.J., 1988

 

 

 

 

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Psicanálise e Amor

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