October 20, 2017

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ENCONTROS VERDADEIROS: UMA POSSIBILIDADE REAL

CONSIDERAÇÕES SOBRE APLICATIVOS E SITES DE PAQUERA/NAMOROS E AFINS

Tere Yadid Sztokbant*

 

ENCONTROS VERDADEIROS: UMA POSSIBILIDADE REAL

O avanço cada vez maior da tecnologia ampliou consideravelmente o contato entre pessoas em todos os campos: profissional, afetivo, entre outros. A grande maioria delas dificilmente se encontraria sem as facilidades oferecidas por sites e aplicativos. Na vida amorosa esses recursos parecem funcionar como uma “fábrica de esperança” para casados, solteiros e separarados insatisfeitos com a sua condição. E pode sim dar certo! Tenho amigos e pacientes que construiram relacionamentos amorosos verdadeiros a partir de encontros ou reencontros virtuais.
Entretanto, com tanta gente inscrita em aplicativos – na casa dos milhões – não é fácil duas pessoas combinarem seus anseios, princípios e desejos.
Disponibilidade de tempo e, ainda, uma certa dose de coragem para lidar com a vergonha e a exposição são condições importantes para tal empreitada. Além disso, é preciso perseverança diante da coleção de frustrações que não raramente acontece. E é sobre os desencontros que compartilho as reflexões que se seguerm.

O JOGO DA ESCOLHA
Anos atrás um programa humorístico apresentou um quadro onde mulheres escolhiam parceiros em uma loja. Os homens ficavam pendurados em cabides e, após elas traçarem considerações sobre suas características, compravam algum. Uma situação tão inusitada que só poderia mesmo fazer parte de uma comédia. A diferença dessa situação fictícia com as ofertas virtuais é que, nessa última, a escolha é uma via de mão dupla, ou seja, ambos os parceiros devem se gostar. Sendo assim, os desencontros e desapontamentos encontram seu lugar, na linha de “quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora”.
Algumas pessoas, independentemente de quantos anos tenham, sentem-se revitalizadas em sua busca por um par e sonham com a inocência de um primeiro amor. A presença desse desejo e, os frequentes desencontros, me remetem ao poema Quadrilha de Drummond e a canção de Chico Buarque Flor da Idade:… “Ai, a primeira festa, a primeira fresta,…o primeiro copo, o primeiro corpo, a primeira dama,… o primeiro drama, o primeiro amor…Carlos que amava Dora, que amava Lia, que amava Léa, que amava Paulo, que amava Juca, que amava… “.
Aplicativos e sites de relacionamentos amorosos oferecem um verdadeiro cardápio de gente: casais procurando uma terceira pessoa para incrementar a relação, casados procurando uma amante discreta, outros, prazeres fugazes, namoro sem compromisso, namoro com compromisso, casamento.
Apesar de fotos pessoais serem exibidas pela grande maioria do público, no mundo digital é comum alguns se comportarem como se estivessem no anonimato. Um ninguém que não conhece ninguém afrouxa a moral, abrindo espaço para aspectos perversos da personalidade se manifestarem sem pudor. Facilmente alguém estabelece uma dinâmica sádica quando reconhece um masoquista. Para um desconhecido escreve-se, fala-se, promete-se qualquer coisa sem nenhum constrangimento e comprometimento.
Alguns homens, após a separação, emagrecem, renovam o guarda roupa, trocam de carro e, sentindo-se renovados, fazem uma verdadeira coleção de fãs que conhecem virtualmente. Chegam a planejar o futuro, a apresenta-las para a família e desaparecem. Um comportamento no qual alternam um Complexo de Dom Juan e de Peter Pan. Relatam conquistas e abandonos sem compaixão pelo sofrimento que causam em suas “presas”, nem pelo transtorno que causam na vida delas. Esses homens, ao agirem de forma dissimulada, visando apenas extrair prazeres das paixões que despertam, mentindo, manipulando pretendentes sem empatia e culpa, aproximam-se daqueles que apresentam uma personalidade psicopática. Alguns até são mesmo. Contudo, muitos acabam adotando tal conduta como sendo natural e corriqueiro desse tipo de encontro. Dessa maneira – independentemente do gênero e da orientação sexual – pessoas descartam pretendentes sem aviso prévio após dias de conversa, primeiro ou mais encontros. Mensagens deixam de ser respondidas e, se o outro insistir, será bloqueado! Motivos? Qualquer um: incompatibilidade, decepção, ansiedade, invasão ou mesmo pela “ameaça” de um envolvimento real dar certo. No entanto, o motor mais atraente para uma desistência, parece ser a ânsia de se explorar a grande oferta de gente em “liquidação”. Prontas para serem adquiridas, experimentadas e, se não cair bem ou enjoar, trocadas por outra, por outras, por várias mais caras ou mais baratas…não importa…

SONHOS, AVENTURAS, JURAS, PROMESSAS…

…”Os artifícios, vícios. deixando de ser
Os velhos compromissos pra esquecer
São pontos de vista, uma conquista comum
O mesmo pé na estrada de cada um.
Sonhos aventuras, juras promessas
Dessas que um dia acontecerão
Você me daria a mão?”…
Bruna Caram

Pessoas com um posicionamento romanceado da vida ou desiludidas. constroem em seu imaginário, um futuro cor de rosa junto a um candidato a parceiro que nunca viram; muitas vezes sem nome, nem sobrenome. Relevam ou ignoram mentiras grotescas. Gradativamente o celular, com seus aplicativos mágicos, torna-se o companheiro fiel de pessoas sós, aplacando tristezas. Ao mesmo tempo, porém, esse mesmo celular as lembram daquilo que gostariam de esquecer, denunciando, a cada instante, a sua solidão. Esse drama existencial assemelha-se à ideia de sintoma como uma formação de compromisso conforme a compreensão psicanalítica.

A ÂNSIA PELO AMOR À PRIMEIRA VISTA
O primeiro café ou jantar revelam muito pouco da essência de cada um. Parece-me, às vezes, a descrição de um encontro de pavões. Evita-se mostrar-se, de fato, como um ser humano passível de falhas, inseguro ou com medos. Pelo contrário! A autovalorização defensiva torna-se demasiada quando o objetivo passa a ser convencer o “cliente” do valor especialmente vantajoso de seu “produto”. Nesse momento, do encontro de egos inflados, o verdadeiro eu da pessoa não aparece nem se abre para uma escuta sensível e trocas genuínas. Um jogo de sedução que visa encontrar no outro apenas o reflexo de seu próprio desejo. Nesse caso, o fracasso é quase sempre inevitável…
Outra possibilidade, complementar ao posicionamento dos narcisistas, acontece quando um dos pretendentes assume o papel de Eco. Geralmente por conta do medo de ser literalmente descartado. Mulheres que querem ter filhos chegam a ficar desesperadas quando estão sem parceiro após os 35 anos. As vezes, até antes. Quando iniciam um namoro, algumas deixam de ser espontâneas e se anulam. Tornam-se Eco. Despersonalizadas, na maioria das vezes, acabam perdendo… A frustração decorrrente do sumiço do pretendente, pode provocar um sofrimento profundo naqueles que possuem um histórico de vida permeado por uma grande dor de rejeição e baixa autoestima. Alguns chegam a ter ideias suicidas quando compreendem que lhes falta atributos para serem escolhidos, perdendo totalmente a esperança. Desconhecem o fato de ser comum um relacionamento iniciado virtualmente não evoluir, ficar restrito ao primeiro encontro ou nem acontecer.
É evidente que nenhum aplicativo tem o poder de criar estados graves de depressão. Porém, sucessivas experiências de abandono e de ruptura, podem agir como um fator desencadeante de desestabilização emocional e psíquica em pessoas frágeis, potencialmente propensas a desenvolver alguma doença dessa ordem.
Na ânsia de encontrar alguém, algumas pessoas não se protegem. Aceitam o convite de um estranho para ir em sua casa sem nunca antes terem conversado por voz e de saberem o mínimo a respeito um do outro. Simplesmente transam e, frequentemente se decepcionam com a falta de aprofundamento da relação. Esses casos, nos quais as pessoas não expoẽm suas identidades, me remete ao filme “O úlimo tango em Paris” de Bertolocci, cujo desfecho é trágico… ,

O JOGO DO NUNCA
Não é fácil para muitos serem comedidos em suas expectativas. Essas são depositadas, aleatoriamente, pela pessoa carente em qualquer um que lhe acene. Em caráter de urgência, um Zé ou uma Maria qualquer passa a ocupar um lugar vital como se fosse a sua única e última chance de ser feliz.
Diante de um mercado tão vasto de gente disponível procurando por um par, sujeitos adquirem um status de coisa. A voracidade e o desejo de completude imperam nesse universo – há de se encontrar a alma gêmea, o par perfeito, a tampa da panela, a metade da laranja.

Lembrei-me de uma estória:
Havia um lugar com salas que ofereciam determinado tipo de parceiro. Cada pessoa poderia entrar uma única vez nesse lugar, e, se seguissem adiante, não teriam a chance de recuar. A primeira sala oferecia um homem bonito e inteligente. Se a mulher aceitasse iria conhecê-lo para ver se era do seu agrado. Curiosa, cada uma das mulheres que por lá passaram, optou em prosseguir. Na segunda sala havia a possibilidade de se ficar com um homem bonito, inteligente e rico. A oferta mais atraente levou cada uma delas a entrar na terceira sala. Agora seria possível aceitar um homem bonito, inteligente, rico e viril. Tomadas pela empolgação, as mulheres não exitaram em entrar na quarta sala – uma vez que cada uma delas acrescentava mais qualidades ao pretendente. Nesta, o homem, se escolhido, seria bonito, inteligente, rico, viril, sensível, atencioso e carinhoso. E foi assim…, novamente movidas pela curiosidade e pelo desejo voraz de encontrar mais e mais atributos num parceiro, que as mulheres chegavam a quinta e última sala onde havia apenas a porta de saída…
Penso ser esse o movimento de alguns que buscam encontrar um amor pleno em aplicativos, acabando por transformar esse meio num fim. Entram numa engrenagem de eterna busca por alguém com mais e mais atributos, perpetuando um Jogo do Nunca. Nunca é para dar certo. Ninguém é suficiente para ser de fato escolhido. Tal busca torna-se um fetiche voyer e exibicionista de selfies, difícil de ser abandonado, desinvestido. Um hábito que pode se transformar em vício e conduzir a um final onde o único parceiro efetivamente presente não passa da tela de seu fiel celular.
Esse pode ser o destino de quem não sabe direito quem é e nem o que está buscando. Por essa razão é tão importante refletir acerca da condição humana com suas potencialidades e limites. Rever e reavaliar ilusões criadas pelas facilidades que os encontros virtuais oferecem. E, assim, aqueles interessados em encontrar um companheiro, consigam escolher um ser humano real, não idealizado, com quem possam desfrutar de uma relação verdadeiramente amorosa.

Referência bibliografica: Sztokbant, T.Y. – Escolhas e Relações Amorosas – segunda edição revisada, Amazon.br

Texto recebido no dia 04/10/2017

 

Tere Yadid Sztokbant* psicóloga CRP-06/11326, psicanalista, membro do departamento de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, mestre em psicologia clínica pela PUC/SP, docente do curso de psicanálise do Integra – Núcleo brasileiro de desenvolvimento humano, autora do livro Escolhas e Relações Amorosas (segunda ediçao online e impressa na Amazon.br), Palestrante – Psicoterapeuta de adultos e de casais. contato tere@psico.net.br – (11) 99104-4734

Sobre o(a) Autor(a)

Psicanálise e Amor

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