November 18, 2017

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Desatando os nós

DESATANDO OS NÓS

SORAYA VALERIM *

Na capa de um livro de bolso lançado no começo do ano pela L&PM, um senhor de barba branca, cabelo ralo, olhos meigos e um charuto entre os dedos. Esse homem é Sigmund Freud, e a obra é O Mal-estar na Cultura, escrita por ele em 1929, já quando estava com 73 anos.

Se poucos de seus contemporâneos puderam alcançar a análise aguda da sociedade que Freud estava fazendo naquela época, no período entreguerras, o que esta obra teria a nos dizer hoje, sobre o mundo de 2010?

É no só-depois, transcorridas algumas décadas e com a preciosa ajuda de Lacan, que podemos ler a análise que vai ao âmago do sofrimento do homem civilizado, que tem que pagar o preço do progresso cultural com déficit de felicidade. Este é um ensaio que fala da angústia e da dor por sabermos ser impotentes frente às forças da natureza, por sabermos ser mortais e por termos que, irremediavelmente, precisar do outro. O outro que serve para nossa satisfação sexual, como companheiro na luta por sobreviver, mas também aquele com o qual rivalizamos e sobre o qual gostaríamos de exercer nosso poder e domínio.

O ensaio possui oito capítulos. Começa discutindo a religião como uma construção humana para dar conta do desamparo no qual estamos mergulhados. Desamparo diante do qual concebemos um pai todo-poderoso. Um Deus, não à imagem dos homens, mas um Deus à imagem de um pai que atende à nossa ilusão de que haveria alguém não impotente como nós.

Segue o livro apresentando-nos o que seria uma programação do homem: o programa do princípio do prazer, segundo o qual as nossas ações visariam a obter o prazer e evitar o desprazer. E constata que é um programa condenado a falhar, pois sua execução seria a eliminação de toda tensão, o que, em última instância, seria o aniquilamento do homem, seria a própria morte. A realização do programa da cultura implica na não realização do programa do princípio do prazer.

A grande questão, o intrigante e que causou impacto entre seus contemporâneos é que temos atitudes e pensamentos que não estão a serviço de obter prazer: masoquismo, submissão, repetição de situações desprazerosas, o recuo diante da iminência de realização de um projeto ambicionado. Sobre isso, Freud dirá que está para além do princípio do prazer, denominando pulsão de morte. Essa é a pedra no meio do caminho com a qual se deparou em 1920 e que implicou em uma releitura de toda a sua obra produzida até então. Aqui, em O Mal-Estar na Cultura, Freud apresenta para o público a análise da sociedade, do processo de civilização, à luz desse novo olhar sobre o homem.

Seguindo a linha de questionar a suposição de que o sentido da vida seria perseguir a felicidade, Freud analisa que todo o poder que o homem foi adquirindo tornou-nos verdadeiros deuses de prótese, tamanho os artifícios que fabricamos para nos dar mais potência, mas não nos trouxe mais felicidade. Talvez até o contrário, pois nossa capacidade de nos destruir não cessa de ameaçar.

Nesta obra, está presente a equivalência que Freud costuma fazer entre o processo de desenvolvimento da cultura e o de cada sujeito. Desde o momento, mítico, em que se formou a humanidade a partir da união dos irmãos para despojarem um tirano detentor de todo poder e de todas as mulheres. E em cada indivíduo, o mito do complexo de Édipo ilustra essa rivalidade e disputa com o pai, detentor da mãe – fonte de toda satisfação. É preciso renunciar à mãe, mas também destituir esse pai poderoso, e o saldo restante é a culpa.

O mal-estar na cultura, o mal-estar que Freud encontra em cada um como culpa. Culpa que independe de estarmos cumprindo ou não com os ideais, com os mandatos. Inclusive, a culpa aparece paradoxalmente mais forte nos sujeitos mais dedicados a cumprir as leis e a ordem. É que a culpa é a parcela de agressividade que, não podendo ser dirigida para fora, volta-se para o próprio sujeito.

Bem, se não puder ler toda a obra, leia ao menos os capítulos dois e o sete e encontre toda a força da escrita de Freud, onde ele nos mostra o encontro que teve com aquilo que não é o que gostaríamos de saber sobre nós, tão civilizados que somos.

É um Freud que vem dizer o quanto o princípio do prazer e aquele estranho além do princípio do prazer estão imbricados. Que a cultura se forma a partir das forças da pulsão de vida, de Eros, agregador, mas também tem que separar os amantes e os filhos. Porque um amor sem fim seria o próprio fim. E que a forma que a cultura tem para proteger o indivíduo da agressividade que ele exerceria sobre os outros, ameaçando a cultura, é voltá-la para si mesmo, sob a forma de culpa. É a pulsão de morte se satisfazendo no próprio indivíduo.

Enfim, é um sábio Freud falando da luta eterna entre os impulsos de amor e destruição, de vida e de morte. E que a vida, afinal, é o resultado dessa dualidade.

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Fonte: Diário Catarinense

SORAYA VALERIM * (  Psicanalista, integrante da Seção SC da Escola Brasileira de Psicanálise)

Sobre o(a) Autor(a)

Psicanálise e Amor

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