November 18, 2017

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Da fantasia do outro ao desejo do um

Da fantasia do outro

ao

desejo do um

 Por: Cássio Vilela Prado

 

“O sintoma, ai está fato fundamental da experiência analítica, define-se neste contexto como representante da verdade. O sintoma pode representar a verdade do casal.”. Jacques-Marie Lacan (1969)

 

E, de repente, o casal deseja ter um filho ou uma filha!

Certa dúvida com relação ao sexo da criança já começa aí: menino ou menina? Dúvida esta que o futuro sujeito deverá se posicionar a partir do desejo do outro.

– Meu amor, diz a mãe, dentro de sua fantasia projetiva: “Eu prefiro uma menina, eu sempre quis ter uma menina mulher!”.

– Querida, diz o pai, também dentro de seu universo imaginário projetivo: “Eu já prefiro um menino homem, eu sempre quis ter um!”.

Muito interessante, a criança já começa a existir na subjetividade do par parental, embora nem gravidez biológica exista, a criança já se enuncia a partir do desejo do outro. Ainda sem sexo, muito pelo contrário, no intervalo entre dois significantes, conforme o psicanalista francês, Jacques-Marie Lacan. Mãe = S1 (significante 1) e Pai= S2 (significante 2).

Portanto, além de ser apenas o desejo no campo do desejo e da fantasia dos pais, a criança agora, pode-se dizer, é bissexual.

Neste sentido, sob o olhar da psicanálise, somos desejos do desejo do outro, ou seja, a história do homem é a história de desejos desejados.

Mas atenção: Foi dito “somos desejos do desejo” e não objeto do desejo do outro, pois se o sujeito que devirá ficar apenas na condição de objeto do desejo do outro, com imposições tirânicas e narcísicas, na verdade não emergirá um futuro sujeito autor de seu próprio desejo. Daí ocorrerá a permanente submissão, a angústia objetal com as suas mais diversas manifestações sintomáticas: conflito neurótico, posição perversa psicopática ou até mesmo uma indefinição mais complexa no campo da sexualidade que suscitará inclusive uma possível psicose como saída para o sujeito quando este é somente assujeitado ao desejo do outro.

Como é do conhecimento de todos, não é o sexo anatômico do bebê que definirá a sua sexualidade, pois esta não se constrói sobre a anatomia do aparelho genital dos gêneros masculino e/ou feminino, mas pela posição que o sujeito assume na dinâmica da subjetividade dos pais (outros).

É bom que se diga que para a psicanálise o desejo é da ordem do inconsciente, portanto determinado pelos instintos (pulsões) mais arcaicos e as suas vicissitudes, pois o Eu (ego) está longe de ser soberano e dono absoluto da vida mental, basta que se preste mais atenção nas escolhas realizadas para verificar o tanto que se age sem saber exatamente qual foi o motivo de determinada ação.

Escuta-se muito a seguinte frase, principalmente na clínica: “Eu não sei por que eu fiz isso, não tá em mim!” – o que se pode retrucar: “Não está em você? Onde está então?”.

Com a psicanálise, pode-se dizer, está no inconsciente, na outra cena pulsional desejante, mas recalcada, denegada ou forcluída (suprimida), pois se aceita no campo da consciência pode causar muito sofrimento.

– “Amor”, diz a mãe dentro de sua fantasia projetiva: “Se for um menino homem, eu quero que ele seja médico, um doutor! Médico é muito importante, ganha muito dinheiro, né?”.

– “Mas querida”, diz o pai dentro de seu universo imaginário projetivo: “Quem vai tomar conta dos meus negócios? Construído com muita luta e sacrifício, tem que ser um menino homem para dar conta, acho que ele nem precisa estudar para isso, igual a mim!”.

Muito bem, os impasses continuam…

A mulher ainda não está grávida biologicamente e o futuro infans ainda não tem sexo! Menina e ainda mulher? Menino e ainda homem?

Menina mulher médica! Menino homem negociante!

O (a) infans não nasceu e já existe! Está sendo construído pela mamãe e pelo papai, no campo do imaginário e do simbólico do casal. Existe no desejo projetivo de ambos.

O sujeito que ora se esboça é puro objeto do desejo do outro. Ele é fantasia, posto que o objeto do desejo seja a fantasia.

Na verdade, para se constituir enquanto sujeito do próprio desejo é preciso se dialetizar entre o S1 e o S2, mencionados acima. E imprescindível que, futuramente, se essa fantasia se tornar realidade, que seja permitido ao infans, que deverá ter acesso ao código humano da linguagem e dos afetos, apropriar-se de seu desejo, pois agora ele é puro objeto do desejo do outro.

Que venha o infans, com um corpo que possa ser banhado também pela linguagem afetiva, amorosa e humanizante!

Daí, por favor, que se permita a constituição de um sujeito do desejo e da sua própria história. Quem sabe, um pouco menos narcisista e projetivo como o casal imaginado acima.

É necessário fornecer à criança a possibilidade de fundamentação simbólica e assim, quem sabe, recobrir determinados elementos do real que, para Lacan, não cessa de não se escrever.

PS – O termo “outro” foi usado com minúscula por questões didáticas ao público.

Escrito Por: 

*Cássio Vilela Prado,  Brumadinho, 02 de março/2016.

*Cassio Vilela Prado: Psicólogo Clínico, Psicanalista, Poeta e Escritor.

 https://www.facebook.com/cassiovilelaprado?fref=nf

Sobre o(a) Autor(a)

Psicanálise e Amor

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