December 12, 2017

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Análise Terminável e Interminável

Análise Terminável e Interminável
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ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL (1937)

A terapia psicanalítica consome [muito] tempo. [Por isso] desde o começo houve tentativas de encurtá-la. Tais esforços baseavam-se em [razões de] conveniências, mas também no desprezo com que a Medicina sempre encarou as neuroses: deveríamos livrar-nos delas tão rápido quanto possível.

Uma das tentativas [de tornar a análise mais curta] foi a levada a efeito por Otto Rank em seu livro “O Trauma do Nascimento”. Para ele a fonte da neurose era o nascimento e a “fixação primeva” à mãe podia persistir como “repressão primeva”. Rank achava que se lidássemos com esse trauma através da análise, nos livraríamos da neurose, mas este argumento não suportou o exame crítico. [Ele] foi concebido no contraste entre a miséria do pós-guerra na Europa e a “prosperity” dos Estados Unidos e visou adaptar a terapia analítica à pressa da vida americana. Não sabemos o que o projeto de Rank fez pelas doenças, mas provavelmente não fez mais do que faria o Corpo de Bombeiros se chamado para socorrer a uma casa que se incendiara por causa de uma lâmpada a óleo se contentasse em retira-la do quarto em que o fogo começara. A teoria e a prática disso são hoje coisas do passado

Eu mesmo tentei um modo de acelerar um tratamento, antes da guerra. Nessa época, aceitei o caso de um jovem russo que chegara a Viena em estado de completo desamparo. [Tratava-se do “Homem dos Lobos”, assim chamado por causa de um sonho que teve, cujo caso Freud publicou em 1918, sob o título “História de uma Neurose Infantil” – Edições Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – volume XVII, Imago Editora, 1974]. Em poucos anos foi possível devolver-lhe grande parte de sua independência, despertar seu interesse pela vida e ajustar suas relações com as pessoas, mas aí o progresso se interrompeu e não progredimos no esclarecimento da sua infância. O paciente se acomodara à sua situação atual e não dava qualquer passo que o aproximasse do fim do tratamento, que corria o risco de fracassar. [Foi] nesse dilema que recorri à medida de fixar um limite de tempo para a análise: ao início de um [novo] ano de trabalho informei o paciente de que aquele deveria ser o último ano de seu tratamento, não importando o que ele conseguisse no tempo que ainda lhe restava. Assim que se convenceu de que eu falara a sério, a mudança desejada se estabeleceu. Suas resistências diminuíram e foi capaz de lembranças e de descobrir as conexões necessárias para compreender sua neurose primitiva e dominar a atual. [Posteriormente Freud veio a se manifestar contra esse procedimento, como adiante se verá, afirmando que o melhor modo de encurtar uma análise é ater-se estritamente às suas regras]. Quando me deixou, acreditei que sua cura fora radical e permanente. [Freud estava enganado!].

Numa nota acrescentada em 1923 à história clínica desse paciente, já comunicara que eu estava enganado. Quando, no fim da guerra [1ª guerra mundial] ele retornou, refugiado e destituído, tive de ajudá-lo a dominar parte da transferência que não fora resolvida. Isso foi realizado em alguns meses, e pude encerrar minha nota com a declaração de que, ‘desde então, o paciente tem-se sentido normal e se comportado de modo não excepcional, apesar de a guerra tê-lo despojado de seu lar, de suas posses e de todos os seus relacionamentos familiares’. Quinze anos se passaram sem que tenha sido refutada a verdade desse veredicto, mas certas reservas tornaram-se necessárias. Diversas vezes, durante esse período, seu estado de saúde foi interrompido por crises que eram ramificações de sua doença. Graças a tratamentos breves, – com a Dra. Ruth Mack Brunswick – pôs fim a essas condições. Algumas delas, relacionadas a resíduos da transferência, apresentavam caráter paranóico. Em outras, o material patogênico consistia em fragmentos da história da infância do paciente que não tinham vindo à luz enquanto eu o estava analisando. Achei a história do restabelecimento do paciente pouco menos interessante do que a de sua doença.

Empreguei um limite de tempo também em outros casos, levei em conta as experiências de outros analistas e acabei concluindo que o expediente só é eficaz se acertar-se o tempo correto e que não se pode garantir a realização perfeita dessa tarefa. Embora parte do material se torne acessível sob a pressão dessa ameaça, outra parte é retida e fica sepultada, pois uma vez que o analista tenha fixado o limite de tempo, não pode ampliá-lo porque, de outro modo, o paciente perderia toda a fé nele. A saída mais óbvia para o paciente seria continuar o tratamento com outro analista, embora saibamos que tal mudança envolveria nova perda de tempo e o abandono dos frutos do trabalho já realizado. Tampouco se pode estabelecer qualquer regra quanto à ocasião correta para recorrermos a esse artifício.

II

O problema de como acelerar a análise nos conduz a outra questão: existe algo que se possa chamar de término de uma análise? A julgar pela conversa dos analistas, parece que sim, já que às vezes os ouvimos dizer: ‘Sua análise não foi terminada’ ou ‘Ele nunca se analisou até o fim.’

Consideremos o que se quer dizer com ‘o término de uma análise’. De um ponto de vista prático, é fácil responder. Uma análise termina quando analista e paciente deixam de encontrar-se para a sessão analítica. Isso acontece quando duas condições foram preenchidas: (1)- o paciente não mais está sofrendo de seus sintomas e superou suas ansiedades e inibições e (2)- o analista julga que não é de se temer uma repetição do processo patológico. Quando se é impedido por dificuldades externas de alcançar esse objetivo, é melhor falar de análise incompleta, ao invés de análise inacabada.

O outro significado de ‘término’ é mais ambicioso. Indaga se a análise exerceu uma tal influência que já não se pode esperar nenhuma mudança ulterior. É como se fosse possível chegar a um nível de normalidade absoluta, como se pudéssemos alcançar êxito solucionando todas as repressões e preenchendo todas as lacunas de memória. Podemos primeiro consultar nossa prática para indagar se tais coisas de fato acontecem e depois voltarmo-nos à teoria, a fim de saber se há possibilidade de que elas aconteçam.

Todo analista tem casos que apresentaram esse desfecho e compreendemos os fatores que os determinam. O ego do paciente não foi muito alterado [pela enfermidade] e a etiologia de seu distúrbio foi principalmente traumática. A etiologia de todo distúrbio neurótico é, afinal de contas, uma etiologia mista. Trata-se de uma questão de os instintos serem excessivamente fortes ou dos efeitos de traumas precoces que o ego imaturo foi incapaz de dominar. Quanto mais forte o fator constitucional, mais o trauma conduz a uma fixação e deixa atrás de si um distúrbio do desenvolvimento; quanto mais forte o trauma, mais seus efeitos prejudiciais se tornarão manifestos, mesmo se a situação instintual for normal. Não há dúvida de que uma etiologia de tipo traumático é a mais favorável para a análise. Somente quando um caso é predominantemente traumático a análise alcança sucesso em realizar aquilo de que é capaz; apenas então ela consegue substituir a decisão inadequada tomada na vida primitiva, por uma mais correta. Só em tais casos pode-se falar de análise terminada, mas mesmo assim, se o paciente nunca volta a produzir outro distúrbio que exija análise, não sabemos o quanto de sua imunidade é devida a um destino bondoso que lhe poupou de provações.

Uma força constitucional [intensa] do instinto ou uma grande alteração do ego são fatores prejudiciais à eficácia da análise e podem torna-la interminável. Fica-se tentado a tornar o primeiro desses fatores como responsável pelo surgimento do segundo, mas parece que também este último possui sua etiologia própria. Nosso conhecimento desses assuntos ainda é insuficiente e só agora eles estão se tornando matéria de estudo. Parece-me que o interesse dos analistas está dirigido erradamente. Em vez de indagar como se dá a cura pela análise, deveriam perguntar quais os obstáculos que se colocam no caminho dela. Isso me conduz a dois problemas que surgem diretamente da clínica, como espero demonstrar pelos exemplos que se seguem.

§ Certo homem que, ele próprio, praticara a análise com grande sucesso, chegou à conclusão de que suas relações com [outros] homens e mulheres não eram livres de impedimentos neuróticos e fez-se submeter a uma análise por parte de outrem e foi bem-sucedido. Casou-se com a mulher que amava e transformou-se em amigo e mestre de seus supostos rivais. Muitos anos se passaram dessa maneira, durante os quais suas relações com o antigo analista permaneceram também desanuviadas. Mas então, sem qualquer razão externa, surgiram problemas. O homem que fora analisado tornou-se antagonista do analista e censurou-o por ter falhado em lhe proporcionar uma análise completa. O analista, dizia ele, devia ter sabido e levado em consideração o fato de uma relação transferencial nunca poder ser puramente positiva; deveria ter concedido atenção à possibilidade de uma transferência negativa. O analista defendeu-se dizendo que à época não havia sinal de transferência negativa. Mas, mesmo que tivesse falhado em observar sinais débeis dela, era duvidoso se teria tido o poder de ativar um assunto por apontá-lo, enquanto este não estivesse presentemente ativo no próprio paciente. Ativá-lo teria certamente exigido, na realidade, um comportamento inamistoso por parte do analista. Ademais, acrescentou, nem toda boa relação entre analista e paciente, durante e após a análise, devia ser entendida em função da transferência; havia também relações amistosas que se baseavam na realidade e que provavam ser viáveis. [Parece que Freud se refere a Otto Fenichel, que foi analisado por ele próprio].

§ Segundo exemplo: uma mulher solteira fora cerceada da vida desde a puberdade por uma incapacidade de andar, devido a severas dores nas pernas. Seu estado era obviamente de natureza histérica e desafiara muitos tipos de tratamento. Uma análise que durou nove meses removeu o problema. Nos anos que se seguiram ela foi sistematicamente desafortunada. Houve desventuras em sua família, perdas financeiras e, à medida que ficava mais velha, via desvanecer-se toda esperança de felicidade no amor e no casamento. Mas a ex-inválida resistiu a tudo isso e constituiu um apoio para a família, nos tempos difíceis. Doze ou catorze anos após o fim de sua análise ela foi obrigada a submeter-se a um exame ginecológico. Encontrou-se um mioma que obrigava a uma histerectomia. A partir dessa operação a mulher mais uma vez caiu doente. Enamorou-se de seu cirurgião, afundou-se em fantasias masoquistas sobre as temíveis alterações dentro de si e mostrou-se inacessível a uma nova análise. Permaneceu anormal até o fim da vida. O tratamento analítico bem-sucedido realizara-se há tanto tempo que já não se podia esperar muito dele. A segunda moléstia da paciente originou-se da mesma fonte que a primeira. Mas estou inclinado a pensar que se não fosse pelo novo trauma, não teria havido nova irrupção da neurose.

Esses exemplos bastarão para iniciar um exame dos tópicos que estamos considerando. Os céticos dirão que está provado que mesmo um tratamento analítico bem-sucedido não protege o paciente de cair doente mais tarde de outra neurose. Os otimistas e os ambiciosos considerarão que isso não está provado. Observarão que os dois exemplos datam dos primeiros dias da análise e que desde então adquirimos uma compreensão interna (insight) mais profunda e que nossa técnica se modificou de acordo com novas descobertas. Hoje, dirão, podemos exigir e esperar que a cura analítica seja permanente.

Minha razão para ter escolhido esses dois exemplos foi o fato de que eles aconteceram há muito, no passado, porque é óbvio que quanto mais recente tenha sido o desfecho de uma análise, menos podemos predizer a sua conseqüência posterior, [a longo prazo]. As expectativas dos otimistas pressupõem uma série de coisas que não são auto-evidentes. Presumem que há possibilidade de livrar-se definitivamente de um conflito instintual. Presumem, também, que enquanto estamos tratando alguém de determinado conflito, podemos “vaciná-lo” contra quaisquer outros conflitos e, ainda, que temos o poder de despertar um conflito patogênico que não se está revelando na ocasião e que é aconselhável faze-lo. Lanço essas questões sem me propor respondê-las. Talvez atualmente nem mesmo seja possível dar-lhes qualquer resposta.

Talvez se possa lançar alguma luz sobre elas mediante considerações teóricas, mas um ponto já se tornou claro: se quisermos atender às exigências mais rigorosas feitas à terapia analítica, nossa estrada não nos conduzirá a um abreviamento de sua duração, nem passará por ele.

III

Uma experiência analítica que [já] se estende por diversas décadas e uma mudança que se efetuou na minha atividade, incentivam-me a tentar responder as questões apresentadas. Nos últimos anos, dediquei-me principalmente a análises didáticas, mas um certo número de casos graves permaneceu comigo para tratamento contínuo, embora interrompidos por breves intervalos. Os pacientes desejavam ser tratados tão rapidamente quanto possível, mas com os outros o objetivo terapêutico não era abreviar o tratamento mas exaurir as possibilidades de doença e levar a uma alteração profunda de sua personalidade.

Dos três fatores que reconhecemos como decisivos para o rumo do tratamento — (1)- a influência dos traumas, (2)- a força constitucional dos instintos e as (3)- alterações do ego —, o que nos interessa aqui é apenas o segundo. Uma reflexão levanta dúvida quanto a saber se o uso restritivo do adjetivo ‘constitucional’ é essencial. Embora seja verdadeiro que o fator constitucional seja de importância, é concebível que um reforço instintual possa produzir os mesmos efeitos. Se assim for, teremos de modificar nossa fórmula e dizer ‘a força dos instintos na ocasião’, em vez de ‘a força constitucional dos instintos’.

A primeira de nossas questões foi:

Caixa de texto: ‘É possível, mediante a terapia analítica, livrar-se, de modo permanente, de um conflito entre um instinto e o ego?’

Para evitar má compreensão é necessário explicar o que se quer dizer com ‘livrar-se permanentemente de uma exigência instintual’. Certamente não é ‘fazer-se com que a exigência desapareça’. Isso é impossível e nem seria desejável. Queremos dizer outra coisa, algo que pode ser descrito como um ‘amansamento’ do instinto. Isso equivale a dizer colocá-lo em harmonia com o ego, torna-lo acessível às influências de outras tendências e ele não buscar mais seguir seu caminho independente. Se nos perguntarem por que meios esse resultado é alcançado, não será fácil achar uma resposta. Sem especulação e teorização metapsicológica não conseguiremos dar outro passo à frente. Temos apenas uma única pista para começar, a saber, a antítese entre o processo primário e o secundário; para a qual me voltarei neste ponto.

Se retomarmos nossa primeira questão – se é possível livrar-se de modo permanente de um conflito – nossa abordagem nos conduzirá a uma conclusão específica. Ela não faz menção à força do instinto, mas é disso que o resultado depende. Partamos da presunção [bem fundamentada] de que aquilo que a análise realiza para os neuróticos nada mais é do que o que as pessoas normais conseguem sem o auxílio dela. A experiência nos ensina que numa pessoa normal qualquer solução de um conflito só é válida para uma determinada relação entre a força do instinto e a do ego. Se a força deste diminui todos os instintos que até então haviam sido “amansados” esforçam-se por obter satisfações. Uma prova dessa afirmação é fornecida pelos sonhos. Eles reagem à atitude de sono assumida pelo ego com um despertar das exigências instintuais.

O material do outro lado (a força dos instintos) é igualmente sem ambigüidades. Não nos surpreenderemos se uma pessoa tornar-se neurótica na puberdade ou na menopausa porque, nessas ocasiões, certos instintos são reforçados. Enquanto seus instintos eram menos fortes a pessoa conseguiu êxito em “amansá-los”, mas quando foram reforçados, não mais pode faze-lo. Efeitos semelhantes podem ser ocasionados em outros períodos da vida por causas acidentais. Tais reforços podem ser estabelecidos por traumas, frustrações ou influências mútuas dos instintos. O resultado é que eles salientam a importância do fator quantitativo na causação da doença.

Tudo isso é conhecido e auto-evidente há muito. Sempre nos comportamos como se soubéssemos disso, mas nossos conceitos não deram à linha econômica a importância que concederam às linhas dinâmica e topográfica.

[Linha econômica: descreve os modelos de dispêndio da energia psíquica; linha dinâmica: descreve as forças envolvidas no conflito mental; linha topográfica descreve a ‘localização’ (topos) de um determinado fenômeno mental (p. e.: consciente, inconsciente, id e ego etc.). Pode-se acrescentar, ainda, uma linha genética que procura traçar as origens dos fenômenos mentais].

Antes de responder à nossa questão temos de considerar uma objeção. Nossos argumentos são todos deduzidos a partir dos processos que se efetuam entre o ego e os instintos e pressupõem que a terapia analítica nada pode realizar que não [possa também] ocorrer por si. Mas será realmente assim? Não é reivindicação de nossa teoria a de que a análise leva a um estado que não surge espontaneamente no ego e que esse estado constitui a diferença entre uma pessoa analisada e outra que não o foi? Tenhamos em mente em que se baseia essa reivindicação. As repressões se efetuam na primeira infância e são medidas de defesa, tomadas pelo ego imaturo. Nos anos posteriores, não são levadas a cabo novas repressões, mas as antigas persistem e seus serviços continuam a ser utilizados pelo ego para o domínio dos instintos. Livramo-nos de novos conflitos através do que chamamos de ‘repressão ulterior’ [repressão secundária ou repressão propriamente dita]. As repressões dependem do poder relativo das forças envolvidas e podem não conseguir se manter se ocorrer um aumento na força dos instintos. A análise capacita o ego a empreender uma revisão das repressões antigas. A firmeza das novas barreiras é bastante diferente da das anteriores. Não cederão ante uma maré da força instintual. Dessa maneira, a façanha real da análise é a correção do processo original de repressão.

Até aqui, nossa teoria. O que tem a dizer nossa experiência? Talvez ela ainda não seja ampla o bastante para que cheguemos a uma conclusão. Ela confirma nossas expectativas com bastante freqüência, mas não sempre. Não se deve ficar surpreso se ela mostrar que a diferença de comportamento entre uma pessoa não analisada e de uma que tenha sido não é tão radical. A análise às vezes tem êxito em eliminar a influência de aumento no instinto ou o efeito da análise se limita a aumentar o poder de resistência das inibições. Não posso comprometer-me com uma decisão sobre esse ponto nem sei se é possível uma decisão.

Mas há também outro ângulo a partir do qual podemos abordar os efeitos da análise. O primeiro passo no sentido de chegar ao domínio intelectual do meio ambiente é descobrir leis que tragam ordem ao caos. Fazendo isso, simplificamos o mundo dos fenômenos, mas não podemos evitar falsificá-lo: interessados em discernir alterações qualitativas, deixamos de lado o fator quantitativo. No entanto, as transições são mais comuns que os opostos nitidamente diferenciados. Quando um mecenas generoso mostra algum traço de avareza ou quando uma pessoa que é sistematicamente muito bondosa permite-se uma ação hostil, tais ‘fenômenos residuais’ são valiosos para a pesquisa genética [de gênese, não de genes]. Eles nos mostram que essas qualidades baseiam-se na supercompensação, a qual não foi bem-sucedida. No desenvolvimento da libido uma fase oral original cede caminho a uma fase anal-sádica e esta, por sua vez é sucedida por uma fase fálico-genital. Essas substituições realizam-se gradativamente, de maneira que partes da organização anterior persistem ao lado da mais recente e a transformação nunca é completa, permanecendo resíduos de fixações. O mesmo pode ser visto em outros campos. Resíduos das errôneas crenças da humanidade ainda perduram entre nós.

Aplicando essas observações ao nosso problema, penso que nos esforçamos por substituir repressões que são inseguras por controles egossintônicos [afinados com o ego] dignos de confiança, embora nem sempre alcancemos nosso objetivo. Com freqüência a transformação só é conseguida parcialmente: partes dos antigos mecanismos permanecem intocadas. É difícil provar que isso é realmente assim, pois não temos outro modo de ajuizar o que acontece senão pelo resultado que estamos tentando explicar mas as impressões deixadas pela psicanálise não contradizem isso. Não devemos tomar a clareza de nossa compreensão interna (insight) como medida da convicção que produzimos no paciente. À convicção dele pode faltar ‘profundidade’. Trata-se, como sempre, de uma questão quantitativa. Se essa for a resposta certa à nossa questão podemos dizer que a análise está correta na teoria, mas nem sempre na prática. É fácil descobrir a causa disso. No passado, o fator quantitativo da força instintual opôs-se aos esforços defensivos do ego. Agora, o mesmo fator estabelece um limite à eficácia da análise. Se a força do instinto é excessiva o ego maduro fracassa em sua missão, tal como o ego débil fracassou antes. Nada há de surpreendente nisso, visto que o poder da análise não é ilimitado e o resultado final [dela] depende da força relativa dos agentes em luta entre si.

Não há dúvidas de que é desejável abreviar [o tempo de duração da] análise mas só conseguiremos isso aumentando o poder dela em vir em assistência do ego. A influência hipnótica [a princípio] pareceu ser um instrumento excelente para nossos fins, mas as razões por que tivemos de abandoná-la são bem conhecidas. Ainda não foi encontrado substituto algum para a hipnose. Desse ponto de vista, podemos compreender como um mestre da análise como Ferenczi veio a dedicar os últimos anos de sua vida a experimentos terapêuticos, os quais, infelizmente, se mostraram vãos. [Freud abandonou a hipnose, entre outros motivos, porque(1) nem todos os pacientes eram hipnotizáveis, porque (2) os sintomas voltavam a reincidir e porque (3) as resistências eram deixadas intocadas. Ferenczi buscou conseguir análises mais rápidas. Foi com esse objetivo que postulou a chamada “técnica ativa”. Suas idéias tiveram seguimento com Franz Alexander, no Instituto de Chicago].

IV

As duas outras questões — se podemos proteger o paciente de futuros conflitos e se é viável e conveniente despertar um conflito que não está manifesto na ocasião — devem ser tratadas em conjunto, pois a primeira tarefa só pode ser levada a cabo na medida em que a segunda o for. Consideramos [antes] como nos resguardar contra o retorno do mesmo conflito e estamos considerando agora como nos proteger contra sua possível substituição. Isso pode soar ambicioso, mas o que [assim] estamos fazendo é clarear os limites da terapia analítica.

Por mais que nossa ambição terapêutica possa ficar tentada a empreender tais tarefas, a experiência mostra que [isso] não é possível. Se o conflito não está ativo, não podemos influir sobre ele. [No entanto,] a advertência de que devemos deixa-lo repousar, [por vezes] é despropositada, pois se os instintos estão provocando distúrbios, isso é prova de que não estão dormindo e [mesmo] se estivessem, não estaria no nosso poder acordá-los. Essa última afirmação não parece inteiramente exata e exige debate mais pormenorizado. Que meios temos para transformar um conflito latente em ativo? (1)- Causar situações em que o conflito se torne ativo ou (2)- debatê-lo na análise e apontar a possibilidade de ele despertar. A primeira alternativa pode ser levada a cabo de duas maneiras: na realidade ou na transferência, expondo o paciente à frustração e ao represamento da libido. É verdade que já fazemos isso em nosso procedimento comum, pois qual, senão esse, o significado da regra de que a análise deve ser levada a cabo ‘num estado de frustração’? Mas essa é uma técnica que utilizamos ao tratar um conflito ativo. Procuramos leva-lo a um ponto culminante, desenvolvê-lo ao máximo, a fim de aumentar a força disponível para sua solução.

Mas se o que visamos é o tratamento profilático de conflitos, não será suficiente regular os sofrimentos que já se acham presentes no paciente. Teríamos de provocar-lhe outros novos. E que tipo de experimentos seriam esses? Poderíamos, com fins de profilaxia, destruir um casamento satisfatório, ou fazer com que um paciente abandone seu cargo? Afortunadamente, nunca nos encontramos na situação de termos de considerar se tais intervenções na vida do paciente são justificadas. Na prática, tal procedimento está excluído, mas existem, além disso, objeções teóricas a ele, pois o trabalho de análise progride melhor se as experiências patogênicas do paciente pertencem ao passado, de modo que seu ego possa situar-se a certa distância delas. Em estados de crise aguda, a análise não é utilizável porque todo o interesse do ego é tomado pela realidade penosa [do momento] e ele se retrai da análise que está tentando revelar as influências do passado. Criar um novo conflito só tornaria o trabalho de análise [ainda] mais prolongado e difícil. Deixamos isso ao destino.

Um paciente que teve escarlatina está imune à doença, no entanto jamais ocorre a um médico pegar uma pessoa sadia e infectá-la com esta, a fim de torná-la imune à mesma. Na profilaxia analítica contra conflitos, pois, os únicos métodos que entram em consideração são os outros dois: a produção artificial de novos conflitos na transferência e o despertar deles na imaginação do paciente.

O primeiro desses dois procedimentos não está excluído da análise, mas as dificuldades [de realiza-lo] não lançam uma luz promissora sobre tal empresa porque os pacientes não trazem todos os seus conflitos para a transferência, nem o analista está apto a invocar todos os possíveis conflitos deles, a partir da situação transferencial. Ele pode torná-los ciumentos ou faze-los experimentar desapontamentos no amor, mas não é necessário nenhum propósito deliberado para ocasionar esse efeito já que tais coisas acontecem por si mesmas, na maioria das análises. Em segundo lugar, não devemos desprezar o fato de que os esforços nesse sentido obrigariam o analista a se comportar de maneira inamistosa para com o paciente e isso teria um efeito prejudicial sobre a atitude afetuosa — a transferência positiva — que é o motivo mais forte para o paciente participar do trabalho analítico. [Freud assim se posiciona firmemente, e com razão, contra a adoção de atitudes planejadas, da parte do terapeuta, coisa que Franz Alexander, em Chicago, veio a defender].

Isso, pois, deixa-nos apenas um método. Falamos ao paciente sobre as possibilidades de outros conflitos e esperamos que essa informação e essa advertência tenham o efeito de ativar os conflitos que indicamos. No entanto, isso não ocorre. O paciente escuta nossa mensagem, mas não reage a ela. Aumentamos seu conhecimento, mas nada mais alteramos nele. A situação é análoga à que de passa quando as pessoas lêem trabalhos psicanalíticos. O leitor é ‘estimulado’ apenas por aquelas passagens que interessam a conflitos que estão ativos nele, na ocasião. O mais, o deixa indiferente. É análogo a quando fornecemos esclarecimentos sexuais às crianças. Após isso as crianças sabem algo que não sabiam, mas não fazem uso do novo conhecimento e nem mesmo têm pressa de corrigir as sua teorias sexuais [Ver “Sobre as Teorias Sexuais das Crianças” – Edições Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud – volume IX]. Mesmo após receberem os esclarecimentos, elas se comportam como as raças primitivas que tiveram o cristianismo enfiado nelas, mas que continuaram a adorar seus antigos ídolos.

V

Começamos [esse trabalho] com a questão de saber como podemos abreviar a duração do tratamento analítico e passamos [depois] a considerar se é possível conseguir uma cura permanente e impedir uma reincidência da doença através de um tratamento profilático. Descobrimos que os fatores que decidem o sucesso dos esforços terapêuticos são a influência da etiologia traumática, a força relativa dos instintos e a alteração do ego. Apenas o segundo desses fatores foi pormenorizadamente examinado e tivemos ocasião de reconhecer a importância do fator quantitativo e de acentuar a reivindicação da linha de abordagem metapsicológica a ser considerada em qualquer tentativa de explicação.

Quanto ao terceiro fator – a alteração do ego -, ainda não dissemos nada, embora haja muito a perguntar e a responder. A análise consiste em nos aliarmos com o ego, a fim de controlar partes do id. Isto é, incluí-las na síntese do ego. O fato de uma tal cooperação fracassar com os psicóticos, fornece-nos uma primeira pista. O ego [inteiramente] normal não existe, mas o anormal infelizmente não é ficção. Na verdade, toda pessoa “normal” o é apenas na média. Em algum lugar, seu ego aproxima-se do psicótico e o maior ou menor desvio fornece-nos a medida do que denominamos ‘alteração do ego’.

Se quisermos saber qual a fonte das alterações do ego, não fugiremos à alternativa congênitas-adquiridas. Se forem adquiridas, essas alterações aconteceram durante os anos de infância. É no decurso do desenvolvimento que o ego aprende a adotar defesas para com o id e a tratar os instintos como perigos externos. Isso acontece porque ele compreende que uma satisfação [livre] do instinto conduziria a conflitos com o mundo externo. Mais tarde, sob a influência da educação, o ego remove a cena de fora para dentro e domina o perigo interno antes que ele se tenha tornado externo. Nessa luta, o ego faz uso de diversos procedimentos para desempenhar sua tarefa, que consiste em evitar o perigo, a ansiedade e o desprazer – os ‘mecanismos de defesa’. Nosso conhecimento sobre eles ainda não é completo. O livro de Anna Freud (1936) fornece uma primeira compreensão de sua multiplicidade e significação.

Foi a partir de um deles – a repressão -, que o estudo das neuroses se iniciou. Nunca houve dúvida de que a repressão não era o único procedimento que o ego podia empregar [como defesa]. Não obstante, ela é mais diferenciada de outros mecanismos do que estes entre si. Para tornar clara a relação [dela] com os outros mecanismos [vamos lançar mão] de uma analogia :imaginemos o que aconteceria a um livro, na época em que os livros eram redigidos individualmente, que contivesse afirmações consideradas indesejáveis. Nos dias de hoje a censura oficial poderia valer-se do mecanismo de confiscar e destruir todos os exemplares. Naquela época, contudo, diversos métodos eram utilizados para tornar o livro inócuo. Um, era riscar cerradamente as passagens consideradas ofensivas, de modo a ficarem ilegíveis. Nesse caso, elas não poderiam ser transcritas e o copista seguinte produziria um texto inatacável, mas com lacunas que poderiam torna-lo ininteligível. Outra maneira seria deformar o texto. Palavras isoladas podiam ser deixadas de fora ou substituídas por outras e novas frases serem interpoladas. Ou ainda, a passagem seria apagada e outras novas colocadas em seu lugar. O transcritor seguinte poderia então produzir um texto que não despertaria suspeita, mas que seria falsificado.

Se a analogia for estritamente seguida, podemos dizer que a repressão tem com os outros métodos de defesa a mesma relação que a omissão tem com a deformação do texto. Pode-se fazer objeção à analogia dizendo que a deformação do texto é obra de uma censura tendenciosa. Mas a força do princípio de prazer também é tendenciosa. O aparelho psíquico não tolera o desprazer e se a percepção da realidade o acarreta, é sacrificada. Dos perigos externos o indivíduo pode fugir, mas não dos internos. Por essa razão os mecanismos de defesa do ego falsificam nossa percepção interna e nos dão uma representação imperfeita do id. Em suas relações com o id o ego é paralisado por suas restrições ou cegado por seus erros e o resultado disso só pode ser comparado a caminhar num país que não se conhece, sem dispor de um bom par de pernas.

Em geral os mecanismos de defesa são bem-sucedidos e o ego não pode passar sem eles no seu desenvolvimento, mas é certo também que podem transformar-se em perigos. Por vezes, o dispêndio necessário para mantê-los e as restrições que acarretam mostram-se um ônus pesado. Esses mecanismos não são abandonados após terem servido ao ego. O ego do adulto continua a se defender contra perigos que não mais existem e vê-se compelido a buscar na realidade as situações que sirvam como substituto do perigo original, de modo a poder se justificar com elas. Assim, podemos entender como os mecanismos defensivos preparam o caminho para as neuroses e o incentivam. Ademais, nenhum indivíduo faz uso de todos os mecanismos de defesa. Cada pessoa utiliza uma seleção deles que se fixa e torna-se parte de seu caráter, sendo repetidos sempre que volta a ocorrer uma situação semelhante à original.

Aqui não estamos interessados no papel patogênico dos mecanismos defensivos, mas tentando descobrir qual a influência que a alteração do ego tem sobre nossos esforços terapêuticos. O paciente repete essas modalidades de reações durante a análise, mas isso não significa que a tornem impossível. Ao contrário, constitui a metade da tarefa analítica, consistindo a outra metade na revelação do que está escondido no id. Durante o tratamento nosso trabalho terapêutico oscila entre um fragmento de análise do id e outro de análise do ego. Num caso desejamos tornar consciente algo do id; noutro queremos corrigir algo no ego. No tratamento, os mecanismos defensivos contra um perigo anterior reaparecem como resistências contra o restabelecimento, que é tratado como um novo perigo. O efeito terapêutico depende de tornar consciente o que está reprimido no id. Para isso fazemos interpretações e construções, mas interpretamos apenas para nós, não para o paciente, enquanto o ego se apegar às defesas e não abandonar as resistências. Essas resistências, pertencentes ao ego, mas [são] inconscientes e isoladas dentro dele e mais fáceis de identificar do que o material oculto no id. Poder-se-ia supor que seria suficiente tratá-las como partes do id e, tornando-as conscientes, colocá-las em conexão com o restante do ego. Dessa maneira metade da tarefa da análise estaria realizada. Não deveríamos contar com enfrentar uma resistência contra a revelação das resistências mas é isso que acontece. Durante o trabalho sobre as resistências o ego se retrai do acordo em que a situação analítica se baseia, desobedece a regra fundamental da análise e não permite que surjam novos derivados do reprimido. Não podemos esperar que o paciente possua uma forte convicção do poder curativo da análise e embora ele possa ter trazido consigo uma certa confiança [inicial] em seu analista, que será fortalecida pela transferência positiva, os impulsos de desprazer que sente em vista da ativação de seus conflitos defensivos, geram as transferências negativas e podem levar a melhor e anular a situação analítica. O paciente passa a encarar o analista como um estranho e a comportar-se para com ele como uma criança que não gosta de estranho. Se o analista tentar explicar as deformações efetuadas pelo paciente em seu ego, para fins de defesa, o encontrará não compreensivo e inacessível, mesmo para argumentos bem fundamentados. Percebemos que há resistência contra a revelação das resistências e que os mecanismos defensivos merecem a denominação que lhes demos. Constituem resistências à conscientização dos conteúdos do id, mas também à análise e ao restabelecimento.

O efeito ocasionado pelas defesas pode ser descrito como uma ‘alteração do ego’ e o resultado de um tratamento analítico depende da profundidade dessas alterações. [Mais uma vez] temos ai a importância do fator quantitativo. A análise só pode valer-se de quantidades definidas e limitadas de energia que têm de ser medidas contra as forças hostis.

VI

[Como dissemos,] a alteração do ego é adquirida nos primeiros anos de vida, mas ele tem [também] características inatas, [como é] atestado pelo fato de que cada pessoa sempre utiliza as mesmas defesas. Isso parece indicar que o ego está dotado com disposições individuais, embora não possamos especificar o que as determina. Contudo, não devemos exagerar a diferença entre o herdado e o adquirido. O que foi adquirido no passado [remoto] forma parte importante do que herdamos. As peculiaridades psicológicas de famílias, raças e nações não têm outra explicação [se não esta]. Mais que isso, a experiência analítica mostra que até os simbolismos são herdados e pesquisas antropológicas evidenciam que mesmo os precipitados do desenvolvimento humano [também] o são. Quando falamos de ‘herança arcaica’ [geralmente] pensamos apenas no id e presumimos que no começo da vida do indivíduo ainda não existe ego, mas não devemos desprezar o fato de que id e ego são originalmente uma única e mesma coisa. [Na concepção freudiana o ego não é senão uma diferenciação do id em sua relação com a realidade].

Como as resistências podem ser determinadas pela herança ou adquiridas nas lutas defensivas, a distinção topográfica entre o ego e o id perde muito de sua importância. Se avançarmos um pouco mais, nos depararemos com outro tipo de resistências que não podemos localizar e que parecem depender de condições fundantes do aparelho mental. Como o campo ainda é inexplorado, só posso fornecer alguns exemplos. Há pessoas com uma grande ‘adesividade da libido’ e o tratamento nelas é mais lento do que em outras porque elas não conseguem [facilmente] desligar as catexias de determinados objetos e deslocá-las para outro. Também existe o tipo oposto, em que a libido é muito móvel. A diferença entre os dois tipos é comparável à de um escultor que trabalha com pedra dura e a de outro que manipula o gesso macio. Nesse segundo tipo os resultados da análise mostram-se inconstantes: as catexias são [facilmente] abandonadas e temos a impressão de ter escrito na água, não em gesso.

Noutros casos, ficamos surpresos com a atitude de pacientes a que atribuímos a um esgotamento da plasticidade; uma espécie de inércia psíquica. Quando o trabalho da análise abre novos caminhos, observamos que o impulso tem dificuldades de ingressar neles. A esse comportamento chamamos de ‘resistências do id.’ Com tais pacientes os processos mentais são fixos, imutáveis e rígidos. Isso [normalmente] acontece em pessoas de idade, mas aqui estamos tratando com pessoas [ainda] jovens. Nosso conhecimento não fornece uma explicação de tais tipos. Provavelmente [essas resistências] são relacionadas com características temporais que ainda não apreciamos.

Em outros casos certas características do ego devem ser tidas como fontes de resistências, podendo originar-se de camadas mais profundas: o comportamento dos dois instintos primevos [de vida e de morte], sua distribuição, mistura e desfusão. Nenhuma impressão das resistências é mais forte do que a de existir uma força que se defende contra o restabelecimento. Parte dessa força é [constituída pelo] sentimento de culpa e necessidade de punição, mas essa é apenas a parte ligada ao superego. Outras cotas [de energia psíquica], quer presas, quer livres, podem estar em ação em outros lugares. Se levarmos em conta o fenômeno do masoquismo, da reação terapêutica negativa e do sentimento de culpa, não podemos mais acreditar que os eventos mentais são governados só pelo desejo de prazer mas esses fenômenos constituem indicações da presença do poder que chamamos de agressividade, que remontamos ao instinto de morte. Não se trata de antítese entre uma teoria pessimista e outra otimista. Somente pela ação concorrente dos dois instintos — Eros e instinto de morte — [é que] podemos explicar os fenômenos da vida.

Como partes dos dois instintos se combinam para desempenhar as funções vitais, o problema de a que distúrbios essas mudanças correspondem e com que sensações o princípio do prazer responde a elas são problemas cuja elucidação seria gratificante para a pesquisa psicológica, mas ate o momento nossos esforços redundaram em nada. Mesmo exercer alguma influência sobre o masoquismo é um ônus muito severo para nossos poderes.

Ao estudar o instinto destrutivo não nos restringimos à patologia mas fatos da vida normal também comportam explicações desse tipo. O assunto [ainda] é novo, mas importante demais para que se o trate [apenas] como um tema lateral.

Aqui temos um exemplo: em todos os períodos houve pessoas que tiveram como objetos sexuais, membros do próprio sexo e do sexo oposto, sem que uma das inclinações interfira na outra. Todo ser humano é bissexual no sentido de que sua libido se distribui, de maneira manifesta ou latente, por objetos de ambos os sexos. Mas enquanto que na primeira classe de pessoas [aquelas em que a libido está dirigida a pessoas do mesmo sexo] as duas tendências prosseguem juntas, na segunda [aquelas em que a libido está dirigida a pessoas do sexo oposto] elas encontram-se em conflito. A heterossexualidade não combina com nenhum grau de homossexualidade e vice-versa. Se a primeira é a mais forte ela mantém a segunda latente e a afasta da realidade. Por outro lado, não existe maior perigo para a função heterossexual do que o de ser perturbada pela homossexualidade latente. Poderíamos tentar explicar isso dizendo que cada pessoa só possui à [sua] disposição uma certa cota de libido, pela qual as duas inclinações têm de lutar. Mas não é claro por que elas nem sempre dividem essa cota entre si já que podem fazer isso em certos casos.

Se reconhecermos esse caso como manifestação do instinto destrutivo, surge a questão de saber se essa visão não deve ser estendida a outros conflitos e de saber se o que conhecemos sobre o conflito não deveria ser revisto a partir desse novo ângulo. Afinal, presumimos que no decurso do desenvolvimento de um estado primitivo para um civilizado a agressividade experimenta um grau considerável de internalização. Se assim for, os conflitos internos são o equivalente das lutas internas que cessaram. Estou cônscio de que a teoria dualista – instinto de morte e libido -, encontrou pouca simpatia e não foi bem aceita. Fiquei satisfeito quando me deparei com idêntica teoria nos escritos de um dos maiores pensadores da Grécia antiga. Nunca pude ter certeza se aquilo que tomei por uma criação não constituía um efeito da criptomnésia.

Empédocles, (cerca de 495 a.C.) foi uma das maiores figuras da civilização grega. Nascido numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas de suas teorias foram, deveras, impressionantes. Explicava as coisas pela mistura terra-ar-fogo-água, sustentava que a natureza era animada e acreditava na transmigração das almas. Também [já] incluía no seu conhecimento, idéias modernas como a evolução dos seres vivos, a sobrevivência dos mais aptos e o papel do acaso na evolução.

Mas há uma teoria de Empédocles que se aproxima tanto da nossa teoria dos instintos, que pareceriam idênticas, não fosse pelo fato de a teoria do filósofo grego ser uma fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar validade biológica.

O filósofo ensinou que os eventos no universo são dirigidos por dois princípios e que na mente e que eles estão sempre em guerra um com o outro. Chamou-os de amor e discórdia e deles disse que são ‘forças naturais que operam como instintos e de maneira alguma inteligências com um intuito consciente’. Um deles esforça-se por aglomerar partículas dos quatro elementos numa unidade, ao passo que o outro, procura desfazer essas fusões. Empédocles imaginou o universo como alternância de períodos, em que uma ou outra das forças leva vantagens.

Os dois princípios de Empédocles são os mesmos que Eros e destrutividade. Mas em seu ressurgir, essa teoria se alterou em algumas características. Não mais temos como substâncias básicas os quatro elementos: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que não é e demos um fundamento ao princípio de ‘discórdia’, remontando-o ao instinto de morte. Ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo a verdade contida na teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posterior.

VII

Em 1927 Ferenczi escreveu um artigo sobre o término das análises. Ele garantiu que ‘a análise não é um processo sem fim, mas um processo que pode receber um fim natural, com perícia e paciência suficientes por parte do analista’. O artigo, contudo, parece-me ser uma advertência para que não se visasse abreviar a análise, mas a aprofundá-la. Ele demonstra ainda o fato de que o êxito depende de o analista ter aprendido com seus próprios ‘erros e equívocos’ e de ter superado ‘os pontos fracos de sua própria personalidade’. Isso fornece um suplemento ao nosso tema porque entre os fatores que influenciam o tratamento analítico deve-se levar em conta, também, a individualidade do analista.

Não se pode negar que os analistas nem sempre estiveram à altura do padrão que querem para os pacientes. Os opositores da análise quase sempre apontam esse fato para demonstrar a inutilidade dos esforços analíticos, mas podemos rejeitar essa crítica alegando que ela faz [aos analistas,] exigências injustificáveis. Os analistas são seres humanos como quaisquer outros e afinal, ninguém sustenta que um médico é incapaz de tratar doenças se ele próprio não for sadio. Ao contrário, pode-se até argumentar que há certas vantagens no fato de um homem que foi ameaçado pela tuberculose se especializar no tratamento de pessoas que sofrem dessa doença. Os casos, porém, não são idênticos: um médico que sofre de doença dos pulmões ou do coração não está em desvantagem para tratar queixas internas, ao passo que o trabalho analítico faz com que os defeitos do analista interfiram na avaliação correta do paciente. É, portanto, razoável esperar de um analista um considerável grau de normalidade. Além disso, ele deve possuir algum tipo de superioridade, de maneira que, em certas situações, possa agir como modelo para seu paciente e, em outras, como professor. E, finalmente, não devemos esquecer que a relação analítica baseia-se no amor à verdade e que isso exclui qualquer tipo de impostura ou engano.

O analista conta com nossa simpatia nas exigências rigorosas a que tem de atender no desempenho de suas atividades. É como se a análise fosse a terceira daquelas profissões ‘impossíveis’, quanto às quais se pode estar seguro de chegar a resultados insatisfatórios. [As outras duas “profissões impossíveis” seriam governar e educar.] Não podemos exigir que o analista em perspectiva seja um ser perfeito antes que passe por uma análise ou que somente pessoas de alta perfeição ingressem na profissão. Mas onde e como pode adquirir as qualificações de que necessitará em sua profissão? A resposta é: na própria análise, com a qual deve começar sua preparação para a futura atividade. Essa análise tem de ser breve e incompleta. Seu objetivo é possibilitar ao professor julgar se o candidato pode ser aceito para formação. Se fornecer ao candidato a analista uma convicção firme da existência do inconsciente, se o capacitar a perceber em si coisas que seriam inacreditáveis para ele e se lhe mostrar um primeiro exemplo da técnica que provou ser a única eficaz no trabalho analítico, essa análise terá cumprido seu intuito. Só isso não bastaria, mas contamos com que a sua análise não cesse quando termina, que os processos de remodelamento do ego prossigam e que faça uso das experiências subseqüentes nesse recém-adquirido sentido. [O Analista ideal talvez seja aquele moderadamente neurótico que tenha sido melhorado por sua análise pessoal. Dificilmente algo mais poderia produzir nele uma maior convicção sobre as virtudes da prática que iniciará]. Isso de fato acontece e qualifica o indivíduo analisado para ser analista. Infelizmente, algo mais acontece também. A hostilidade e o partidarismo originam uma atmosfera desfavorável à investigação objetiva. Certo número de analistas aprende a usar mecanismos defensivos que lhes permitem desviar de si próprios as exigências da análise, dirigindo-as para outras pessoas, de maneira que permanecem como são e afastam-se da influência crítica e corretiva da análise. [É por isso que muitas pessoas se tornam analistas como maneira de procurar análise para si próprias]. Somos levados a traçar uma analogia com o efeito dos raios X nas pessoas que os manejam sem tomar precauções. Uma ocupação constante com material reprimido desperta exigências instintuais suprimidas, no analista. São ‘perigos da análise’, que ameaçam o parceiro ativo da situação [,isto é, o analista]. Todo analista deveria, com intervalos de aproximadamente cinco anos, submeter-se mais uma vez à análise. Não seria apenas a análise dos pacientes, mas sua própria análise que se transformaria de terminável em interminável.

Não pretendo afirmar que a análise é um assunto sem fim. O término de uma análise é uma questão prática. Todo analista conhece casos em que deu a seu paciente um adeus definitivo. Naquilo que é conhecido como análise de caráter há menor discrepância entre teoria e prática. Aqui não é fácil prever um fim natural, ainda que se evitem expectativas exageradas e não se estabeleçam tarefas excessivas. Nosso objetivo não é dissipar todas as peculiaridades do caráter humano em benefício de uma ‘normalidade’ esquemática, nem exigir que a pessoa que tenha sido ‘completamente analisada’ deixe de sentir paixões nem desenvolva conflitos. A missão da análise é garantir as melhores condições psicológicas possíveis para as funções do ego. Com isso, ela se desincumbe de sua tarefa.

VIII

Em análises terapêuticas e em análises de caráter observamos que há dois temas que têm preeminência e vêm a dar muito trabalho, ambos ligados à distinção entre os sexos. Um deles é característico dos homens, o outro, das mulheres.

Os dois temas são, na mulher, a inveja do pênis e, no homem, a luta contra uma atitude passiva ou feminina para com outro homem. O que é comum nos dois temas é um complexo de castração. Alfred Adler usou o termo ‘protesto masculino’ [que parece] ajustar-se perfeitamente aos homens. No entanto, ‘repúdio da feminilidade’ teria sido a descrição correta dessa característica psíquica dos seres humanos.

Esse fator não ocupa a mesma posição em ambos os sexos. Nos homens, o esforço por ser masculino é egossintônico e a atitude passiva é energicamente reprimida e amiúde sua presença só é indicada por supercompensações. Nas mulheres, também, o esforço por serem masculinas é egossintônico na fase fálica. Depois, porém, ele sucumbe à repressão cujo desfecho determina a sorte da feminilidade da mulher. Muita coisa depende de que partes de seu complexo de masculinidade escape à repressão e influencie seu caráter. Normalmente, grandes partes dele se transformam e contribuem para a construção de sua feminilidade. O desejo de um pênis destina-se a ser convertido no desejo de um bebê e de um marido, que possui um pênis. Mas o desejo de masculinidade pode ter sido retido no inconsciente e, a partir de lá, exercer uma influência perturbadora.

Em ambos os casos a atitude própria ao sexo oposto que sucumbiu à repressão. Foi W. Fliess que chamou minha atenção para esse ponto. Ele encarava a antítese entre os sexos como a verdadeira causa da repressão. Estou apenas repetindo o que disse antes ao discordar de sua opinião, quando declino de sexualizar a repressão dessa maneira — isto é, explicá-la em fundamentos biológicos, em vez de puramente psicológicos.

Ferenczi, em 1927, transformou em requisito que em toda análise esses dois complexos tivessem que ser dominados. Acho que ele estava pedindo muito. Estamos ‘pregando ao vento’ se tentamos persuadir uma mulher a abandonar seu desejo de um pênis ou quando procuramos convencer um homem de que a atitude passiva para com homens nem sempre significa castração e que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida. A supercompensação do homem produz uma das mais fortes resistências transferenciais. Ele se recusa a submeter-se a um substituto paterno e consequentemente se recusa a aceitar do médico seu restabelecimento. Nenhuma transferência análoga surge do desejo da mulher por um pênis, mas esse desejo é fonte de irrupções de grave depressão nela, devido à convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que nada pode ser feito para ajudá-la. E só concordaremos com ela quando aprendemos que seu mais forte motivo para buscar tratamento foi a esperança de que ainda poderia obter um órgão masculino.

Aprendemos com isso que não é importante sob que forma a resistência aparece, seja como transferência ou não. O decisivo é que a resistência impede a ocorrência de qualquer mudança. Às vezes temos a impressão de que o desejo de um pênis penetrou através de todos os estratos psicológicos e alcançou o fundo e que, assim, nossas atividades encontram um fim. Isso é verdadeiro, já que, para o campo psíquico, o campo biológico desempenha realmente o papel de fundo subjacente. O repúdio da feminilidade pode ser um fato biológico, uma parte do grande enigma do sexo. Seria difícil dizer se e quando conseguimos êxito em dominar esse fator num tratamento analítico. Só podemos consolar-nos com a certeza de que demos à pessoa analisada todo incentivo possível para reexaminar e alterar sua atitude para com ele.

Fonte: texto disponível e publicado pelo site: SOCIEDADE PSICANALÍTICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (Sociedade Científica de Psicanálise Insight) http://www.sociedadepsicanalitica.org/scpci/index.php?option=com_content&view=article&id=62:analiseterminalinterminavel&catid=38:artigos&Itemid=68

 

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