November 17, 2017

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Amor primitivo, amor verdadeiro

Amor primitivo, amor verdadeiro

 (…) Ao pensar em formas de amor, capacidade de amar e sentimentos de amor primitivo/verdadeiro, utilizo a noção de vértices ou perspectivas e cesura. Um vértice aparece, outro desaparece e vice-versa. Bion (1965/2001) usa o termo “vértice” como contraponto mental dos sentidos, observando que o prefere a “ponto de vista”, pois este está comprometido com o sentido da visão.

Denomino verdadeiro ao amor estabelecido na relação com algo existente fora do self, relativamente independente deste. Denomino primitivo ao amor relacionado a algo que é uma posse do self, indiscriminado deste, ao com memória e desejo, ao registro feito pelos sentidos (Grotstein, 2000). Penso que passamos de um estado mental a outro sem perder a continuidade. Talvez não ocorra a transformação de um estado mental em outro, mas estar no primitivo e logo estar no verdadeiro, podendo a qualquer momento mudar novamente de estado dependendo do grau de estabilidade da personalidade. Por isso o pensamento psicanalítico bioniano a respeito do que seja estarmos em diferentes vértices ou perspectivas, juntamente com a noção de cesura, que implica continuidade (Bion, 1977/1982). O que é coerente com a noção de Winnicott (1945/2000a) de que, após o concern, há uma dissociação a separar amor primitivo de verdadeiro, há uma cesura e uma continuidade separando os vértices.

Em nosso viver finito, quando nos apaixonamos, nós nos situamos naquele momento do amor em que nos sentíamos um com nossa mãe, preenchidos pelo sentimento cósmico do amor infinito. A beleza nos inunda, sua força nos preenche, e talvez por isso cada um de nós queira sempre voltar àquele momento primordial quando não amávamos, mas éramos amor. Porém, quando conseguimos desenvolver a capacidade de amar, passando por longo processo de crescimento de outras tantas capacidades mentais, somos amor e capazes de amar então. 

Haverá diferença entre os seres humanos: sermos amor é comum a todos, porém as capacidades de amar diferem muito. Quando capacitados a amar, conseguimos estabelecer relações que geram amor na natureza viva que nos cerca. Como esses sentimentos se dão numa relação, torna-se implícito que somos correspondidos de forma suficiente tanto no mundo interno quanto no externo. Penso que, dentro desse estado mental, já não importa especificamente eu ou o outro, mas que o mundo exista em harmonia, mesmo quando não tem a ver diretamente comigo. Até porque, sendo parte das coisas do mundo, estarei indiretamente participando dessa harmonia. No envelhecimento e na aproximação da morte, muito nos ajudará essa capacidade de amar. Tranqüiliza-nos poder pensar que, após a nossa morte, o mundo que amamos continuará a existir. E mesmo pensar que ele é eterno, embora o tempo inexista na eternidade; para pensar assim, teríamos de abandonar o pensamento racional, do limite da física convencional, e entrar no místico. É aqui que Bion tenta ir além, com a noção da diferença entre realidade psíquica e realidade última, ingressando na chamada fase estética ou mística para alguns. 

O amor consegue ser simples quando o sentimos e complexo ao tentarmos descrevê-lo. Ele envolve a dependência e a possibilidade da perda. Tanto nos apanha em seus braços fortes e nos carrega rumo ao encantamento, como nos permite o contato com intensos sofrimentos. Sylvia e Rosa nos mostram essa força poderosa em diferentes espaços: presa na fusão self/objeto, primitivamente escravizada, ou livre, fluindo e conectada à realidade última. 

No dia-a-dia em nossos consultórios, vivemos a cada instante, com cada paciente, essas formas de amar. Nossa capacidade de analistas é muito solicitada por aqueles que nos procuram, conforme referi, enredados por suas formas de amar nas malhas criadas em seus mundos interno e externo. Considerando somente essas formas de amar, que é o propósito deste trabalho, a forma primitiva será a geradora da necessidade de tratamento. Quando a capacidade de amar estiver suficientemente desenvolvida, dá-se o momento da separação definitiva, se a relação alcançar esse nível evolutivo. À semelhança do que nos mostra o filme – o final do relacionamento real, com a morte de Ramón e a forma como Rosa o recriou dentro de si – quando o paciente não mais compartilhar sua vida com o analista, ali termina a análise. Ambos, analista e paciente, aceitam que o relacionamento não mais existirá na dimensão real de suas vidas. E começa aí o desdobramento num processo interminável. 

Porém, no tempo real quando os encontros se sucedem, há o derradeiro momento, com as últimas palavras e o último olhar. Depois, o que foi vivido nessa dimensão externa desprende-se e retorna ao interno – lugar de onde aflorara sob forma de ilusões –, carregando a realização, riqueza real conquistada nesse percurso. Muitas viagens dessas geram uma bagagem grande de amor. Quando partes nossas mergulham em outra dimensão, desaparecem para os nossos sentidos. Em nossa existência real, há o que pode ser captado pelos sentidos. E isso que veio e se foi? Isso se foi, desapareceu, deixando sua marca na palavra mistério (inconsciente?).

Acredito que, nos momentos mais analíticos de uma relação analítica, estamos debruçados nas margens do desconhecido, na realidade última, trazendo significados para a realidade psíquica. Esse é o trabalho por excelência da análise, mas não é o único, nem sempre o mais importante em dado momento. Precisamos também cuidar do que já é realidade psíquica e do mundo externo. Mas expandimos a mente somente a cada vez que a ela aportamos significados formados a partir da experiência emocional com o desconhecido (Bion, 1962/1997), o mais próximo possível de O.

Para finalizar, um pequeno trecho retirado de Memorias del futuro: El pasado hecho presente (Bion, 1968-1979/1991). Rosemary, mulher ferida e desiludida no amor, questiona P.A., personagem psicanalista, em suas idéias sobre esse sentimento. Através desse diálogo, vemos a diferença que Bion faz entre ser amor, coisa-em-si, “parte do ser”, e “algo que trata sobre o amor”:

Rosemary: Você é um preciosista no uso de um inglês correto. Como você define o amor?

P.A.: Não o defino. A palavra, tal como a ouvi aqui, está conjugada constantemente com várias características, frases, emoções e experiências, mas isso é somente uma parte da atividade verbal. O “amor”, na medida em que está relacionado com o passado, é um espectro de uma memória; e, em relação ao futuro, é uma esperança que molda sua sombra antecipadamente. A “coisa-em-si”…

Rosemary: Sim, eu já sabia que você chegaria a ela…

P. A.: Tenho que te desapontar. Como psicanalista, não posso aspirar a ter sucesso ali onde os Santos, os Filósofos e os Artistas de todo tipo não o tiveram.

Rosemary: Pode tentar… 

P.A.: Sei o que quer dizer, mas não é um terreno em que possa se aplicar o esforço. Sei que “não é dado aos mortais dominar o sucesso”, e isso pode ser certo para o Amor; mas este é parte do ser.

Rosemary: Acha que a humanidade o conseguirá algum dia?

P.A.: Não tem nada a ver com o Passado, o Presente ou o Futuro. O “amor” tem existido sempre, existe e existirá. Nem a psicanálise nem os sermões nem a pintura nem a música são o “amor”… São algo que trata “sobre” o amor (p. 452; tradução da autora).

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Este trecho faz parte das considerações finais no artigo Amor primitivo, amor verdadeiro de Alda Regina Dorneles Oliveira ( Psicanalista). O texto completo encontra-se disponível através deste link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0486-641X2007000400009&script=sci_arttext

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Psicanálise e Amor

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