October 20, 2017

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Amor, Morte e Ressurreição

Por: Cássio Vilela Prado

         Não há amor sem morte. A morte do ideal de completude.

    E isso é patente, corriqueiramente, na clínica da Psicologia, da Psicanálise e da Psiquiatria.

       Esperar que o outro seja objeto de completude, talvez seja a maior de todas as ilusões humanas. O outro escolhido e ao qual se venera e nele deposita-se os ideais de completude, jamais poderá completar quem quer que seja, posto ser também um ser incompleto, supostamente também a procura de sua completude imaginária. O outro é apenas um sujeito suposto amar e saber sobre o desejo de um outro, completamente faltoso também.

      Por mais que as relações humanas se assentem nesse solo imaginário, o que se vê é um grande engano. Não faltam sujeitos que se entregam à condição de objeto de uso e caprichos para um outro, percebe-se sempre resíduos de frustração constantes, tanto no sujeito que ativamente se utiliza do outro objeto quanto no sujeito passivo que é usado. Ambos, envolvidos nesse tipo de relação, utilizam-se um do outro, há uma espécie de cumplicidade sadomasoquista na qual os dois obtêm prazeres, cada qual de seu jeito.

      E isso é um fator determinante básico e elementar na formação dos casais, apesar de se verificar uma relação deteriorante e doentia relacional fetichista, pois os dois são sujeitos e objetos ao mesmo tempo. Além de uma suposta completude entre eles, há algo além do prazer em si mesmo. Há alguma coisa que transcende, ou melhor, que subjaz a esse encontro fatídico e não captável pela consciência. Trata-se de um gozo de ser, próximo a um acordo inconsciente de destruição recíproca, haja vista o vigor absoluto do uso objetal entre eles, às vezes até com a entrada de um terceiro elemento como testemunha ocular ou partícipe importante.

    Basta prestar um pouco mais de atenção para verificar que toda relação afetiva é estabelecida por uma disparidade de poder, umas mais, outras menos. São envolvimentos consentidos que se estabelecem, contratos subjetivamente assinados entre as partes onde é permitido o uso e abuso de um pelo outro. Uniões estáveis entre desejo de uso e uso do desejo do outro relacional.

    Casais que se utilizam das mais bizarras formas de sadismo e masoquismo, desde comportamentos sexuais violentos, regidos por sangue e humilhação, até pequenas e sutis desqualificações verbais ou veladas cotidianas.

      Entretanto, por mais que se subtraia prazer do outro, há um resto repetitivo que não se sacia e se mantém insaciável, por mais orgasmos que se possam ter. Há uma busca frenética por estados de êxtases e experiências orgásticas infindáveis. Todavia, o desejo não se realiza, pois a sua marca substancial é a falta. O seu verdadeiro objeto não é o outro assujeitado, terminantemente, mas tão somente a fantasia imaginária de completude.

         Neste sentido, amar é perceber que o “outro não me completa”. Nem pode. A completude imaginária através de suas fantasias é o princípio enganador do desejo humano, embora seja a base emocional de nossa civilização.

      Poder-se-á dizer, inclusive, que a procriação e a perpetuação do animal homem na Terra sejam fruto das fantasias dos desejos humanos, base equivocada do amor, mas tão bem utilizada pela natureza, diferente dos outros mamíferos e de todo o reino animal e vegetal.

      Talvez o amar seja perceber a indelével incompletude do desejo humano, atravessar as fantasias e assim deixar de depositar no outro a causa única de sua felicidade, pois o outro, pobre outro, também é tão furado e incompleto como qualquer um. Contudo é a partir dessa constatação que pode nascer o amor não objetal. O amor não tem garantia nenhuma do outro. Amar é não possuir o outro nem pertencer a um outro.

     Amar, assim, é não precisar do outro, mas elevá-lo à categoria de sujeito.

   Nesta direção, amar é a queda e a morte do outro com a sua subsequente ressurreição subjetiva não objetal.

    Caso contrário, o amor será apenas uma fantasia, portanto um engano real.

 

Cássio Vilela Prado- Especialista em Psicologia Clínica – CFP, Escritor Brumadinho (MG), 11/11/2016.

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Psicanálise e Amor

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