December 12, 2017

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Amor em tempos de cólera

Amor em tempos de cólera

Por Denise Deschamps 1

Refletir sobre os laços amorosos na contemporaneidade é algo pra lá de complexo. Sabemos o quanto às relações sociais vêm sofrendo em termos de mudança até mesmo de paradigmas. As inovações trazidas para os laços entre o masculino e feminino marcam, de certa maneira, o sentimento de solidão do qual muitos sujeitos se queixam.

Entendemos que os vínculos afetivos se constituem na “liga” que permeia todo fazer humano. Esses laços são, como diria o próprio Freud, nosso paraíso e ao mesmo tempo fonte do mais cruel dos sofrimentos. Chega a afirmar que: “O sofrimento oriundo dessa fonte é talvez o mais duro para nós do que qualquer outro”(Mal Estar na Cultura). A dor da perda do objeto de amor, daquele que em um entrelace entre realidade e projeção se torna o depositário do que J.D. Nasio irá nomear como o organizador das pulsões. “De fato, a ruptura de um laço amoroso provoca um estado de choque semelhante àquele desencadeado por uma violenta agressão física: a homeostase do sistema psíquico é rompida, e o princípio de prazer abolido”. (J.D. Nasio – A Dor de Amar) 

Frente a uma modernidade (ou pós-modernidade) onde a dor ganhou contornos de pecado, o amor tanto é a esperança como uma grande ameaça, algo que pode jogar o sujeito no mais temido pela organização social – o sofrimento. Permeiam então, e atravessam as relações, algo que apontará para o novo, como um descompromisso e uma relação sempre na superficialidade dos afetos ou remeterá ainda, à fuga pela aceitação de velhos paradigmas, e na manutenção de relações onde o vínculo afetivo se rompe e restam compromissos estéreis, ligados a uma velha ordem social em franco processo de mutação. Ante uma ou outra possibilidade, restará a esse sujeito a vivência de uma grande angústia e um esvaziamento afetivo e pulsional em relação a sua realidade e mundo externo. A dor, essa grande ameaça que acaba por montar um muro de indiferença que marcam as relações contemporâneas aponta como primeira premissa a ser evitada.

“Nunca estamos tão mal protegidos contra o sofrimento como quando amamos, nunca estamos tão irremediavelmente infelizes como quando perdemos a pessoa amada ou seu amor'(Freud). Acho essas frases notáveis porque elas dizem claramente o paradoxo incontornável do amor: mesmo sendo uma condição constitutiva da natureza humana, o amor é sempre a premissa insuperável dos nossos sofrimentos. Quanto mais se ama, mais se sofre”.(Nasio)

Constroem-se mil hipóteses para a solidão do homem moderno que, contraditoriamente a isso, constrói em tecnologia aparatos que falam todo tempo em relações em rede, conectividade, quebra do paradigma do individualismo para alguns pesquisadores. Fica parecendo um algo incompreensível e inapreensível. Esse homem é indiferente ou sofre? Está em relação mais do que nunca ou se isola cada vez mais? Avança no sentido de sofrer menos exigências morais da cultura ou se enclausura cada vez mais nelas? Questões e mais questões são levantadas quando pensamos nesse sujeito e suas relações de vínculo. A psicanálise do ser social ou aquela que dirige seu foco para as relações objetais, mais do que nunca é chamada a “falar”, a expor o latente em uma representação aceitável para os níveis de recalque operados pela cultura.

Se a tecnologia avança cada mais em seu poder de destrutividade, avançará também em suas possibilidades de união fraterna? Perguntas irrespondíveis, pelo menos por hora. Podemos supor que o embrião dessa união fraterna nasce ali do vínculo que une dois parceiros em busca desse amor, apoiados em suas matrizes que os remeterão ao seu primeiro objeto de amor, igual para ambos, suas mães ou quem exerceu essa função. Dizem que os novos tempos trazem atrelados modelos de união perversa, isso dito naquilo que ela tem de mais cruel, a perversidade como traço. Será mesmo que isso é o que se dá? Ou poderíamos pensar em toda uma proteção perversa em relação a dor que as relações fast-food podem provocar em nossa instável organização pulsional? Fusão e desfusão, Eros e Thanatus, na balança que movimenta o ato da vida. Por outro lado essa instabilidade aponta e remete para a possibilidade de relações criadas e mantidas apenas por fortes laços afetivos, onde normas sociais não serão mais a grande mortalha do amor. Esperança, tema que a psicanálise em alguns de seus setores tem voltado o seu olhar.

Talvez possamos pensar nos discursos erguidos contra as novas formas de amar como uma resistência à mudança que se opera irremediavelmente em nossos contornos sociais. Ergue-se então toda uma falácia religiosa em torno do tema, alguns setores atacam as novas constituições familiares em um claro movimento de retrocesso e resistência.

Mais uma vez o velho Freud nos ajuda a refletir em sua obra “O Futuro de Uma Ilusão”: “É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais certamente não foram”.

Isso talvez esteja atravessando e alimentando todo medo que hoje se ergue em torno desse amor de parceria, desse encontro amoroso entre dois seres. O luto que a sociedade insiste em ver como algo a ser evitado, algo que queima tanto a visão quanto queima olhar para nossa condição incontornável de sermos seres com uma finitude determinada desde o nascimento.

“O luto não é nada mais que uma lentíssima redistribuição da energia psíquica”(Nasio). Só poderemos nos entregar ao amor se pudermos lidar com a existência da perda, não como algo onde morremos, mas o próprio caminho que permeia a vida. O que existe em cada passo que damos.

Há um trecho interessante nessa obra de J.-D.Nasio citada, onde ele expõe a fala de um analisando frente a perda de sua mãe, talvez ela exemplifique muito bem o que abordamos aqui, diz:

“Uma parte dela está desesperadamente viva em mim, e uma parte de mim está sempre morta com ela”.

A possibilidade dessa cronificação da dor afasta qualquer possibilidade de investimento amoroso construtivo e prazeroso. O chão do amor e dos vínculos nos remete à própria construção freudiana, a toda a complexidade fusional, onde união e desintegração caminham sempre fusionados. Resiste o conceito de amor que quer banir a possibilidade de perda, a sociedade cultua frases como aquela terrível da obra que atravessou gerações “”O Pequeno Príncipe””, onde se lê: “”Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas””. Que terrível presságio!

Resta então a solidão da modernidade, o afastamento dos vínculos enquanto o caminho do amor e da construção fraterna. Seres solitários ou acompanhados padecem da capa da indiferença e do cinismo afetivo.

Volto a Freud em “O Futuro de Uma Ilusão”, para lançar uma luz de esperança para a modernidade das relações, sem o sentimentalismo deliróide do “amai ao próximo”, seja ele quem for; nessa passagem linda onde nos faz refletir: “Meu amor, para mim, é algo valioso, que eu não devo jogar fora sem reflexão. A máxima* me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado e disposto a efetuar sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela tem de merecer meu amor de alguma maneira. (Não estou levando em consideração o uso que dela posso fazer, nem sua possível significação para mim como objeto sexual…). Ela merecerá meu amor se for de tal modo semelhante a mim, em aspectos importantes, que eu me possa amar nela; merece-lo-á também, se for de tal modo mais perfeita do que eu, que nela possa amar meu ideal de meu próprio eu(self)”.

*diz respeito à máxima: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”

Que o amor de Eros seja valioso em sua capacidade de unir pelo laços afetivos de investimento, longo caminho que percorremos em busca da tal felicidade, seja ela aquela que fala de nossos egos individualizados, seja ela aquela que compõe o vasto tecido das relações sociais e da civilização.

Entre a solidão, o desamparo e os vínculos, que possamos construir relações amorosas e de resgate do conceito de Ideal do Ego, onde encontros e afinidades permeiem o que não é sublimável, naquilo que o encontro amoroso tem de sexual propriamente dito e que a partir desse encontro, possamos construir ideais que lancem o mundo na tal fraternidade que Freud aponta em seu texto “”Psicologia das Massas e Análise do Ego””.

“Solidão que nada…”

Olhar para o modernidade das relações em seus aspectos de progresso e em seus aspectos de resistência à mudança. Que nosso olhar não envelheça e que a psicanálise permaneça transgressora como o velho Freud sempre a sonhou. Que a solidão da qual falam muitos teóricos seja o caminho para construções afetivas mais saudáveis, um rito de passagem. Nascemos sós, e ao mesmo tempo, toda psicologia é em última instância, objetal e fala de relações de vínculos.

1Psicóloga com formação em Psicanálise, Sócio-Análise e Clínica Infantil – IBRAPSI/RJ; Formação em Psicoterapia de grupos- “Psicólogos Associados; Supervisora Clínica em Psicanálise. Co-autora do livro “Cinematerapia – Entendendo Conflitos”.

Texto originalmente publicado em http://www.apsicanalise.com/index.php/blog-psicanalise/48-artigos/341-amor-em-tempos-de-colera no dia 04/01/2016

 

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Psicanálise e Amor

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