January 16, 2018

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Afinal, o que quer uma mulher?

Afinal, o que quer uma mulher?

A Psicanálise surgiu a partir da clínica do feminino, foi com suas pacientes histéricas que Sigmund Freud começou a desenvolver toda a sua teoria. O que afinal quer uma mulher é uma questão que o levou a teorizar sobre o desejo feminino. Tentarei a esta pergunta, tomando-a, também, como minha, farei um recorrido sobre o tema a partir de Freud e Lacan.

Iniciarei pela fase pré-edípica, onde a mãe é o primeiro objeto de amor da criança, tanto para o menino quanto para a menina. Freud atribuía a essa fase, uma importância muito grande na vida das mulheres. Mas, nos coloca que algo precisa acontecer para que a menina abandone a mãe e escolha o pai como objeto de amor, ou seja, saia dessa fase e entre no complexo de Édipo.

A entrada da menina no complexo de Édipo se dá como conseqüência da comparação entre os sexos, quando a mesma percebe o pênis de um irmão, ou colega; sente isso como uma injustiça feita a ela e percebe-se como castrada, desta ocasião em diante torna-se vítima da inveja do pênis.

Sabemos a partir de Freud que uma característica da sexualidade infantil é a suposição que todos têm o falo. Quando a menina percebe a diferença anatômica entre os sexos e descobre-se castrada, isso a leva a abandonar a mãe como objeto de amor pelo fato dela responsabilizar sua mãe pela falta de pênis nela, por ter sido desse modo, colocada em desvantagem.
Seu afastamento da mãe não se dá de uma só vez, pois no início a menina considera a sua castração como um infortúnio individual, somente depois percebe que as outras mulheres também são castradas, assim como sua mãe. Com a descoberta que a mãe é castrada torna-se possível abandoná-la como objeto, porque seu amor estava dirigido a sua mãe fálica. (Freud, 1933, p 126).

A vida sexual da menina é regularmente dividida em duas fases, a primeira possui um caráter masculino, ao passo que apenas a segunda é especificamente feminina. Isto devido ao clitóris se comportar como um pênis. Sendo assim, a menina precisa fazer a passagem do clitóris para a vagina, para atingir a feminilidade.

O abandono do clitóris enquanto zona erógena e da mãe enquanto objeto amoroso são derivados da inveja do pênis e constituem as duas condições necessárias, segundo Freud, para a constituição da verdadeira feminilidade. O papel da inveja do pênis é fundamental para se compreender a sexualidade feminina.

O afastamento da mãe constitui um passo extremamente importante para o desenvolvimento de uma menina. Com o afastamento da mãe a masturbação clitoriana, não raro cessa também, e com bastante freqüência quando a menina reprime sua masculinidade prévia. A transição agora para o objeto paterno é realizada por tendências passivas, o que abre o caminho para o desenvolvimento da feminilidade. (Freud 1931, p 247)

Segundo Freud, a partir do momento em que a menina se descobre como castrada, partem três linhas de desenvolvimentos possíveis: a primeira conduz a inibição sexual ou a neurose, a segunda, modifica o caráter no sentido do complexo de masculinidade e o terceiro seria a feminilidade normal. (Freud 1933, p 126).

Somente se o desenvolvimento da menina seguir o terceiro caminho, é que ela atingirá a atitude feminina normal, indo buscar no pai o pênis que a mãe não lhe deu, ou o seu equivalente simbólico, o filho.

A menina precisa então se separar de sua mãe e passar pelo pai para se tornar mulher. O desejo que a leva a voltar-se para o pai, seria o desejo de possuir um pênis (falo), que a mãe lhe recusou e que agora espera obter de seu pai. No entanto a situação feminina só se estabelece se o desejo de obter um pênis for substituído pelo desejo de um bebê , isto é, se um bebê assume o lugar de pênis. A maternidade para Freud seria então uma forma de se conseguir o falo, através da substituição do pênis pelo bebê.

Podemos pensar, então, que para Freud a solução da feminilidade estaria dada pela via da maternidade, porque através do filho ela poderia tornar-se completa, anulando assim a sua castração, mas de qualquer modo, era uma saída via falocentrismo. Porém mesmo Freud no final da sua obra se dá conta de que isso não é suficiente para responder os mistérios do enigma da feminilidade e assim conclui que a referência ao falo não esgota a questão da feminilidade.
Para Lacan, não é via Édipo que se entende a mulher, ele formaliza uma saída além do Édipo. A maternidade não seria uma saída para as mulheres, porque o filho é substituto do falo, e essa seria também uma saída fálica.

“O Édipo produz o homem, mas não produz a mulher” (Soler, 2005, p 17), porque do lado masculino, um menino pode assumir um traço de identificação, com aquele que ele supõe possuir o falo, ou seja, seu pai. O pai deixa uma marca, uma identificação viril, o menino encontra via Édipo uma identificação, o falo, já a menina sai do Édipo sem essa identificação. Lacan, no Seminário 20, Mais Ainda, coloca que a mulher não possui um significante que a nomeie. Falta um significante que daria conta do sexo feminino.

Tudo o que uma mãe pode transmitir para sua filha, enquanto traço simbólico suporte da identificação é o falo. A falta da mãe com relação à filha deve ser então vista como uma dupla falta, a falta do significante de uma identidade feminina, e a falta do falo.
A menina vai buscar algo que venha dar conta do significante da feminilidade, porque a identificação masculina não vai dizer a ela o que é uma mulher, e o pai, só pode passar para seus filhos o significante falo.

Com efeito, a função do pai consiste em introduzir o sujeito na lei do falo, e se este significante do falo é insuficiente, por definição, para significar aquilo que seria a feminilidade propriamente dita, o resultado é que a significação induzida pela metáfora paterna fica sempre incompleta, insuficiente para atribuir a um sujeito seu lugar de mulher. A identificação fálica só faz sublinhar a exclusão do ser feminino da representação. (Serge André, 1998, p 181)

A falta é estrutural, tanto para o homem como para a mulher e a castração é para todos. O falo, significante da falta, efetivamente se presta para representar, além da diferença sexual, a falta-a-ser gerada pela linguagem para todo e qualquer sujeito. Mas, em relação à mulher podemos falar em uma dupla falta: ausência do órgão que simboliza o falo e a falta que é estrutural, gerada a partir de entrada na linguagem.

Mas, o falo é um significante que de certa forma dá conta de dizer o que é um homem, já para a mulher não existe um significante que diga o que é a mulher, não há significante que a represente.

Para Lacan o centro do desejo feminino não estaria no desejo pelo pai, mas sim nos efeitos da perda que instaura a falta, o que institui a mulher como não – toda (fálica). Quer dizer se para Freud a verdade do desejo feminino estaria ligada à relação da mulher com a lei do desejo, o que seria sempre presentificado pelo pai, e na qual ela poderia vir a ser toda, através de um filho, para Lacan, a verdade do desejo feminino, ao estar ligado ao real da estrutura, apontaria a causa do desejo, produzindo não uma possibilidade de completude, mas um outro gozo, diferente do gozo fálico. (Jorge Forbes (org), 1996 p 84).

Ainda, no Seminário 20, Lacan nos diz que a mulher tem que passar pelo falo, gozo fálico, mas passa também por um gozo além do falo. Teríamos então o duplo gozo da mulher. Cada mulher é pelo menos em parte determinada pela função fálica, se ela não passasse pelo falo seria a psicose.

O gozo fálico é um gozo localizado, limitado e fora do corpo, o homem está totalmente aprisionado a ele. O Outro gozo é o gozo do Outro, gozo suplementar, é um gozo que não cai sob a barra do significante, um gozo foracluido da linguagem e do simbólico, deste gozo nada se sabe.

Voltando a pergunta do meu trabalho: Afinal, o que quer uma mulher? É uma pergunta pelo lado da falta, como se algo, um objeto pudesse vir a satisfazer o desejo feminino e acabar com a sua demanda. Porém, esse objeto não existe, a satisfação é sempre parcial e nenhum sujeito tem como escapar da sua própria castração.

As mulheres têm que ser tomadas uma por uma. Para o homem existe um significante universal: o falo, mas para a mulher não existe um significante universal que caracterize A mulher, que diga o que é A mulher, sendo que A mulher com letra maiúscula não existe, o que existe é apenas a condição feminina.

A inexistência de um significante próprio pode promover na mulher um círculo vicioso de exigências, reinvidicações e decepções, ficando a mulher condenada a sempre querer recuperar o que acha que perdeu, ou o que não recebeu. Essa reivindicação fálica é uma tentativa de mascarar a falta e a impossibilidade de definição. Ou, dito de outro modo, é um não querer saber da sua própria castração, é uma forma de apego ao falo. Cria-se, então, uma demanda infinita, mais, mais, mais, ainda. Essa seria a posição histérica, já que a histérica situa-se dentro da lógica fálica.

Porém Lacan propõe que a feminilidade se situa em outro lugar e se define por uma não definição, não havendo nem mesmo um significante para a mulher. Nesse sentido qualquer tentativa de identificação feminina pela via do significante está fadada ao fracasso, pois será sempre um modo de tentar enquadrar no registro fálico, do lado masculino.
Enquanto a histérica tenta escapar da sua própria castração, numa procura infinita de objetos que venham preencher sua falta, satisfazê-la, a mulher aceita a sua castração e admiti o seu ser em falta.

Trata-se de uma renúncia à ilusão da existência de um objeto que venha completá-la. Como a mulher é não toda na lógica fálica, significa dizer que há uma carência de significante, uma falta de representação, um significante faltoso, essa seria a definição de mulher.

Assim, a saída para o Édipo na mulher não é encontrar uma solução identificatória, mas ao contrário se defrontar com a impossibilidade de definição, que é o que há de mais próprio do feminino.

 

Texto escrito por: Daniela Bittencourt – Psicóloga CRP 12/07184. Data : 5 de agosto de 2011

 

Origem: http://danielabittencourt.blogspot.com.br/2011/08/afinal-o-que-quer-uma-mulher_05.html

Referencias Bibliográficas:

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FINK, Bruce. O Sujeito Lacaniano: Entre a Linguagem e o Gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
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POMMIER, Gerard. A Exceção Feminina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, segunda edição, 1991.
SOLER, Colette. O que Lacan dizia das Mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

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