November 17, 2017

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A MULHER, O AMOR E A PSICANÁLISE

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A MULHER, O AMOR E A PSICANÁLISE

Eliane de Augustinis

Podemos iniciar esse estudo perguntando a nós mesmos qual o conceito que temos sobre o que é o feminino para nós. Talvez muitos respondam ser o conjunto de atributos físicos e culturais de uma pessoa, ou um conjunto de características emocionais. Não estaríamos errados do ponto de vista da consciência, mas ao trabalhar com o inconsciente a psicanálise atribui a cultura a função determinante quanto a essa definição.

Para Freud em Conseqüências psíquicas das diferenças anatômicas (ano), todo mundo nasce do lado masculino, porque a libido é masculina. Será pelo processo de identificações  com os homens ou com as mulheres que a pessoa irá reconhecer-se do sexo masculino ou feminino. Portanto, a primeira noção básica para se entender a questão da feminilidade no âmbito da psicanálise é entender que a diferença sexual não é nata ou biológica e sim um processo a ser alcançado através da cultura. É pelos conflitos ocorridos no que Freud denomina de Complexo de Édipo a escolha inconsciente quanto a um ou outro sexo.

Então, ao falarmos de feminilidade estaremos nos referindo a todas as pessoas  que escolheram uma identificação maior com tudo o que a psicanálise considera como feminino, independente das questões biológicas. O adoecimento neurótico portanto, passa pela dificuldade de se posicionar na partilha dos sexos, porque para isso é preciso passar pelo conflito edipiano aceitando a falta, ou seja, a falha na totalidade sexual. Não é possível sermos mulheres e homens ao mesmo tempo, é preciso perder uma coisa para escolher a outra. É a isso que Freud chamou de Complexo de Édipo.

Concluímos que ninguém nasce, para a psicanálise, homem ou mulher, mas torna-se. Independentemente do sexo anatômico ou da escolha de objeto sexual, o que conta é a posição subjetiva na qual está estruturado o pensamento. A linguagem como fenômeno de inserção do sujeito na cultura tem a função de conduzir à escolha inconsciente sexual.

Agora que sabemos que a diferença sexual é fruto de um desenvolvimento psíquico do sujeito na linguagem, poderemos partir para o estudo propriamente dito do que vem a ser o feminino. Esse assunto gera inúmeros debates porque como a libido é masculina não existe um registro inconsciente do que é feminino. O sexo feminino simplesmente não existe no inconsciente, bem como a morte, ou seja não há significantes que possam definir essas duas questões para o nosso inconsciente. Por isso o aforismo  Lacaniano que diz “A Mulher não existe”. Há uma grande dificuldade no entendimento desse conceito que é bem fácil se soubermos que a mulher da qual Lacan fala aqui está localizada nesse registro inconsciente do que seria um ser totalmente do lado feminino.

Esse ser na verdade não existe mesmo. Mesmo para expressar a nossa feminilidade precisamos estar também do lado masculino. Ser mãe, por exemplo, é uma tarefa super masculina para a psicanálise, porque é preciso muita libido, uma atuação muito grande dessa mulher para ter e criar um filho. Para uma pessoa do lado da escolha feminina ser reconhecida socialmente precisa representar essa feminilidade, criá-la, porque ela vem daquilo que está para além do inconsciente. Entendem agora porque Lacan também disse aquele outro aforismo famoso “a relação sexual não existe”? E não existe mesmo se considerarmos que um dos dois sexos não existe no nível inconsciente. E vocês me perguntariam: “por isso tanta briga entre os sexos?” exatamente! Nas nossas relações temos que lidar com algo do nosso psiquismo que simplesmente não existe e por isso precisará de representações para fazê-los existir.

Nisso repousa a batalha entre os casais porque parece que um não entende o outro nunca. E as mulheres, que possuem uma disposição maior para identificar-se com a feminilidade muitas vezes são chamadas de loucas e aí Lacan novamente surge com um terceiro aforismo enigmático “as mulheres não são todas-loucas”. Parece uma ironia mas não é. As mulheres percebem em sua maioria, e aqui estou tratando das pessoas anatomicamente do sexo feminino, algo de misterioso que habita nossa psique e é disso que ficam exasperadas para fazer seus companheiros entender. Homem é mais racional, dizemos, eles transam e dormem, mulher não, precisa discutir a relação. A própria relação sexual para a mulher abre a dimensão da sua feminilidade enigmática que vai para além do prazer do órgão físico. E aí as mulheres precisam falar, e como falam! Sim, porque precisam desse veículo libidinal para tentar explicar aquilo que as ultrapassa.

Essa relação da mulher com a loucura não foi uma coisa percebida recentemente, pelo contrário, foi Freud (1895) que ao escutar as mulheres internadas nos sanatórios franceses percebeu não serem loucas. Até então, os conceitos de mulher e de louca andavam lado a lado. Ao deixar as pacientes falarem de suas angústias e sintomas físicos percebeu tratar-se de algo que envolvia a sexualidade feminina e sua intensa necessidade de serem entendidas. Dessa forma se diz que quem inventou a psicanálise não foi Freud, um homem, e sim sua paciente Ana O. que disse a Freud para parar de tentar curá-la e deixá-la falar. Ana O. chamou de “limpeza de chaminé” a esse novo método de falar livremente sobre suas questões. Os sintomas físicos que acompanhavam a paciente desapareceram ao longo do tratamento. Os sintomas físicos para a psicanálise, aparecem muitas vezes como uma forma de manifestar aquilo que não elaborado simbolicamente pela pessoa.

Mulher não tem dificuldade de querer discutir o enorme vazio que as domina no término de uma relação ou o fato de se sentirem excluídas. São termos facilmente encontrados nos discursos femininos porque a mulher tem mais compreensão de que há uma falta com a qual, em momentos de grande angústia, se identificam. Os homens não, eles já se sentem mais completos em sua ilusão narcísica. Para eles sendo potentes fisicamente já lhes gratifica, pelo menos momentaneamente, porque estão mais atrelados a posição masculina lidando com sua libido de uma forma físiológica.

Para a mulher, o homem tem que falar que falar que a ama, porque isso mostra que nesse homem também há uma falta que o faz colocá-la nesse lugar do que lhe falta. Os homens acha isso esquisito porque para eles o prazer da relação física localiza sua sexualidade, para a mulher não, ela tem uma demanda de amor infinita, do tamanho daquilo que a ultrapassa da impossibilidade de explicação sobre o que é ser uma mulher.

A psicanalista Kleiniana, Joan Rivière, diz que as mulheres precisam representar sua feminilidade uma a uma, em sua singularidade e para isso utilizam de suas “mascaradas”. O que ela chama de “mascarada” feminina são seus enfeites apetrechos que dão essa evidência dos atributos femininos. Mulher usa sapatinhos, brinquinhos, tudo do mais delicado e encantador e encantam por isso. Esse é um aspecto da feminilidade contida nas mulheres ou nos homens de alma feminina. Sua feminilidade precisa ser apresentada ao outro e ser reconhecida como objeto de amor. Ser desejada para a mulher é algo importantíssimo porque o outro lhe diz o que ela é, dando-lhe uma representação sobre si mesma.

Em Psicologia da Vida Amorosa, Freud diz que as mulheres renunciam a encontrar O Homem com “h” maiúsculo e aceitam os homens comuns para preservar o seu lugar como sujeito, ou seja, o outro que as ama também precisa ter lá os seus defeitos, as suas falhas. O Homem idealizado e perfeito poderia ilusoriamente satisfazê-las em tudo mas eliminaria, com isso, o lugar de sua feminilidade marcado pelas suas faltas. Ou seja, em uma relação entre um homem e uma mulher é preciso que os dois possuam suas faltas para que desejem um ao outro. Um homem que tente satisfazer inteiramente sua mulher estará incorrendo em um grande erro porque ela sempre tentará provar-lhe o contrário, sua insatisfação. Adianta deixar a mulher gastar todo o cartão de crédito do marido? Não, pelo contrário, irá reafirmar para ela que não era isso que a satisfaria. Conclusão, o sujeito vai ficar ferrado e ela continuará se queixando que ele não a compreende.

O que um homem pode fazer para ter uma mulher é desejá-la e fazer dela seu objeto de amor, então ela poderá amá-lo pelo que ele não tem, porque se tivesse tudo não precisaria dela. Essa seria a lógica inconsciente de uma mulher não muito neurótica. Sim, porque a mulher que ainda não se definiu na partilha dos sexos, ou seja, aquela que ainda está fixada em seu conflito edipiano, não aceitará inconscientemente as suas próprias faltas e exigirá que o outro do amor a complete. Aí o pobre do marido será sempre considerado por ela como um “banana” e ela sempre estará iludida quanto ao Homem ideal que ela não tem.

Quando a mulher já se posicionou em sua feminilidade poderá suprir aquilo que não sabe sobre si mesma com seus encantos e enfeites, poderá seduzir e aceitar o homem que a deseja. Não é raro encontrarmos mulheres capazes das maiores seduções e quando os homens vêm rastejando elas os desprezam, sentem nojo ou os tratam como uma ameaça. Esse comportamento, tantas vezes descrito pelas pacientes na clínica, é próprio da mulher que quer que o outro diga o que é ser uma mulher para um homem sem poder, entretanto, aceitar o amor e desejo que traga para ela uma representação de si mesmas.

Mas ainda falta falar de um ponto que me parece imprescindível para a compreensão desse assunto, mesmo que aqui, tenha sido dada apenas uma pincelada da complexidade desse tema. Trata-se da razão psíquica que faz com que as pessoas que se identificam com a feminilidade sejam mais ávidas dessa compreensão de amor por parte do outro. Ao se identificarem, se identificam com quem? Com a mãe – e não com o pai – como acontece com aqueles que escolhem a masculinidade em suas identificações. A mulher quando tem um filho utiliza o filho, ou filha, como substituto daquilo que lhes falta, e portanto, imaginariamente tornam-se, por um período, completas. Esse mecanismo é necessário para que possam dar toda a atenção ao bebê e investi-lo com sua libido (que é masculina). Muitas vezes, isso é tão pacificador para as mulheres que ainda não fizeram uma escolha sexual inconsciente que acabam por negligenciar o marido e dedicar-se exclusivamente ao bebê por um tempo excedente. A mãe faz de seu filho o falo, exatamente porque é faltosa de algo e pode pôr a criança nesse lugar. No entanto, em algum momento é necessário que ela possa desligar-se da criança e a criança dela, é o processo que Freud chama de alienação-separação. As crianças que se identificam com a posição feminina logo percebem que falta alguma coisa que a mãe não pode lhes dar e que elas próprias não possuem. O próprio corpo da mulher, por não possuir o pênis como representante simbólico do falo, aponta para a falta de um objeto que as complete. A falta fica evidenciada de forma mais clara nessa relação bastante comum de acontecer entre mãe e filha que não conseguem desligar-se definitivamente e continuam mantendo uma relação de reivindicações e queixas. Chama-se a isso de “cola imaginária”.

Em seu texto “Sexualidade feminina” Freud diz que mais tarde, muitas vezes a mulher vem a se casar com um homem que possui características de seu pai, mas reproduz a relação de conflito estabelecida com sua mãe. Portanto, a imagem do corpo próprio é muito importante para as mulheres. Seu corpo reflete a imagem através da qual o outro poderá dar-lhe um significante que defina sua feminilidade. Então a questão da imagem do corpo torna-se uma grande questão para a mulher que diante do enigma de não saber quem ela é na partilha dos sexos, não consegue reconhecer-se como bonita ou feia, magra ou gorda sem o olhar do outro que lhe dê tal referência.

Tal questão, da imagem corporal é utilizada pela sociedade de consumo, como forma de aumentar os lucros comerciais. Instala-se um ideal de beleza que as mulheres passam a perseguir na tentativa de alcançarem uma significação para sua feminilidade. Como todos os ideais, a imagem idealizada pela sociedade é um mito levando a um alto grau de insatisfação por parte do público feminino e a uma busca frenética por alcançá-lo.A questão que está sempre encoberta é “pode o outro me amar?”.
Podemos dizer que tal desvario por formas perfeitas assemelha-se a um sintoma. Outros sintomas, ainda mais graves e devastadores podem surgir tal como a anorexia, a bulimia e a obesidade. Nesses casos, a questão da imagem envolve de forma mais clara a pulsão oral. Comer demais ou de menos se refere ao conflito estabelecido com a mãe. É ela que ao alimentar o bebê o libidiniza e continuar alimentando indefinidamente como se o filho não pudesse crescer e desligar-se dela pode levar a uma reação de recusa desse lugar fálico dado pela mãe. As mulheres, por saber mais facilmente que não podem ocupar tal lugar, falam, através da anorexia, por exemplo, sobre essa relação com a mãe que ao lhe dar demais, demanda demais de forma que a filha não se sinta em condições de corresponder ao desejo insaciável dessa mãe. A anorexia pode entrar como defesa a esse excesso de cuidados maternos ao dizer “não posso desejar nada, nem comida!”.

Comer em excesso, como nos casos de obesidade pode revelar uma dificuldade em poder desejar pelo fato de também estar sendo sufocado com a atenção materna. Com medo inconsciente de não estar suprindo a demanda insaciável de amor vinda dessa mãe por meio da alimentação a pessoa não para de comer porque se parar sente que está desagradando, que não é suficientemente capaz de corresponder à expectativa. A “falta” de comida provoca uma reação de angústia diante da percepção interna de que não é o complemento fálico que a mãe procura. Lacan adverte em seu texto “A direção do tratamento e os princípios do seu poder” que é na medida em que a criança é mais alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa a sua recusa como um desejo.

Pudemos nesse momento apenas delinear alguns temas bastante pertinentes ao entendimento sobre a feminilidade para a psicanálise. Tais questões são, entretanto, passíveis de infinitas reflexões e questionamentos. No entanto, o que a clínica nos mostra é que o aprofundamento dessas questões auxilia muitíssimo o terapeuta em suas intervenções. Não podemos nos esquecer entretanto, dos princípios fundamentais lançados por Freud advertindo que nunca podemos nos esquecer de que cada pessoa deve ser tratada em sua singularidade, como sujeito de seu discurso.

Eliane de Augustinis CRP 05 31983
Psicóloga e psicanalista,  Formada pela Universidade de Brasília, realizou sua pós-graduação em teoria e clínica psicanalítica pela PUC-RJ e posteriormente mestrado pela Universidade Veiga de Almeida com o tema “A tragédia e o percurso analítico” com orientação do professor e psicanalista Antônio Quinet.

Fonte: http://espacoterapeuticopsi.com/DetalhesSB.asp?Id=88&IdInformacao=227

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Psicanálise e Amor

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