January 16, 2018

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A MULHER E A SOLIDÃO

A MULHER E A SOLIDÃO: um olhar psicanalítico[1]

 ISLANIA NATANIELLY MENDES[2]
SAMARA SIQUEIRA DE ALENCAR
GLAUCINÉIA GOMES DE LIMA [3]

RESUMO

O objetivo do trabalho é compreender a solidão feminina, a partir da visão psicanalítica. O sentimento de solidão é algo que sempre esteve presente no âmbito social causando adoecimento psíquico e enfraquecendo as relações interpessoais. Falar sobre a solidão é discutir os laços sociais no mundo atual, é pensar as relações com o semelhante e os impasses da vida amorosa na vida de hoje. Utilizamos a pesquisa teórica.  Será discutida a realidade da mulher contemporânea e a solidão. E a posição feminina a partir da compreensão da psicanálise. Nesta pesquisa será abordado o comportamento de Gabrielle Chanel uma mulher à frente de seu tempo que rejeitou sua feminilidade, e incorporou uma postura masculina para superar a solidão e não enlouquecer pela dor de tantos abandonos que teve em sua infância primitiva. Chanel comandou um império sendo a mulher mais poderosa de sua época, seduziu o mundo sendo imitada e retratada por milhares, obteve dinheiro e glamour. Ela nunca casou ou teve filhos, pois foi incapaz de manter o seu ideal de eu ao seu lado. O sentimento de solidão a acompanhou até o fim de sua vida. Em sua velhice Chanel evidenciou que perdeu todos que amava e tudo que lhe restará foram vestidos e casacos. E que uma vida feliz era uma vida simples ao lado da pessoa que se ama.

 Palavras- chaves: Mulher contemporânea. Solidão. Fase pré-edípica. Complexo de Édipo. Castração. Inveja. Amor. Chanel.

 

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho discorre sobre a mulher e a solidão através da articulação teórica através da psicanálise. Mulheres independentes, autossuficientes e poderosas, estão sozinhas porque querem? Ou houve algo na sua estruturação psíquica que levou a buscar uma parceria solitária?

Em uma sociedade cada vez mais individualista, o outro se torna um objeto descartável sendo facilmente substituído. Neste contexto da modernidade, a mulher conquistou sua independência e autonomia, quase até dispensada que não precisava da figura masculina para ser mulher, casar ou ter filhos, e em alguns casos até crendo que poderia ser feliz sem precisar estabelecer laços sólidos com outras pessoas.

A solidão, sempre esteve presente no âmbito social, causando adoecimento psíquico e enfraquecendo as relações interpessoais. Falar sobre a solidão é discutir os laços sociais no mundo atual, é pensar as relações com o semelhante e os impasses da vida amorosa na vida de hoje.

A solidão, no mundo atual surge, como desamparo, abandono, falta de comunicação e interação, que se dá tanto pela falta do outro, como também, pela presença indiferente de alguém. O objetivo do trabalho é discutir a solidão em um trabalho teórico, baseado na pesquisa em teoria psicanalítica. E a discussão da solidão será articulada com a reflexão sobre a vida de Coco Chanel. Inicialmente, será discutida a mulher e a solidão, enfatizando o desenvolvimento psíquico e libidinal: o aparelho psíquico, desenvolvimento do ego, o narcisismo, sexualidade, a relação pré-edípica e o complexo de Édipo feminino. A seguir, será enfatizada a Solidão no mundo atual e a relação entre o sujeito feminino e o amor. Na terceira parte, será enfatizada e discutida a vida de Coco Chanel a partir do olhar psicanalítico.

 

2 A MULHER E A SOLIDÃO

A solidão se caracteriza pela ausência afetiva do outro, sensação de estar só. Mesmo estando próxima de várias pessoas, a solidão acontece pela falta de interação e comunicação emocional. A conquista da mulher pelos mesmos direitos dos homens, a autonomia financeira e emocional (um compromisso sem casamento), a possibilidade de família monoparental (mãe solteira) sem ser julgada por não possuir um sobrenome do “marido” fazem com que os homens tenham medo dessa posição de igualdade que a mulher obteve em relação a eles, pois pode haver um medo de se relacionarem com mulheres bem sucedidas e independentes. Quando veem uma mulher sozinha, acham que ela só sai com a finalidade de ser paqueradas e não apenas para se divertirem sozinhas (GOLÇALVES, 2009).

Há um velho ditado popular que diz que, para uma mulher ter um nome, precisava se casar. O destino da mulher era casar e ter filhos. Hoje não deixa de ser, pois quando se está namorando todos perguntam quando será o casamento, logo a próxima pergunta é quando terão um filho. Mas nem todas as mulheres pensam, assim, em viver função disso e preferem ir à busca de suas conquistas sozinhas. “As novas solteiras desfrutam independência, liberdade e autonomia, enquanto as casadas são subordinadas e dependentes” (GONÇALVES, 2009, p.212). Elas convivem com a solidão, mas não em um sentido de isolamento social e sim de um momento de estar num encontro com si mesma, e, por optarem não ter filhos ou casar, moram sozinhas.

A sociedade contemporânea ocidental possui uma importante característica, o individualismo que provém do capitalismo junto com a tecnologia. De acordo com Guedes e Assunção (2006), com os aparelhos tecnológicos, a casa torna-se uma “ilha”, possibilitando um contato à distância que favorece relacionamentos afetivo-amorosos pela internet, gerando longos períodos de solidão.

Na era do consumo, as pessoas compram não por desejo ou necessidade, mas por impulso, sendo possível verificar nas relações humanas uma insegurança muito grande. Os relacionamentos estão frágeis e por qualquer divergência na relação, os indivíduos terminam e ficam sempre nesta tentativa de encontrar alguém perfeito (RIBEIRO, 2012).

A opção pela solidão não está no fato de ter conquistado independência, poder, ou estabilidade financeira, é algo mais profundo que tem com a relação que esta, teve com sua mãe na fase de seu desenvolvimento psíquico e libidinal.

2.1 DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO E LIBIDINAL

Os processos patológicos da vida mental são compreendidos na divisão psíquica de consciente (cs) e inconsciente (ics). Uma ideia pode emergir ou não à consciência, o que vai manter este pensamento de modo inconsciente. O inconsciente surge a partir da repressão (recalcamento). O conteúdo latente é chamado de pré-consciente (pcs) não dinâmico e o conteúdo dinâmico reprimido é chamado de inconsciente (ics). A organização dos processos mentais é dada pelo ego, ele controla a descarga de excitação para o mundo externo e reprime tendências indevidas na mente. A parte pré-consciente do ego representa a razão, a outra parte inconsciente (ics) id contém as paixões que o ego tenta controlar. Quando o sujeito abandona seu objeto sexual o ego é modificado e tenta controlar os impulsos originados no id (FREUD, 1923/2006).

A libido é transformada em libido narcísica abandonando o objeto sexual e ocorre uma sublimação. As identificações do objeto de ego podem levar a uma ruptura gerando várias identificações, que se apoderam da consciência surgindo uma personalidade múltipla. A primeira escolha de objeto está relacionada com a mãe e o pai. A identificação da menina com a mãe resulta em um caráter feminino da criança, ao ter que abandonar seu objeto de amor (pai), a menina identifica-se com o objeto que foi perdido intensificando o caráter de masculinidade para se constituir como um ser forte (FREUD, 1932/2006).

O ego representa o mundo externo para a realidade e o superego representa o mundo interno do id, é o herdeiro do complexo de Édipo, quando o ego não domina o complexo de Édipo, os instintos do id criam um ideal de ego. Necke apud Freud (1914/ 2006) descreve o narcisismo como a atitude de uma pessoa que trata o seu corpo da mesma forma que trata o seu objeto sexual, acariciando-se até obter satisfação. Nesta perspectiva, o narcisismo é visto como perversão que se apoderou da vida sexual do sujeito.

Na observação psicanalítica de pessoas que sofre perturbações ou neuroses, foi descoberto que o narcisismo não era uma perversão, mas um complemento libidinal (FREUD, 1914/2006).

O narcisismo faz parte do desenvolvimento libidinal, ele surge após a fase do autoerotismo, no qual se estabelece o narcisismo primário, onde o ego identifica-se como o eu ideal da mãe, atingindo a completude. A partir do complexo de Édipo, a criança descobre que não é o centro das atenções da mãe e se identifica com um eu idealizado na tentativa de vivenciar novamente o narcisismo primário. No narcisismo secundário, a libido investida no objeto volta para o ego (FREUD, 1923/2006).

No autoerotismo ocorrem as primeiras satisfações sexuais com a finalidade de função de autopreservação, os instintos sexuais estão ligados ao ego, depois se separam, tornando-se independentes destes. A mãe é o primeiro objeto de amor da criança, pois é responsável por amamentar, proteger, e cuidar. Indivíduos que sofrem alguma perturbação no desenvolvimento libidinal como pervertidos e homossexuais, não tomam a mãe como objeto de amor, mais seu próprio eu, procurando em si o objeto amoroso (FREUD, 1914/2006).

A escolha de objeto se reflete em dois objetos a mãe ou ele mesmo (narcisismo primário). Nos meninos, surge uma supervalorização sexual que se origina no narcisismo infantil e é transferido para o objeto sexual, o ego fica empobrecido em relação à libido em favor do objeto amoroso. Na menina, isto não acontece no início de sua puberdade. O amadurecimento de seus órgãos sexuais intensificam o narcisismo original, desfavorecendo o desenvolvimento de uma verdadeira escolha de objeto e supervalorizando o sexual. Mulheres que são muito bonitas amam apenas a si mesmas, sua necessidade está em amar, mais do que ser amada (FREUD, 1914/2006).

Freud diz que mesmo para as mulheres narcisistas, cuja atitude para com os homens permanece fria, há um caminho que eleva ao amor objetal completo. Na criança que geram, uma parte do seu próprio corpo as confronta como um objeto estranho, ao qual, partindo de seu próprio narcisismo, podem então dar um amor objetal completo. (FREUD, 1914/2006, p.96).

As meninas também podem adotar uma postura masculina, não precisando de um filho para o desenvolvimento de seu narcisismo (secundário) e encontro do amor objetal, elas retém um anseio em um ideal masculino que outrora tiveram. Os instintos libidinais são reprimidos pelo ego. O indivíduo cria uma ideal em cima de si mesmo a partir da repressão e mediação com ego real. Freud postula que “este ego ideal é alvo de si mesmo (self love) desfrutado na infância pelo ego real” (FREUD, 1914/2006, p.100).

A ciência considerava as manifestações sexuais na criança como precoce e degenerativa. A Psicanálise em exames analíticos com adultos que estavam carregados de dúvidas e erros percebeu que a função sexual já estava presente após o nascimento. Com a análise direta no comportamento infantil esta nova visão foi confirmada (FREUD, 1922/1923/2006).

A criança apresenta vários traços daquilo que no adulto é visto como perversão. Freud postula que “Isto possibilita uma nova forma de aprender sobre a sexualidade infantil, perversa e normal. Como um todo único” (FREUD, 1922/1923/2006, p.261).

Freud (1905/2006) ratifica que a neurose é o negativo das perversões, e que a sexualidade humana apresenta-se de modo perverso-polimorfa das pulsões sexuais. Evidenciando a importância do caráter erógeno do corpo, discordava da ideologia da sexualidade e dos estudos sobre perversão da psiquiatria e medicina do século XIX, que postulava que a sexualidade do indivíduo só era desperta na puberdade, a partir da atração entre os opostos para fins de reprodução.

A partir da associação livre no contexto clinico, foi descoberto que os sintomas histéricos provinham de experiências traumáticas no início da vida sexual (FREUD 1922/1923/2006).

Freud afirma que: as neuroses em geral são expressões de distúrbios na vida sexual, e que as chamadas neuroses atuais são consequência (por interferência química) de danos contemporâneos e as psiconeuroses são consequência (por modificação psíquica) de danos passados causada a função biológica, que até então fora gravemente negligenciado pela ciência. Freud (1922/1923/2006, p.260).

A vida mental do indivíduo é composta por dois processos: dissolução e construção. Os instintos de dissolução são chamados de instinto de morte sua função é conduzir o sujeito há impulsos agressivos e destrutivos. Os instintos de construção são os libidinais (Eros) estes conduzem o indivíduo a uma evolução mais alta. Os instintos estão presentes desde o início da vida se manifestando por via de conflitos ou interações. Freud diz que “A morte significaria para o indivíduo a vitória dos instintos destrutivos, mas a reprodução representaria para ele a vitória de Eros” (FREUD, 1922/1923/2006, p.274).

A libido ou instinto sexual se constitui por instintos componentes que estão presentes em órgãos do corpo, mais especificamente em zona erógenas. Os instintos componentes no início obtém sua satisfação de forma individual um dos outros. Com o desenvolvimento, estes se tornam mais centralizados e convergentes (FREUD, 1922/1923/2006).

Inicialmente, o instinto oral encontra a satisfação do seu desejo no seio materno. Com o desenvolvimento, o seio materno deixa de ser objeto e o objeto de satisfação da criança passa a ser auto erótico (FREUD, 1922/1923/2006).

Freud diz que “Os instintos componentes começam sendo auto eróticos e na zona genital atravessam por um período de intensa satisfação, ao fim do desenvolvimento estes são desviados para um objeto externo” (FREUD, 1922/1923/2006, p. 262).

A primeira fase do desenvolvimento é a pré-genital e, de acordo com os interesses do bebê, a zona oral exerce a função principal. Nesta fase, a satisfação sexual ocorre através do chuchar com a incorporação do objeto, a criança pratica sua atividade sexual na alimentação. Com o tempo, há o abandono do seio materno e a criança volta o chuchar o seu próprio corpo. A segunda fase é a anal sádica, o instinto componente e a zona anal se elevam, e o prazer ocorre por via do controle anal e uretral. Nesta fase, o ativo e o passivo é o que representa a diferença dos sexos. Na terceira fase, ocorre o final da organização e os instintos componentes se encaminham para a as zonas genitais (FREUD, 1905/2006).

Ao final do desenvolvimento sexual, ocorre o período de latência. Nesta fase, as proibições éticas se desenvolvem em defesa do complexo de Édipo. Em sequência, vem a puberdade e os instintos sexuais atingem o ápice da intensidade (FREUD, 1922/1923/2006).

Freud diz que “Esse desenvolvimento difásico da função sexual, é duas vezes interrompido pelo período de latência, constituindo uma peculiaridade biológica da espécie humana e que contém o fator determinante da origem das neuroses” (FREUD, 1922/1923/2006, p.263).

Os padrões éticos do ego e sua integridade se separam com os impulsos sexuais. As neuroses seriam expressões de conflitos entre o ego (instinto de autopreservação) e os impulsos sexuais. O ego reprime os impulsos sexuais impedindo que eles se tornem conscientes ou que se satisfaçam por via da descarga motora. Ao ser reprimida, a libido regride para fases anteriores do desenvolvimento, onde há pontos fracos com fixações infantis no objeto. Irrompe a consciência e obtém-se a satisfação através da descarga nos sonhos ou sintomas que emergem no corpo. Nesta perspectiva, o sintoma é uma satisfação sexual substitutiva que tem a função de conciliar o ego com os instintos sexuais reprimidos, satisfazendo de maneira incompleta a ambos (FREUD, 1922/1923/2006).

A histeria e as representações obsessivas advêm das fases de desenvolvimento sexual da primeira infância. Os traumas sexuais infantis são uma cisão da consciência que ocorre com o recalcamento. Com a defesa bem sucedida, os impulsos sexuais são expulsos da consciência do ego; com o desdobramento e a baixa eficiência da defesa, estes tornam a consciência resultando no sintoma e adoecimento (Freud 1906/1905/2006).

No desenvolvimento da atividade sexual infantil, o indivíduo é sempre interrompido pelo mecanismo de recalque. Nesta perspectiva, o sujeito neurótico traz na sua vida adulta o recalque sexual e o exterioriza nos seus anseios da vida real. Já o histérico tem seu adoecimento devido a conflitos entre a libido e o recalcamento sexual. O funcionamento do aparelho psíquico se dá por intermédio de células que se comunicam em barreiras de contato e liberam quantidade física e química energia. (FREUD, 1905/2006).

Podemos constatar que após o nascimento começa a se desenvolver no indivíduo o seu aparelho psíquico e sua libido. Na vida adulta suas escolhas estará vinculada ao aparelho psíquico, a libido e a figura materna.

2.1 A MULHER E O AMOR

A escolha do objeto de amor é igual para todas as crianças. Assim como no menino, o primeiro objeto de amor da menina é a mãe, no final de seu desenvolvimento, o pai é tomado como objeto de amor (FREUD, 2006c).

As primeiras experiências sexuais são de caráter passivo. A criança é amamentada, vestida, alimentada e sua libido se alimenta da satisfação se esforçando para transformá-la em atividade. A atividade sexual se manifesta cronologicamente em inclinações orais, sádicas e fálicas. A criança começa a executar atividades que não realizava sozinha, repetindo experiências passivas de forma ativa, com o brinquedo ela transforma a mãe em objeto e porta- se como sujeito ativo. Muitas mulheres que escolhem o marido conforme o modelo do pai ou redimensiona para o lugar de pai, transferem para eles seu relacionamento com a mãe (FREUD, 2006c).

No complexo de castração, a menina descobre que não tem o pênis, sua atividade fálica é a masturbação do clitóris. A higiene estimula a fantasia infantil e torna a mãe ou babá sedutora. A sedução é um fator que acontece por via de outras crianças ou qualquer adulto que torne a criança dependente dela. O motivo que faz com que a menina se revele contra mãe é a proibição da masturbação. A menina busca se libertar da proibição e retomar sua satisfação. Na sua maturidade, sua escolha de objeto vai se caracterizar por este intuito persistente. O ressentimento com a mãe por ter sido impedida de ter sua atividade sexual livre é o principal fator de desligamento (FREUD, 2006c).

As meninas acusam a mãe de seduzi-las. Este fato ocorre porque suas primeiras sensações genitais ocorrem quando estão sendo limpas. A atividade sexual culmina na masturbação clitoriana. O afastamento da mãe é um passo importante para o desenvolvimento da menina, além da mudança de objeto tem-se uma ascensão dos instintos sexuais passivos e uma acentuação do impulso sexual ativo (FREUD, 2006c).

Para Freud (2006a), o complexo de Édipo incita as pulsões, afetos e representações que ligam aos pais, é um momento de passagem inconsciente, que tem incumbência de interditar e normatizar o rumo do curso masculino e feminino.

Para Freud (2006a), o pênis é um objeto auto erótico e fonte de autoestima no menino. Quando este se depara com a menina que não tem o membro, depreende que o seu órgão genital é pequeno e que, quando a menina crescer, ele aparecerá. Ao ser reprimido pelo pai devido à masturbação, o garoto se insere na ameaça da castração. Na garota, o órgão correspondente ao pênis seria o clitóris. E, diante do órgão masculino, esta teria uma sedução intensa, que se transformaria em inveja, elemento principal na mudança de zona erógena e troca de objeto.

O desenvolvimento sexual feminino é bissexual. A mulher possui duas zonas sexuais principais, a vagina que, até a puberdade, não emite sensações e o clitóris. Na sua vida sexual, a mulher tem duas fases: a primeira tem característica masculina e a segunda feminina. De uma fase para outra ocorre uma mudança, o clitóris funciona na vida sexual da menina de maneira incompreendida e insatisfatória (FREUD, 2006c).

A relação mãe-criança é sempre castrada pela lei que é a figura do pai que evita o desejo incestuoso do filho pela mãe. No menino, a ameaça de castração faz abandonar o seu primeiro objeto de amor que é a mãe e superar o complexo de Édipo. Na menina, não há ameaça de castração, a filha deprecia a mãe e se volta para o pai e se insere na situação edípica, nesta fase há uma intensa rivalidade com a mãe e a inveja de pênis do pai e, neste momento, surge a escolha da feminilidade, no contexto da masculinidade ou inibição sexual na neurose, ou seja, o menino repudia a feminilidade e a menina a assume (FREUD, 2006d).

No complexo de Édipo, a menina reconhece a castração e a superioridade do homem e a sua inferioridade, mas se rebela sobre esse estado de coisas indesejáveis. A partir dessa revolta, emerge três linhas de desenvolvimento (FREUD, 2006c).

Na primeira há a repulsa à sexualidade, a menina assustada pela comparação com os meninos, cresce insatisfeita com seu clitóris e abandona sua atividade fálica e sua sexualidade. Na segunda, assume uma postura de autoafirmação de sua masculinidade e alimenta, até uma idade tardia, a esperança de conseguir um pênis, resultando em um complexo de masculinidade e escolha de objeto homossexual manifesta. Se seu desenvolvimento atingir o terceiro caminho, ela atingirá a atitude feminina normal que toma o pai como objeto de amor encontrando o percurso para a forma feminina do complexo de Édipo (FREUD, 2006c).

Freud referencia que “Nas mulheres, o complexo de Édipo, constitui o resultado final de um desenvolvimento bastante demorado, ele não é destruído, mas criado pela influência da castração” (FREUD, 2006c, p. 238).

Nesta fase de desenvolvimento, se a menina ficar muito sobrecarregada de ódio da mãe e inveja por não ter o falo, na sua vida adulta ela irá transferir para seu parceiro o mau relacionamento que teve em sua infância primitiva. Podemos perceber que esta ambivalência de amar e odiar a mãe causa um impacto muito forte no desenvolvimento psíquico e sexual da menina que se remete para sua vida e escolhas futuras (FREUD, 2006d).

 

2.2 A SOLIDÃO NO MUNDO ATUAL E RELAÇÃO DA MULHER COM O AMOR

Em uma sociedade cada vez mais individualista, as pessoas preferem relacionamentos pela internet. E estão sempre ocupadas para conversar com seus familiares ou amigos. Atualmente, falar se tornou banal e a palavra amor perdeu sua importância (RIBEIRO, 2012).

No contexto atual, a solidão pode ocorrer, ao sentirmos desvalia ou menos valia, pode ser vivida na presença de pessoas que não são verdadeiros objetos de amorosos ou em situações de perda e abandono (VERDI, 2010).

A criança, ao passar pelo complexo de castração, culpa a mãe pela falta do falo e, assim, começa a eterna busca pelo falo. Nesta fase, a menina desperta a inveja do pênis. Logo após vem o complexo de Édipo, e a busca do falo surge através do desejo de ter um filho do pai, que se torna o objeto de investimento amoroso, e ocorre a mudança da zona erógena do clitóris (pênis pequeno) para a vagina (ANDRÉ, 1998).

Freud (1932d) diz que, no narcisismo, o ego toma a si mesmo como objeto amoroso e se comporta como se estivesse apaixonado por si próprio. Quanto mais narcísico for esse amor, mais afetará a escolha objetal da mulher, pois, para ela, ser amada é uma necessidade mais forte que amar. “Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de ser amada” (FREUD, 2006a, p.95).

O amor narcísico é amar a si mesmo no outro. O bebê entende que faz parte da mãe, pois seu eu ideal é a mãe. E quando a criança é castrada por seu objeto de amor (mãe), ela abandona seu amor pela mãe e identifica-se com esta, assumindo sua feminilidade ao tomar o pai como objeto de investimento libidinal. Por outro lado, também há o complexo de masculinidade na menina, que se constitui em dois caminhos: na esperança de ainda ter um falo e pela negação de reconhecer a falta, tende a se comportar como um homem (ANDRÉ, 1998).

Freud (2006d) diz que o amor é repetição, pois quando o sujeito ama, sempre reencontrará o objeto, sendo todo objeto de amor substitutivo de algum objeto que se deparou à barreira do incesto. “Quando amam, não desejam, e quando desejam, não podem amar” (FREUD, 2006a, p. 188).

O amor é algo que se construiu culturalmente, uma promessa de plena felicidade que é inalcançável, e que, se transformada em gozo, gera angústia no sujeito. O amor é a busca do reconhecimento pelo outro, é ele que preenche a falta do ser no inconsciente Lacan (apud GOBATTO, 2001).

Com o narcisismo primário o ego se identifica como eu ideal de mãe, atingindo sua completude. A partir do complexo de Édipo, a criança descobre que não é o centro das atenções da mãe e se identifica como o eu idealizado na tentativa de vivenciar novamente o narcisismo primário.

O narcisismo eclode indo em direção a este novo ego ideal, onde o ego infantil é visto com perfeito e valoroso. A criança não está disposta a perder esta satisfação. Quando cresce, percebe que não pode mais reter a perfeição de sua infância primitiva, procura recuperar este momento através de um substituto o ideal de ego. “Neste caso uma pessoa amará segundo o tipo narcisista de escolha objetal: amará o que foi outrora e não é mais, ou então o que possui as excelências que ela jamais teve” (FREUD, 2006a, p.107).

As mulheres estão à procura do homem perfeito, o ideal de eu valoroso que as completem, que tenha o que lhe falta, a mulher precisa se ver no seu parceiro e sentir completa. Vivem em uma busca utópica e tratam os parceiros que encontram como descartáveis, pois, estes não preenchem sua falta, preferindo assim não estabelecer vínculos sólidos, então podemos dizer que a mulher só prefere estar só porque ainda não encontrou o seu ideal de eu (FREUD, 2006a).

 

3 COCO CHANEL

Gabrielle Chanel nasceu em 19 de agosto de 1883, em um hospital da cidade de guarnição na região do Vale de Loire. No seu nascimento, seu pai não estava presente. Albert era conhecido por ser sedutor e indecente. Ele era comerciante, e em uma de suas viagens a trabalho, conheceu Jeanne, e a engravidou, a primeira filha se chamava Julia, casaram quando Gabrielle tinha dois anos e tiveram Alphonse, Antoinette, Lucien e Augustin (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

O pai de Gabrielle era um homem que parecia sempre fugir da família, quando Eugénie Jeanne Dévolles engravidou da primeira filha Julie, ele se recusou a casar com ela, um mês antes de seu nascimento Albert foi encontrando nascimento (PICARDINE, 2010).

Um ano depois Eugénie estava gestante de Chanel e Albert viajou a trabalho, com medo de ser abandonada ela pegou um trem e foi atrás dele, nesta viajem ela passou mal e algumas pessoas a ajudaram a levando para casa e chamando um medico.O médico percebeu que Dévolles estava perto de dar a luz e a levou para um hospital. Uma das freiras do hospital foi madrinha de Chanel, seu nome era Gabrielle Bonheur e em sua homenagem Chanel foi batizada de Gabrielle Chasnel, seu sobrenome foi grafado incorretamente na certidão de nascimento (PICARDINE, 2010).

A mãe de Chanel era depressiva e extremamente dependente e fascinada pelo pai. Por Albert, esta abandonou os filhos com os tios e foi segui-lo em suas viagens a trabalho com medo de ser abandonada. A mãe de Chanel queria ter seu marido sobre seu olhar, porém, este nunca lhe retribui o olhar tão desejado, devido a sua característica depressiva ela foi incapaz de desempenhar sua função materna, se voltar para seus filhos e estabelecer o contato visual. A mãe tem função de espelho através do seu olhar o bebê se identifica como um ser (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Chanel passou sua infância brincando no cemitério com suas bonecas e utensílios que roubava de casa, sobre esta passagem ela dizia:

Eu vivia com pessoas insensíveis e por isso queria ter a certeza de que era amada. Eu gostava de conversar comigo mesmo e não obedecia a ninguém. Foram os mortos às primeiras criaturas para qual abri meu coração Chanel (apud OUTEIRAL; MOURA, 2002).

A ida de Chanel ao cemitério pode ser considerada como a síndrome da mãe morta, a criança não distingue o que é vivo do que é morto, e é melhor estar perto dos mortos do que estar perto desta mãe destrutiva que sempre lhe abandonava. O ódio pela mãe e a hostilidade fez com que Chanel se volta se para seu pai, tendo este com um ideal de eu, que a salvaria da relação destrutiva que tinha com sua mãe. Esta imagem de pai idealizado fez com que Chanel deixasse de ser Gabrielle virasse Coco, não era apenas uma mudança de nome, mas de uma realidade repleta de lembranças que lhe deixava amargurada (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Enquanto seu pai pegava a estrada e abandonava Eugénie e seus filhos ela adoeceu de tuberculose. Ela e as crianças ficavam em um quarto na comuna de Brive-la-Gaillarde. Em uma manha extremamente fria de fevereiro de 1895, Jeanne foi encontrada morta. A historia não diz se Gabriellle e seus irmãos viu a morte da mãe ou quanto tempo ficaram com o corpo dela no quarto (PICARDINE, 2010).

Após a morte de Jeanne, o pai de Gabriele, deixou ela e suas irmãs na Congregação do Sagrado Coração de Maria, um orfanato dirigido por freiras no interior da abadia, e os meninos foram deixados com uma família de camponeses, para serem tratados como órfãos e usados como mão de obra não renumerada (PICARDINE, 2010).

Todos os domingos os pais iam visitar suas filhas no orfanato, Chanel sempre ia com a freira neste dia de visita na esperança de encontrar seu pai lhe esperando, porém ele nunca foi ao seu encontro e mais uma vez ela se sentia sozinha e abandonada (FONTAINE, 2010).

Gabrielle inventou muitas historias e ela na mencionava a palavra abandono nem orfanato, ela contava que tinha sido deixada com suas tias e sua irmã havia sido mandada para um convento. Em suas narrativas ela descrevia duas tias que eram primas de primeiro grau de sua mãe. Essas tias se vestiam de preto, eram severas e tinham um olhar frio, não mencionara nomes. As tias eram pessoas boas, mas desprovidas de qualquer ternura (PICARDINE, 2010).

Sobre o relacionamento com suas tias fictícias ela disse:

Eu não era amada na casa delas. Não recebia nenhum afeto. Crianças sofrem com essas coisas. Eu não gosto de família. Você nasce nela, mas não é dela. As lembranças de minha infância estão gravadas na memória Chanel (apud PICARDINE, 2010).

Em uma entrevista para o jornalista, Marcel Haedrich (editor – chefe de Marie Claire) Chanel desabafou sobre a infelicidade que sentira em sua infância, e que havia se alimentado de dor e horror, e que tentou se matar inúmeras vezes, pois não aguentava ouvir as pessoas se referirem à mãe dela como pobre Jeanne, e a ela como órfã, isso era humilhante, pois, ela tinha um pai. E percebia que ninguém a amava de verdade só cuidavam dela por caridade (PICARDINE, 2010).

Não Havia visitas e nenhuma tia severa. Gabrielle passou sete anos no orfanato, até atingir a maioridade. Assim como pai Chanel contava historias e usava estas para proteger a memória de seu pai, se identificando com ele, e não com sua mãe. Ela o reinventava e descrevia sua fuga como um ato de juventude (PICARDINE, 2010).

A relação de Chanel com sua mãe não foi muito boa, porque sua mãe a abandonou quando criança para correr atrás do seu pai que trabalhava viajando. Na fase de desenvolvimento a criança se constitui como ser através do olhar da mãe. O olhar da mãe de Chanel se desviou para o seu marido e ela não teve o olhar de mãe para se identificar e se constituir como ser. A falta de amor a deixou com buracos psíquicos, fazendo com ela tivesse uma grande necessidade de ser amada (LACAN, 1998).

O pai de Chanel representava para ela à saída de uma situação destrutiva e hostil com a mãe, com sua partida a menina se viu mais uma vez só em um mundo de mulheres frias, e devido a esse fato ela intensificou seus elementos masculinos e repudiou sua feminilidade para não sofrer e se identificou com as freiras. A identificação da menina com a mãe resulta em um caráter feminino da criança, ao ter que abandonar seu objeto de amor (pai), a menina identifica-se com o objeto que foi perdido intensificando o caráter de masculinidade para se constituir como um ser forte (FREUD, 2006d).

No orfanato Chanel se identificou com as freiras na busca de uma saída que a protegesse da ameaça de destruição, tentando sempre manter o controle para evitar um colapso interno. Foi no orfanato que Chanel conheceu a costura e o bordado podendo expressar o trauma de sua infância através da moda (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Toda a personalidade de Chanel, adivinha de sua infância no orfanato, a criação do corte de cabelo curto, do vestido preto com gola branca remetia a imagem das freiras. Cortar o cabelo é uma expressão depressiva de uma característica masculina devido ao seu vazio existencial. Ela usou a rigidez, a criatividade e a determinação para seguir em frente (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Quando Gabrielle fez 18 anos deixou as freiras, pois não tinha vocação religiosa para se integrar a novicidade da ordem. Mas ela não ficou abandonada jogada no mundo, pois tinha alguns parentes, passava as férias com seus avós paternos, e conheceu sua tia Adrienne, que era apenas um ano mais nova que ela, as duas eram muito unidas e se consideravam irmãs (PICARDIE, 2010).

Chanel foi encaminhada para escola de Notre- Dame, instituição religiosa, onde Adrienne já estudava. Chanel havia conseguido um lugar na escola graças à caridade e era tratada de maneira diferente por aquelas que pagavam sua educação. Na escola Gabrielle era considerada apenas uma camponesa inferior que usava uniformes simples e sapatos de segunda mão (PICARDIE, 2010).

Como não tinha aptidão para ser freira ela deveria aprender algo para ganhar a vida, então se dedicou mais ainda para o aprendizado em costura, pois não faltava trabalho para costureira. Nas ferias Chanel ia para casa de sua tia Louise e lá aprendeu a fazer a barra e o acabamento de chapéus, o que só acrescentou aos conhecimentos que aprendeu com as freiras no orfanato. Louise trazia retalhos e Gabrielle e Adrienne criavam golas e punhos para os uniformes (PICARDIE, 2010).

Na sua juventude engravidou mais buscou o aborto como fuga para não entrar em contato com sua feminilidade e ter que enfrentar os buracos psíquicos dos abandonos que teve na infância. Chanel sempre buscou manter o controle entre as ameaças internas e externas (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

15 anos depois Chanel cantava com Adrienne em um cabaré chamado Moulins, a música cantada era onde está Coco?- um cachorro que era mais fiel do que um homem (FONTAINE, 2010).

Foi neste bar que Chanel conheceu Etienne Balsan. Balsan era conhecido por playboy rico davasso. Seu pai morreu quando ele tinha dezoito anos e alguns anos após sua mãe morreu também. Etienne herdou uma sólida fortuna que adivinha do ramo têxtil. O negocio da família era localizado em uma cidade na parte central da frança e já fazia mais de um século que produzia lã fornecendo uniformes para o exercito francês (PICARDIE, 2010).

Chanel morava em um quarto com sua tia irmã. Pela manhã elas costuravam e nas noites cantavam no cabaré, pois tinham o sonho de um dia se tornarem cantoras famosas e mudarem de vida. Chanel lia romance, mas não acreditava no príncipe encantando que se casaria com a pobre órfã, ela dizia que “o amor só era bonito nos livros. E a única coisa interessante no amor é fazer amor, pena que era preciso de um homem para isso” (FONTAINE, 2010).

Esta fala de Chanel se remete a sua incapacidade de amar e estabelecer laços sólidos. Na sua fase de desenvolvimento ela não teve o olhar de amor de sua mãe para se identificar e o seu ego tomou a si mesmo como objeto amoroso, ela se comporta como se estivesse apaixonada por si mesmo e esse amor narcísico, afeta sua escolha objetal, pois, “Sua necessidade não se acha na direção de amar, mas de ser amada” (FREUD, 2006a, p.95).

No cabaré que trabalhava a noite, Chanel teve um desentendimento com o dono e foi demitida. À noite Balsan foi a sua procura no cabaré, mas não a encontrou. Pela manha passando pelas lojas, viu Coco trabalhando em uma alfaiataria, sentada no chão concertando vestidos. Então ele foi até lá e a convidou para jantar. Durante o jantar Chanel disse que: “A mulher apaixonada está perdida, é mais submissa que um cachorro” (FONTAINE, 2010).

Chanel falou isto para Balsan, porque ele não representava para ela um ideal de eu. Ela não reconhecia nele o homem valoroso que a protegesse, pelo contrario ela via nele tudo que desprezava em seu pai uma figura masculina frágil, irresponsável e incapaz de manter vínculos, ele não era um objeto capaz de construir uma identidade de gênero. Lacan (apud GOBATTO, 2001).

Chanel tinha vergonha de sua origem e viu em Balsan uma possibilidade de ter um futuro diferente, mas ele já havia voltado para sua cidade. Com apenas 3,50 de francos, Chanel decide ir atrás de Balsan, não por amor, mas, porque ele era a única chance que ela tinha de sair da pobreza (FONTAINE, 2010).

Ao chegar ao castelo Balsan recebe Chanel, e avisa que ela só pode ficar ate dois dias e que depois ela deve partir. Balsan realizava festas no castelo todas as noites, mas não queria a presença de Chanel perto de seus amigos e exigiu que já que ela estava lá se tornasse invisível. Toda noite Coco ficava na cozinha e jantava sozinha se sentindo menosprezada por Etienne. Quando a festa terminava, Balsan ia bêbado até o quarto de Coco, e pedia que ela tirasse a sua roupa, ordenando que se comportasse como uma gueixa obediente e submissa as suas vontades, senão ele a mandaria para a sarjeta que saiu (FONTAINE, 2010).

Balsan tratava Chanel com indiferença e não queria que ela o acompanha-se e deixava bem claro para ficar longe. Coco percebeu que se cavalgasse com elegância, como todos os amigos ricos de Etienne que frequentavam o castelo, poderia ser aceita por ele e seus amigos (FONTAINE, 2010).

Chanel se esforçou para aprender a montar, mas as saias, o espartilho apertado atrapalhava e incomodava. Foi quando ela teve a ideia de costurar um modelo mais solto e confortável para andar a cavalo, pegou umas calças e blusas velhas de Balsan e reformou para seu manequim e começou a usar para cavalgar (FONTAINE, 2010).

Chegou o dia de sua partida e o cocheiro veio lhe buscar. Ela se recusou a ir embora e ainda apareceu montada a cavalo, perto de Balsan, de suas amantes e seus amigos. Imaginou que se as mulheres que frequentam o castelo a vissem não sentiriam ciúmes, e assim Etienne a deixaria ficar. Pois indo embora o único futuro que uma órfã como ela teria seria casar com um operário, ser prostituta ou concertar roupas de mulheres ricas (FONTAINE, 2010).

Os amigos de Balsan gostaram de Chanel, inclusive uma atriz chamada Emilliene, que elogiou seu estilo, porque, era muito desconfortável cavalgar com aquelas saias. Emilliene se tornou amiga de Chanel e foi até o seu quarto, lá ela encontrou um chapéu simples sem ornamentos e enfeites extravagantes. Colocou o chapéu em sua cabeça e explanou, que se as pessoas a vissem com um acessório assim iriam pensar que ela não tinha dinheiro para comprar plumas. Coco com um sorriso singelo lhe disse que ela ficava muito mais bela com um chapéu simples, pois tantos enfeites tiravam sua beleza natural e escondiam os detalhes e os traços de seu rosto. Emilliene aderiu a ideia de Chanel e virou sua primeira cliente (FONTAINE, 2010).

Com o passar do tempo Blasan foi se acostumado com a presença Chanel e a ensinou o seus segredos de como cavalgar com elegância. Coco começou a participar das festas no castelo e ganhou um belo vestido para usar em uma das festividades, mas não gostou, porque, era apertado demais e mal dava para respirar. Neste momento ela criou seu segundo modelo de roupa, um vestido simples solto sem apertar e marcar a cintura. Para ela a mulher deveria ter movimento dançar dentro da roupa. Durante este evento, Emilliene levou novas clientes para Coco e encomendou outro chapéu, pois estava fazendo muito sucesso com este novo modelo nas ruas e no teatro (FONTAINE, 2010).

Certa manha Chanel encontrou um homem tocando piano no castelo e ele vira o grande amor de sua vida Boy Capel, que também se encanta pela sua personalidade forte e simplicidade (FONTAINE, 2010).

Boy Capel entrou na vida de Chanel como um pai capaz de afastar a ameaça. A criança no narcisismo primário identifica-se como eu ideal. Na passagem pelo complexo de Édipo, ela se identifica com um substituto, o eu idealizado, na tentativa de ter esse amor que lhe foi negado. “Neste caso uma pessoa amará segundo o tipo narcisista de escolha objetal: amará o que foi outrora e não é mais, ou então o que possui as excelências que ela jamais teve” (FREUD, 2006a, p.107).

Chanel decidiu deixar Balsan, e seguir com Capel, para Paris e montar sua chapelaria. Balsan lhe ofereceu casamento e dinheiro, mas ela rejeitou. Ao perceber que estava perdendo Chanel, Balsan contou para ela que Capel iria se casar com uma inglesa, porque ele era um bastardo e ela era uma mulher muito rica que poderia lhe dar nome na sociedade. Lamentava lhe revelar isto, mas não queria vê-la sofrer, pois Capel sempre roubava as mulheres dos seus amigos e depois deixava elas de coração partido (FONTAINE, 2010).

Chanel encontrou Boy tocando piano e falou que sua irmã estava na ilusão que o barão iria se casar com ela. Boy achava que se as pessoas se amassem não precisavam se casar, pois o amor não era um contrato de convenções sociais (FONTAINE, 2010).

Boy pediu a Chanel que não se casasse com Balsan, e ela respondeu que nunca teve intenção de se casar e sempre soube que não seria esposa de ninguém, nem mesmo dele. E Que às vezes ela esquecia o quanto sua mãe foi burra em casar por amor, pois ela chorou a vida inteira e seu pai a traia constantemente. E conclui dizendo que é melhor ser amante do que ser esposa e que o pior de um casamento é o casal (FONTAINE, 2010).

Neste momento boy evidenciou que ia se casar, mas ela já sabia. O amor constitui uma promessa de plena felicidade inalcançável e quando se transforma em gozo causa angustia no sujeito. No amor, existe o amante (sujeito do desejo) e o amado. O amor cortês caracteriza-se pela falta no amante e o que o amado não tem, pois o trovador ama a dama, porque, ela deseja ser amada apesar dele saber que nunca será correspondido. O amor é a busca do reconhecimento pelo outro, é ele que preenche a falta do ser no inconsciente. Capel tinha o que faltava em Chanel, era melhor se amante do que não tê-lo e sentir vazia e desprotegida novamente, por isto ela se conformou com a situação de ser amante, para ela bastava estar ao seu lado Lacan (apud GOBATTO, 2001).

Com sua Chapelaria funcionando em Paris, com varias funcionárias e bastante trabalho. Chanel se sentia feliz e realizada ao lado de Boy. Capel achava que havia lhe dado um passatempo através da chapelaria, mas sem querer lhe deu a liberdade. Se ele tivesse esperado um pouco se casaria com uma celebridade e não com uma filha de um lorde num castelo velho. Chega o dia de Boy viajar ele se despede e promete que quando voltar eles terão dois meses jutos (FONTAINE, 2010).

O amor de Capel deixava Chanel segura e ela se sentia forte para ser mãe e entrar em contato com sua feminilidade, mas este desejo foi impossibilitado de se realizar, pois um aborto clandestino que fizera a deixou estéril (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Mesmo sem certidão de casamento, Capel e Chanel estavam unidos como o C, se sua logomarca, ela dizia que Boy era seu amor, amigo e toda sua família. Quando Chanel decidiu assumir a responsabilidade de criar seu sobrinho André Palasse, Capel lhe deu todo apoio, apesar dela ter revelado pouca coisa sobre o menino. Coco enviou André para um internato na Inglaterra, lá ele aprendeu a falar inglês. Longe de sua tia e de Capel que o chamava de filho. A filha de André nasceu em 1926 e levou o nome de Gabrielle que nem sua tia avó (PICARDINE, 2010).

Enquanto André crescia na Inglaterra o negocio de Chanel florescia em meio à primeira Guerra Mundial. Havia uma legião de mulheres elegantes que precisavam de roupas novas e apesar dos horrores da linha da frente, suas vendas continuavam a subir em Paris e em 1915 ela abriu uma nova Boutique em Biarritz. Os casacos de jérsei simples, as saias retas e blusas de marinheiro naquele momento era coisa mais plausível para se usar (PICARDINE, 2010).

Chanel testemunhou a morte do luxo, a passagem do século XIX, o final de uma era, e o começo de um novo momento da moda onde a mulher não era mais um pretexto para exibir riquezas, excesso de renda, bordados, camada de babados ou estampas complicadas, agora era um novo momento de simplicidade e sutileza (PICARDINE, 2010).

Quando Chanel estava no teatro vendo a peça de Emilliene, recebeu a noticia que Capel havia morrido em um acidente de carro (FONTAINE, 2010).

A dor pela morte de seu amado foi tão grande que ela decorou todo seu quarto de preto. Depois de uma noite, mudou de ideia e mandou repintar tudo de rosa. Boy ensinou para Coco que havia vida após a morte, que nada morria e nem um grão de areia se perdia. Chanel se lembrou disso e transformou seu luto em celebração do chique criando novos modelos de roupas (PICARDINE, 2010).

Coco se dedicou totalmente ao trabalho e a criação dos seus vestidos e lançou o pretinho básico em homenagem a Capel para que o mundo sentisse sua dor e ficasse de luto pela sua morte (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Mademoiselle Chanel foi a primeira a produzir um padrão que agradasse a todos os gostos, democratizando a arte de vestir por razões puramente econômicas, pois a simplicidade e a informalidade eram tendências no pós-guerra (PICARDIE, 2010).

Nos Anos Loucos ocorreu uma mudança emblemática na moda a loucura do cetim branco tomou conta de Paris, e mesmo com a quebra da bolsa de 1929 o estilo de Chanel prevaleceu mediante a sombra da crise. O branco tem uma beleza incomparável e uma harmonia perfeita. Se uma mulher usar em um baile um vestido branco ou preto ela certamente irá se destacar em meio a tantas outras (PICARDINE, 2010).

O branco representava para Chanel a cor da inocência e da pureza. Os seus lençóis eram sempre de algodão liso e branco sem enfeites simples como os punhos do uniforme do covento. Com as freiras no orfanato Coco aprendeu sobre a limpeza e que a impecabilidade proporciona pureza, e ela expressava isto em suas criações (PICARDINE, 2010).

Com lançamento do pretinho básico e de seu perfume Chanel Nº5 ela atingiu o auge de sua carreira e realizou um desfile de roupas com cores, brilhos, simplicidade e elegância sendo aplaudida e reconhecida (PICARDIE, 2010).

Em 1920 Chanel conheceu Ernest Beaux, perfumista que tinha montando um laboratório no sul da França, foi apresentando a Chanel por seu amante Dmitri Pavlovitch. Beaux era o principal fabricante de sabonetes e perfumes na Rússia e fornecedor da corte imperial. Para celebrar o centenário da batalha de Borodino, ele lançou em 1912 o Bouquet de Napoleon e foi aclamado por sua criação (PICARDIE, 2010).

Quando chegou ao sul da França em 1919 montou um novo negocio e estava determinado a recriar uma nota de perfume que tinha encontrado em quanto prestava serviço militar, fez experimentos com aldeídos, comosto químico que se tornaria ingrediente essência do Chanel N° 5.

Mademoiselle Chanel pediu alguns perfumes a Beaux e ele apresentou a ela suas criações dividas em duas series: números 1-5 e 20-24. Ela escolheu o N°5, pois iria apresentar sua coleção no dia 5 de maio, o quinto mês do ano e pediu para deixar o nome do perfume também de N°5, o perfume foi colocado à venda em 1921 (PICARDIE, 2010).

Existe também outra fabula sobre o surgimento do N° 5, na sua velhice Chanel contará a Claude Delay, uma jovem amiga que era filha de uma psiquiatra Frances, e que se tornará uma eminente psicanalista especializada em desvendar os labirintos e segredos que Chanel construirá para encobrir a verdade sobre seu passado. Coco evidenciou que para fugir da dor pela morte de Capel foi para o sul da França, e se refugiou na Côte d’ Azur, e lá sentirá o cheiro do aroma do campo e das rosas e assim inventou o perfume n°5, que deixou o mundo obcecado. O nome surgiu por coincidência, ela deu este nome, porque, era o quinto vidro e cinco era um numero bonito (PICARDIE, 2010).

Para Chanel escolher o perfume era uma declaração de individualidade e de independência. Ela disse a Delay que:

O olfato é único sentindo ainda instintivo. As mulheres usam perfumes que ganham de presente. Você precisa usar o seu aquele que você gosta Chanel (apud PICARDINE, 2010).

Uma vez Coco ganhou um perfume da Floris e achou uma delicia, pois era uma garota do campo, depois ela percebeu que não combinava com ela. Anos depois Chanel sentiu o cheiro do que combinava com ela no laboratório de Breaux, um perfume para mulher com cheiro de mulher (PICARDIE, 2010).

O N°5 foi uma revolução de mistura natural com o sintético, pois evidenciado que os aldeídos realçavam e estabilizava ingredientes como jasmim, junto com ilangue-ilangue, neroli, rosa, sândaloe Vetiver Bourbon. Os perfumes constituíam uma nota floral, mas Beaux descobriu o aroma que Chanel buscava para ser uma estilista comprometida com a modernidade. Ernest Beaux descreveu a formula como um buque de flores abstratas (PICARDIE, 2010).

Chanel levou um frasco do perfume e borrifava na sua boutique e ofereceu pequenas amostras para suas clientes antes da produção em massa do N° 5, para ela as pessoas eram pegas pelo cheiro (PICARDIE, 2010).

Em 1930 Chanel ficou amiga de Bettina Bakkard( uma jovem editora americana que trabalhava na Vogue)em uma nota de entrevista ela não menciono Breaux e contou que foi ela que criará o N°5. O N°5 tornou Chanel rica reconhecida no mundo todo transformando seu nome em marca, fazendo que seu rosto ficasse tão famoso quanto seu logo, a fragrância é algo completo em si mesmo, é o próprio mistério de Chanel (PICARDIE, 2010).

Em 1931, o produtor de cinema Samuel Goldwyn, depois de três anos insistindo muito, conseguiu fazer com que Coco aceitasse trabalhar em Hollywood. Goldwyn contratou Chanel para garantir que suas estrelas de cinema se vestissem com o que há de mais moderno na moda. As criações de Chanel já haviam aparecido em Hollywood e no filme A família real de Broadway, lançado pela Paramount em 1930, a atriz Ina Claire usou um conjunto preto com barra de pele de raposa vermelha (PICARDINE, 2010).

A ida de Chanel a Hollywood lhe garantiu um contrato de um Milão de dólares, mas foi necessário desembolsar muito mais para o departamento de roupas especial que Goldwyn montou para ela em seus estúdios. Chanel foi de navio, para o novo mundo no dia 25 de fevereiro de 1931 acompanhado por sua melhor amiga Misia Sert. Elas chegaram à nova York no dia 4 de março e se hospedou no Hotel Pierre (PICARDIE, 2010).

Coco começou a trabalhar no figurino do seu primeiro filme, um musical chamado Palmy Days. O filme ganhou mais destaque pela própria roupa do que pelo enredo. Chanel se tornou tão famosa que frequentou até a casa branca, os americanos reverenciavam seu estilo. A vanity Fair incluiu Coco no Hall da Fama de 1931, apresentando em um parágrafo o porquê de sua indicação. Foi explicitado que ela foi a primeira a aplicar os princípios do modernismo ao vestuário e que ela combinava com a astúcia comercial. E por fim sua tentativa louvável de introduzir a elegância nos Estados Unidos (PICARDIE, 2010).

No dia 1 de novembro de 1932, Chanel lançou o convite para uma exposição de joias com diamantes criadas por ela mesma. O local escolhido foi uma mansão magnífica parisiense do século XVIII, onde ela morava na época. Coco decorou a mansão com tapetes felpudos, espelhos, cortinas, carpetes, biombos de Coromandel. Princesas, embaixadores, duques e milhares de visitantes vieram para exposição e pagaram uma entrada de vinte francos (PICARDINE, 2010).

O dinheiro arrecadado foi doado para entidades assistenciais como a Société de la Charité Maternelle. Mademoiselle Chanel fez uma reviravolta ao misturar pedras preciosas com vidro. Era expressão da mistura entre o verdadeiro e o falso. A noticia dos incríveis diamantes de Chanel espalho-se rapidamente, sendo noticiado em dezenas de jornais americanos sua peças em formato de estrelas assimétricas e a delicadeza astronômica nos colares e braceletes, uma coleção original de pedras com traços de ouro amarelo que representava o esplendor do sol (PICARDINE, 2010).

Mesmo Chanel tendo dinheiro e sucesso pelas suas criações, por dentro havia algo que a incomodava, e a fazia desmaiar com falta de ar. Ela dizia ter muita emoção, e entusiasmo dentro de si que vivia intensamente e o seus nervos não aguentavam. E a única pessoa capaz de fazer isto passar era Capel, pois ele a tratava como uma criança era um pai que a protegia, um amigo que a entendia e sempre que os nervos lhe atacavam, ele sussurrava em seu ouvido se quiser pode desmaiar, eu estou aqui ao seu lado (PICARDINE, 2010).

Alguns anos depois Chanel se apaixonou pelo duque de Westminster, conhecido como Bendor, era o homem mais rico da Inglaterra e talvez até da Europa. Quando o duque tinha 29 anos seu filho morreu, as pessoas achavam que em breve ele teria outro herdeiro homem e assim seu casamento com Shelagh se salvaria. Shelagh engravidou e deu a luz a uma menina, para ele ter um filho homem era muito importante para dar continuidade à linhagem de sua família, depois disso Bendor saiu de casa e não manteve mais nenhum contato com sua esposa, a única vez que foi ver sua filha foi no dia de seu batizado e foi acompanhado com sua amante Gertie Millar uma grande estrela de musicais (PICARDIE, 2010).

Após o divorcio com Shelagh, Westminster casou com Violet no cartório do Buckingham Palace Road. Essa união produziu um dos maiores iates particular do mundo, com uma tripulação formada por quarenta pessoas, mas nenhum bebê. Chanel conheceu Bendor em 1923 em Monte Carlo e ele a convidou para jantar a bordo do iate. Vera Bate foi a responsável por apresentar Coco ao duque. Chanel viu em Bendor um homem como tinha sido Capel, capaz de lhe proporcionar conforto financeiro e sem garantias de fidelidade (PICARDIE, 2010).

Longe de Paris, Chanel no verão passava suas tardes nas águas do rio Laxford ao lado de Westminster, e fazia sucesso como pescadora, no dia 27 de maio de 1925 seu nome foi para o registro por pescar um peixe de 5,5 kg. De junho, julho e agosto suas habilidades na pescaria ia se desenvolvendo e ela pescava trutas e salmões, em um verão chegou a matar 40 peixes. No dia 30 de setembro de 1925 ela pescou um salmão de quase oito quilos (PICARDIE, 2010).

Dois anos depois, Bendor se sentia muito feliz ao lado de Coco, pois ela era uma mulher forte, agradável, capaz de comandar um homem e um império, uma mulher a altura para estar ao seu lado. O duque tinha fama de playboy, tinha 1.80 de altura, forte, bronzeado, atraente, sofisticado e ainda muito bonito aos 44 anos (PICARDIE, 2010).

Chanel passou 10 anos com Westminster eles tinham uma relação carinhosa e amigável, ela o amava. O duque era sedutor e tinha varias esposas e amantes, mas mesmo assim, Coco acreditava que ela havia sido mandando por Boy e que Bendor era uma forma dele continuar perto dela mesmo após a morte. Ela achava que ele gostava dela, pois as inglesas eram mulheres frias e possessivas que entediavam os homens, ela se referia a uma inglesa em especial Diana Capel, a esposa de Boy (PICARDIE, 2010).

Os ingleses são muito educados e o relacionamento de Bendor com Chanel foi muito mais grandioso, mesmo sendo indiferente, ele a cortejou, mandava gardênias e orquídeas colhidas de sua estufa. Um dia ele mandou uma caixa com legumes frescos, quando o mordomo tirava os produtos encontrou uma grande esmeralda bruta em uma caixa de joias. Depois para provar que pertencia a nobreza visitou Coco ao lado do príncipe de Gales, e assim ela cedeu a seus encantos (PICARDIE, 2010).

Independentemente da relação que tinha para com as mulheres inglesas Chanel as vestiu, e marcou com sua moda. A edição da Vogue inglesa em junho de 1927, trouxe a noticia da moda mais importante para o verão, a abertura da casa londrina de Chanel, para exposição de modelos criados para passeios da alta sociedade britânica, vestidos de tafetá branco simples e sem enfeites, um pretinho de renda e outro de seda azul com bolinhas (PICARDIE, 2010).

Ao lado do duque de Westminster, Chanel o tomou com um ideal de pai, e ao lado dele, tentou mais uma vez a gestação mais não foi possível e o duque a abandonou, pois ter um filho era prioridade par ele. Vendo- se incapaz de manter um homem ao seu lado Chanel desenvolveu relacionamentos cada vez mais frívolos com homens e mulheres frágeis (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Homens másculos, ativos e bem sucedidos despertava o desejo de Chanel de ser mãe, pois representavam um ideal de eu que neutralizava sua postura defensiva em relação à vida. Chanel passou sua vida lutando contra a loucura superou todas as barreiras da vida, mas nunca consegui se libertar de sua mãe e nem de sua infância atormentada. No fim morreu sozinha e o seu império ficou sem herdeiro, tinha a maior fortuna do mundo, mas não tinha amor (OUTEIRAL; MOURA, 2002).

Em 60 anos de carreira, Coco criou milhares de modelos que definiram o estilo da mulher moderna. Libertou as mulheres para usarem calça, deu um toque de nobreza às roupas dos trabalhadores, se apaixonava por homens protetores. As maiores celebridades da época adotaram seu estilo, ela foi à primeira mulher a se impor no mundo dos homens ao fundar um império que ainda leva seu nome (FONTAINE, 2010).

Já idosa Chanel falou para Delay que se tivesse que colocar um emblema nas caixas de ouro que Bendor lhe dera de presente, colocaria sua tesoura. Coco trabalhava todos os dias ate todos ficarem exaustos, cortava, desmanchava, reajustava, refazia a barra ate dez vezes para alcançar a perfeição, um de seus conjuntos foi mudado 35 vezes. Ela não inova pela novidade (PICARDIE, 2010).

Com uma tesoura pendurada por uma fita ao redor do seu pescoço, tudo que ela tinha que fazer era cortar. Suas mãos se moviam pelo corpo da modelo, com os dedos sentia a pele por baixo do tecido e a tesoura cortando, devido surgiu o boato que mademoiselle Chanel era lésbica e que ela tocava suas modelos de uma forma que jamais tocara um homem (PICARDIE, 2010).

Quem a conhecia bem sabia que seu relacionamento com suas modelos Marie Arnaud e Suzy Parker era uma relação de mãe mentora e nada sexual. Quando Bettina Ballard começou a trabalhar na Vogue Paris, ela descreveu Chanel como uma feiticeira, que seduzia com palavras, para transformar suas modelos na versão dela mesmo. Ela tem o instinto para proselitismo, gosta de converter as pessoas a sua maneira de pensar, vestir e viver (PICARDIE, 2010).

Chanel estava magoada com os boatos sobre sua sexualidade e sentia humilhada. Antes de morrer ela escreveu:

Imagine… Eu, agora! Uma velha lésbica! Foi devastador. É inacreditável como as pessoas inventam essas coisas. Chanel (apud PICARDINE, 2010).

Chanel havia desistido completamente do amor. Para ela amar um homem na velhice era uma coisa horrível, um jovem vergonhoso e se isso acontece, ela se esconderia ou fugiria (PICARDIE, 2010).

Gabrielle Labrunie sobrinha de Coco e Claude Delay foram às pessoas mais próximas que ela teve ao seu lado na velhice e conseguiram ver as cicatrizes emocionais que Chanel carregava sua solidão, as perdas, e o fracasso por nunca casar ou ter filhos. Coco batalhou para se livrar de sua infância, tudo era uma questão de liberdade. Ser livre para dirigir seu carro, a criação de roupas que libertassem a mulher, ser livre para esquecer seu passado ou mesmo que não der para esquecer, coloca-lo em um lugar, onde não se pense tanto nele (PICARDIE, 2010).

Na sua velhice quando todos iam embora Delay ficava com Chanel e ela via seu espírito se afundar, neste momento Chanel falava que perdeu todos que ela amava e que não tinha nada pior do que estar sozinho e sua vida era uma desgraça, tudo que lhe restara na velhice eram seus casacos e vestidos. Ela disse a Delay:

Uma mulher que não é amada não é mulher. Qualquer que seja sua idade. Uma mulher precisa ser olhada por um homem que a ame. Sem esse olhar ela morre Chanel (apud PICARDINE, 2010).

Chanel morreu sozinha aos 87 anos, não foi enterrada em Paris, mas na Suíça, no cemitério de Lausanne. Na sua lapide tem cinco leões esculpidos, seu nome acima das datas de nascimento e de morte, e uma cruz, o tumulo é coberto por flores, pois Chanel não queria se coberta por uma pedra (PICARDIE, 2010).

 

4 CONCLUSÃO

Com avanço do capitalismo e da tecnologia na contemporaneidade ocidental, os indivíduos se tornaram muito individualistas. E este individualismo causou o enfraquecimento das relações interpessoais, fazendo com que as pessoas passassem pelo sentimento de solidão, se sentindo abandonadas e desamparadas, gerando assim um adoecimento psíquico pela falta do outro.

Neste paradigma a mulher conquistou independência e sua autonomia financeira e emocional, o que levou ela a crer que para ser mulher, não precisava casar ou ter filhos e que poderia ser feliz sozinha. Na sociedade do consumo os sujeitos compram compulsivamente podendo perceber uma insegurança muito na grande nas relações humanas. Os relacionamentos estão cada vez mais levianos e frágeis, por qualquer motivo o parceiro ou parceira rompem os laços e substituem o outro. E vivem nesta busca utópica de encontrar a pessoa perfeita.

Com a leitura do artigo é percebido que o fato da mulher esta sozinha não se remete ao fato dela ter conquistado seus direitos e autonomia mais esta vinculada a relação que esta teve com sua mãe no seu desenvolvimento psíquico e libidinal.

Através da historia de vida de Coco Chanel articulada com a teoria psicanalítica esta afirmação pode ser mais bem compreendida, pois foi evidenciado que a opção de Chanel por ficar só não teve nada haver com sua personalidade forte, autonomia e sucesso profissional, mas sim por sua busca de querer encontrar um ideal de eu. Chanel foi abandonada por sua mãe, pai, tios, amores e a cada abandono ela vivenciava a solidão. Essa falta de amor fez com que ela tivesse uma grande necessidade de ser amada (Lacan, 1966/1998).

Chanel se identificou com um eu substituto na tentativa de reaver o amor que lhe foi negado. Ela viu em homens como Capel e Westminster, o ideal de eu valoroso que tanto almejava, eles eram másculos, bem sucedidos, e faziam com que ela se sentisse amada e protegida. Mas ela foi incapaz de manter ambos ao seu lado e ao ser abandonava se encontrava mais uma vez solitária e perdida. Optamos pela solidão porque ainda não encontramos o nosso ideal de eu ou fomos incapaz de mantê-lo ao nosso lado.

No final de sua vida, Chanel disse que: “Ninguém deveria viver sozinho, isso é um erro. Eu pensava que tinha que fazer minha própria vida, mas estava errada”. (PICARDIE, 2010, p. 244)

  

REFERÊNCIAS

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COCO ANTES DE CHANEL “COCO AVANT CHANEL”. Produção de Anne Fontaine. Roteiro: Anne Fontaine e Camille Fontaine. França: Warner Bros. 2010.1 DVD (110MIN), Colorido.

FREUD. Sigmund. A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre a Metapsicologia e Outros Trabalhos (1914-1916). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio De Janeiro: Imago, 2006. v.14, p. 81-84.

______. Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise(1932-1936). Edição standard brasileira da obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de janeiro: Imago, 2006. p.113-134.

______. Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (parte III) (1915-1916). Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio De Janeiro: Imago, 2006. v.16, p. 325-339; 413-431.

______. O Futuro de uma ilusão, o Mal- Estar na Civilização e outros trabalhos (1927-1931). Edição Standard Brasileiro das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio De Janeiro: Imago, 2006. v. 21, p. 231-251.

GOBATTO, Gilberto Gênova. Transferência: Amor ao saber. Ágora: Estudos em Teorias Psicanalíticas. Rio de Janeiro, v. 4, n.1, p. 103-114, jan./jun. 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-14982001000100007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 de abril de 2013.

 GONÇALVES, Elaine. Nem só nem mal acompanhada: reinterpretando a “solidão” das “solteiras” na contemporaneidade. Horiz. antropol. Porto Alegre, v.15, n.32, p.189-216, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-71832009000200009&script=sci_arttext>. Acesso em: 11 de abril de 2013.

GUEDES, Dilcio; ASSUNÇÃO, Larrisa. Relações amorosas na contemporaneidade e indícios do colapso do amor romântico (solidão cibernética?). Rev. Mal-Estar Subj. Fortaleza, v.6, n.2, p. 396-425, 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1518-61482006000200007&script=sci_arttext>. Acesso em: 8 de abril de 2013.

LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador do eu (1998). In: Escritos. (V. Ribeiro, trad.; pp.96-103). Rio de Janeiro: Zahar (original publicado em 1966). 893p.

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OUTEIRAL, Jose; MOURA, Luiza. Coco Chanel: a combinação do verdadeiro com o falso. In: ______. Paixão e Criatividade: Estudos Psicanalíticos sobre Frida Kahlo- Camille Claudel- Coco Chanel. 2. ed. Rio De Janeiro: Revinter, p. 103-146. 2002.

PICARDINE, Justine. Coco Chanel. A vida e a lenda. Tradução de Elvira Serapicos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. 254p.

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VERDI, Marly Terra. Vínculos: antídoto da solidão. Rev. SPAGESP. Ribeirão Preto, v.11, n.2, p. 17-23. 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-29702010000200004&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 13 de abril de 2013.

[1] Artigo apresentado a Universidade Potiguar- UNP, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Psicologia.

[2] Graduandas em Psicologia pela Universidade Potiguar – UNP – islania_natanielly@hotmail.com / samara_siqueira@hotmail.com

[3] Orientadora. Drª Glaucinéia Gomes de Lima. Professora da Universidade Potiguar – UNP – glaucigomesl@gmail.com

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