October 20, 2017

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A MAGIA DA PALAVRA

Texto de: Veruska Queiroz *

A MAGIA DA PALAVRA

“E Marcelo continuou pensando: ‘Pois é, está tudo errado! Bola é bola porque é redonda. Mas bolo nem sempre é redondo. E por que será que a bola não é mulher do bolo? E bule? E belo? E bala? Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. Cadeira, por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não quer dizer nada. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro, lógico! Também agora eu só vou falar assim(…) O pai de Marcelo resolveu conversar com ele: — Marcelo, todas as coisas tem um nome. E todo mundo tem que chamar pelo mesmo nome porque, senão, ninguém se entende… –Não acho papai. Por que é que eu não posso inventar o nome das coisas?” (Ruth Rocha, in: Marcelo, marmelo, martelo, 1978)

  É engraçado… Se não me falha a memória, eu devo ter lido esse livro na época da alfabetização e nunca mais me esqueci dele. Adorei aquela coisa toda das trocas das palavras. Para mim, tal como para o personagem, fazia total sentido as palavras possuírem outros nomes mais “adequados”. Ficou em mim a fascinação por esse mundo das letrinhas e até hoje, às vezes, pego-me rindo sozinha imaginado como seria se pudéssemos mesmo viver trocando as palavras ao nosso bel prazer como o Marcelo do livro. Também foi por causa das palavras – derivadas da falta de compreensão, segundo ele mesmo – que o pobrezinho do Pequeno Príncipe (1991) se decepcionou tanto com as pessoas grandes: “Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Respondera-me: ‘Por que é que um chapéu faria medo?’ Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações.”

A palavra marca a efetiva entrada do sujeito no mundo da linguagem e consequentemente no mundo da cultura, embora desde o nascimento e mesmo antes dele essa inserção já aconteça, de certa forma. É através das palavras, na grande maioria dos casos, que escutamos as vozes daqueles que primeiro iremos amar e de todos com os quais iremos formar vínculos e conviver. É através das palavras que começamos a perceber o mundo a nossa volta, adquirindo habilidade e treinando nosso discernimento em relação às regras, normas, leis e limites nossos e do outro. A palavra nos situa, nos diz quem somos e quem é o outro. A palavra nos lança ao olhar e ao desejo do outro. A palavra marca a diferença. A palavra tem uma dimensão tentadora, tem o poder de encantar, enfeitiçar e seduzir. A palavra nos coloca no centro ou à margem. Palavras são o meio universal de comunicarmos nossas intenções, nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossas alegrias, nossas dores e é através dela que estamos o tempo todo nos influenciando uns aos outros. Freud em suas “Conferências Introdutórias sobre Psicanálise”(1996[1915-1916], vol XV) já dizia: “Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de um intercâmbio de palavras entre o paciente e o analista(…) As palavras, originalmente eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigo poder mágico. Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero, por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos, por palavras o orador conquista seus ouvintes para si e influencia o julgamento e as decisões deles.” Em suma, a palavra não somente diz sobre as coisas, mas também as transformam. As crianças, os poetas e as bruxas de outrora (e as de hoje também, porque não?) sabem muito bem disso.

As crianças sabem que ao simples pronunciar da palavra “Pirlimpimpim” a mágica é feita e de cartolas pretas saem coelhos, rosas brancas viram lindas pombas e a ajudante do mágico é cortada em duas ou três partes para depois aparecer inteira do outro lado. A um simples “Abre-te Sésamo” uma montanha mágica se abre e lá está o tesouro. A palavra, para a criança, permite que uma série de representações do mundo real e da fantasia sejam elaboradas no sentido de sua própria constituição como sujeito. Já para os poetas, as palavras são o corpo e a alma de seus pensamentos e sentimentos. É através das palavras e por causa delas que o poeta existe e existe sua poesia. As palavras de um poeta são sua expressão máxima, a gestação, o nascimento e perpetuação de sua obra e de si mesmo. A história não poderia ser contada sem as palavras. Foi também por causa das palavras que milhares de mulheres foram torturadas e mortas na Idade Média, acusadas de bruxaria, pois, para criá-la, segundo a crença que a teoriza, bastava falar. As bruxarias eram feitas e consumadas pelo poder das palavras. No livro “O Martelo das Feiticeiras” (2004), os inquisidores medievais e autores do livro H.Kramer e J.Sprenger escrevem: “pela força terrível de suas palavras mágicas, como por um gole de veneno, conseguem destruir a vida.”

Toda palavra carrega uma maravilha e, ao mesmo tempo, um estranhamento, pois ela tem em si o poder de dizer aquilo que se pretende e também outra coisa que não aquilo que comumente se entende. Ela pode nomear o que sabemos e ao mesmo tempo o que não sabemos ou o que nem se pode dizer ou ainda o que nem ao menos queremos saber, sabendo ou não. É com palavras que criamos nosso mundo, convivemos, dizemos o que estamos pensando, sentindo e o que queremos ou não em dado instante. Exceto no setting analítico, é preciso muito cuidado com as palavras. A palavra certa ou errada, dita desse ou daquele modo é capaz de mudar sozinha, em segundos, tudo a sua volta. A palavra, como tudo o que existe tem e gera energia. A palavra cria. A palavra enaltece. A palavra fere. A palavra fortalece. A palavra destrói. A palavra ensina. A palavra constrói. A palavra encoraja. A palavra ilumina. A palavra transforma. A palavra cura.

E foi justamente pelas palavras que curam que a psicanálise foi fundada. Em 1895, Freud escreve com J.Breuer, “Estudos sobre a Histeria” propondo o método catártico como um novo tratamento para as doenças mentais. Eram apenas os primeiros passos da psicanálise e muito da teoria, do método e do tratamento ainda seriam estudados e postulados, mas com Anna O.(pseudônimo da mais famosa paciente da psicanálise – Bertha Pappenheim), a cura pela fala ou “talking cure” estava inaugurada. J.Breuer começou o tratamento de Anna O. usando a hipnose. Ao falar sobre as experiências durante a hipnose, frequentemente ela se sentia aliviada dos sintomas. Ela relatava os incidentes perturbadores ocorridos durante o dia e, depois de falar, algumas vezes alegava sentir-se aliviada dos sintomas. Ela se referia às conversas como “Chimney-sweeping” – limpeza de chaminé – ou o que chamou de “cura pela fala”. Mais tarde, porém, Freud acabou abandonando a hipnose alegando que seus resultados eram pouco satisfatórios e que grande parte dos seus pacientes apresentava resistência ao método. Outra paciente, Emmy Von N. leva Freud a inaugurar um método – a regra fundamental da psicanálise – que seria constitutivo da teoria psicanalítica: o Método da Livre Associação. Freud (1996[ 1893-1895], vol II) escreve: “Disse-me então, num claro tom de queixa, que eu não devia continuar a perguntar-lhe de onde provinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar-me o que tinha a dizer.” Ao deixar que seus pacientes associassem livremente, Freud encontra a via de acesso ao inconsciente, permitindo que o sujeito atribua um saber sobre seu sintoma, emergido na palavra falada.

Nesse sentido, é através das palavras, quando a fala livre é suscitada, que o sujeito irá implicar-se na direção de seu tratamento e descobrir por si mesmo a sua verdade e seu modo de ser e de atuar no mundo, com mais liberdade para nomear o seu sentido de vida, dando-lhe a direção e o gerenciamento que melhor couber em suas tão particulares conceituações do seu bem viver. Lembro-me aqui da poetisa, filósofa e psicanalista Viviane Mosé quando ela dizia: “Procuro uma palavra que me salve(…) Toda palavra deve ser anunciada e ouvida(…) Toda palavra é bem dita e bem vinda.”Sobre as palavras, todos nós e todos campo do saber as tem como uma segunda pele. Não importa se é a palavra falada, a palavra escrita, a palavra pelos sinais e até a palavra pelo silêncio. A palavra pode nos salvar, pode ser transformadora, pode ser o início de grandes ações. Parece que o ditado popular tem razão: as palavras tem poder.

 Ainda sobre as palavras, a psicanálise as elevam em uma categoria belíssima, pois a palavra pode sim curar, a cura pelo amor… “A Psicanálise é um método de pesquisa da verdade individual para além dos acontecimentos cuja realidade não tem outro sentido para um sujeito salvo a maneira pela qual ele lhe foi associado e por ela modificado. Através do método de dizer tudo a quem tudo escuta, a capacidade de encontrar-se revela-se a ele e a função simbólica específica da condição humana nele se organiza como linguagem. Essa linguagem, portadora de sentido singular se apresenta diante da escuta única do psicanalista – uma escuta no sentido pleno do termo – e o discurso do analisando se modifica adquirindo um sentido novo aos seus próprios ouvidos. Além das palavras e do discurso que o psicanalista escuta, atrelada a teoria e à técnica, estão a sua percepção e a sua sensibilidade receptiva que permite-lhe entender em vários níveis o sentindo emocional subjacente do seu paciente. Ao promover essa escuta diferenciada ao longo do tratamento, o psicanalista, suscita a verdade do sujeito e, com isso, suscita, ao mesmo tempo, o sujeito e sua verdade. Esse é o caminho pelo qual o sujeito descobrirá, por si mesmo, sua verdade e, a partir daí encontrará seu sentido diante de si mesmo, dos outros e do mundo que o cerca.” (Maud Mannoni, 1981; grifos meus)

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  Autora:  Veruska Queiroz
Psicanalista – Juiz de Fora-MG
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Imagem: Direitos reservados a Veruska Queiroz.

Sobre o(a) Autor(a)

Psicanálise e Amor

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