November 18, 2017

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A formação do eu e o poder da psicanálise

A formação do eu e o poder da psicanálise

Gabriel Ferreira Câmara

Inicio com o caso de uma jovem que procura o tratamento psicanalítico em momento de grande angústia. Nas primeiras sessões, fala dos principais motivos que a instigaram a se analisar: seu sentimento de inadequação e de inferioridade. Queixa-se pelo fato de não se sentir bem em nenhum lugar, que sempre está aquém, inferior aos outros, não consegue agradar, por isso foge amiúde das situações sociais. Ela diz que sempre foi muito criticada pelos pais: “Meu pai dizia que eu tinha as coisas ruins de minha mãe, e minha mãe dizia que eu tinha as coisas ruins de meu pai. Eu sou um lixo”. Na sessão seguinte, o mesmo mal–estar se manifesta em sua fala e, já no final ela afirma: “Eu sou assim mesmo, herdei o lado ruim de minha mãe e de meu pai”. Mas, na afirmação, também havia uma questão que se inferia. Perguntei então: “Será que é mesmo?” Ela silenciou por alguns instantes, depois disse: “Eu só consigo me ver assim, aliás, tem sido assim há muito tempo, é muito difícil mudar”. 

Com esta paciente, o início da transferência foi possível por essa via: havia, enfim, um lugar onde ela podia sentir–se melhor, onde sua fala podia ser aceita sem ser criticada, o consultório de seu analista.

Não vou tratar do desenrolar dessa análise, mas o engodo fica evidente: a jovem não está nem um pouco satisfeita com a imagem que tem de si, e, apesar de não ter plena consciência, percebe que se relaciona com os outros através de seu discurso de semblante. Há algo de si que deseja apreender, que está além deste “eu sou assim”.

Mas o além deste “eu sou assim”, com essas qualidades e esses defeitos, é justamente o problema, ir para o desconhecido, além do sujeito que se manifesta no Eu – então, ela se defende perante a eminência da castração.

É que a analisanda em questão mantém um vínculo afetivo ambíguo e intenso com sua mãe fálica, que se torna mais próximo ainda pelo fato de seu pai ser um homem bastante ausente em sua vida, um “nada”, como ela mesma diz. Esta mãe é uma mãe–fortaleza (significante dado pela própria analisanda). Ela se identifica com o objeto de desejo desta mãe – o falo. Portanto, o Eu sinaliza um perigo frente a qualquer intervenção minha em sua fala que ameace esta fantasia, e ela sente ansiedade. Neste ponto, há uma interrupção na associação de idéias: a analisanda é tomada por uma resistência oriunda de um sentimento de desprazer.

Do Eu Freudiano ao Eu de Lacan

Mecanismos de defesa, de resistência, Freud os alojou no Eu. Este tem a função de síntese do aparelho psíquico, faz a intermediação entre o Isso, o Supereu e as exigências do mundo externo — serve a estes três senhores. O Eu é uma organização e, se há um fio de ligação entre o Eu da primeira tópica e o da segunda, é este — ele foi, desde sempre, uma organização para Freud, inclusive o Eu pré–metapsicológico de “Um projeto para uma psicologia científica” (FREUD, 1996). Este é um Eu neurológico, pertencente ao sistema de neurônios psi. E, embora não tenha acesso direto ao mundo externo, sem ele não é possível se dar o teste de realidade, ou seja, não há a passagem do processo psíquico primário para o secundário. Para que isso aconteça, faz–se necessária uma função de inibição por parte do Eu. Ele inibe a realização do desejo, impedindo a regressão até o surgimento da alucinação, propiciando assim o desenvolvimento do pensamento. Então, é desde lá que o Eu tem a função de inibir.

O “Projeto” é uma obra de difícil compreensão. Freud caminha numa trilha insegura, ao mesmo tempo em que fala de sistemas de neurônios e descargas motoras, fala também de desejo. O “Projeto” é um trabalho hipotético, Freud trabalha com hipóteses. Ele não tem a intenção de dar conta da descrição do aparelho neurológico, mas de dar conta do desejo. 

Uma coisa é certa, não é um trabalho para neurologistas. Surgiu devido à sua necessidade de compreender mais profundamente seus pacientes — principalmente as histéricas. É a experiência primeira de satisfação, esta ilusão de plenitude que leva à tentativa incessante de sua repetição, o resgate do Objeto — que jamais será recuperado, mesmo que pela via alucinatória —, que imprime a marca essencial do desejo humano: sua insaciabilidade. 

Na primeira tópica, a ênfase era dada à dinâmica do inconsciente, às transferências de catexias entre os três sistemas: inconsciente, pré–consciente e consciente. Na virada dos anos vinte, momento da segunda tópica, a ênfase é deslocada do funcionamento do aparelho psíquico para os mecanismos de defesa e a instância repressora — o Eu, em “O Eu e o Isso” (FREUD, 1996). Freud irá correlacionar as três instâncias — Eu, Isso e Supereu — aos três sistemas. A segunda tópica não anula a primeira, mas aumenta o poder teórico da psicanálise para explicar os fatos psíquicos.

O Eu tem seu núcleo no sistema perceptivo–consciente. Ele é, sobretudo, um “Eu corporal”, uma projeção psíquica da superfície do corpo. O Eu origina–se do contato do indivíduo com a realidade – ainda é responsável pelo teste de realidade. Antes, na primeira tópica, havia a dúvida se ele comportaria uma parte inconsciente (no artigo ora referido). A resposta é definitiva, ele é em grande parte inconsciente, aprofunda-se no recalcado, sua base está em contato com o Isso. 

Ao ler esse artigo, compreende-se o porquê das más interpretações da teoria psicanalítica e os desvios que originaram as teorias da psicologia do Eu. Freud, repetidamente, põe em evidência as forças  versus as fraquezas do Eu. Sua força se expressa pelo fato de ser uma “organização coerente de processos mentais”. Então, tem o poder de intermediar a relação entre o mundo externo e o interno; ele detém o controle da motricidade (útil para fugir de um perigo externo); e, para fugir de um perigo interno, tem o poder de lançar mão dos mecanismos de defesa. Sua força, porém, transforma-se em fraqueza, pois, ao impedir o acesso de complexos inconscientes à consciência, perde o controle sobre estes. E esses mesmos complexos expulsos da consciência forçam sua descarga por outras vias, gerando sintomas, por exemplo.

O conceito de Eu corporal também foi o estopim de muitas atrapalhações. Quando ele diz que o Eu é, sobretudo, uma projeção mental do corpo físico, Freud não deixa clara a questão da identificação para a constituição do corpo imaginário, mas é um corpo formado somente na relação inter–humana, sendo necessário o outro para se reconhecer. É do corpo imaginário e de sua relação com a libido que Freud fala, pois a sede do Eu é o corpo erógeno, por onde circula a libido. Bom também lembrar a vesícula viva — exemplo de que Freud se serviu em pelo menos duas ocasiões — que, inicialmente, tinha seu sistema nervoso na superfície. Com a evolução, porém, este precioso sistema foi protegido no interior do corpo. Acredito que este “Eu corporal” também tem relação com esse resquício da teoria evolucionista. Então, ao se tornar um órgão interno, o sistema nervoso ainda mantém o controle da superfície do corpo, mediante uma projeção interna dessa superfície.

Talvez por colocarem o Eu como o centro do aparelho psíquico e supervalorizarem o que ele tem de consciente, alguns seguidores o confundiram com o próprio sujeito, que se posiciona de determinada forma diante do mundo, que se desenvolve com a experiência e a educação. Para estes, então, trata–se de adaptá–lo melhor às exigências da sociedade moderna. Mas o Eu é o lugar dos conflitos, seus mecanismos de defesa são inconscientes, e estes conflitos inconscientes geram efeitos poderosos na vida mental, muitas vezes sem nunca se tornarem conscientes — isso pelo fato de o Eu manter uma força constante de repressão. 

De fato, ele não é originário, é desenvolvido, erigido a partir do Isso. Em “Sobre o Narcisismo” (FREUD, 1996), ele afirma que o Eu é desenvolvido pela formação do narcisismo primário, que une as pulsões parciais. Antes, no estádio do auto-erotismo, estas pulsões parciais estavam anarquicamente distribuídas, ligadas à excitação de uma zona erógena; agora elas convergem para o investimento libidinal do Eu. Doravante, o Eu torna–se objeto de amor para os impulsos do Isso. O narcisismo secundário é a libido objetal que retorna para o Eu. Ele é um precipitado de identificações objetais abandonadas pelo Isso.

Este Eu ideal do narcisismo primário, que é investido pela libido, é substituído pelo ideal do Eu no momento do declínio do complexo de Édipo. O Supereu torna-se a instância crítica, vigilante. Muitas vezes, utiliza sua força de forma desmedida, exerce seu poder tiranicamente, ameaçando a unidade do Eu com sua pulsão de morte não fusionada.

Freud fala de um amadurecimento do Eu, o qual, ao longo do tempo, se tornaria mais forte e, consequentemente, exerceria sua função de intermediação de forma mais harmoniosa, tornaria uma boa parte do Isso consciente, não se submeteria tanto ao imperativo categórico do Supereu e manteria uma relação mais salutar com o mundo externo.

Lacan é quem enfatiza a frágil relação do homem com o mundo externo objetivo. O homem nasce prematuramente, sem coordenação motora, é totalmente dependente do outro nos primeiros meses de vida. Há uma “insuficiência orgânica de sua realidade natural” (LACAN, 2009). Na verdade, o limiar, a porta de entrada para a realidade se dá mediante uma relação especular. A partir daí, o homem constrói seu mundo. 

Então, é através da identificação com uma imagem que o homem capta o mundo ao seu redor. Esta imagem se dá no estádio do espelho, momento que marca o indivíduo, quando a criança captura seu reflexo e rejubila–se por se reconhecer lá onde sua imagem é invertida. Ela inclina–se para captá–la pelo melhor ângulo e a retém em sua memória. Esta é a matriz do Eu, imago que também dá a forma fixa do Eu ideal, sua imagem de perfeição narcísica. 

Lacan (1998) considera o estádio do espelho um momento de virada decisiva no desenvolvimento mental da criança, pois deixa uma marca. Ela é antecipada pela criança, ante sua prematuridade, e antes de coordenar sua motricidade. A partir daí, não há ainda uma subjetividade, mas um esboço do Eu, dessa unidade. Mas, para que este estádio seja ultrapassado pela criança, faz–se necessário o testemunho da mãe, pois é ela quem lhe libidiniza o corpo e o integra numa unidade ortopédica. O processo do espelho precisa ser dialetizado. A mãe, que domina o simbólico, precisa reconhecer e nomear o corpo do filho. Só assim ele reconhecerá aquela imagem do espelho como sua imagem, e poderá, então, viver a experiência de individuação de seu ser no mundo, individuação do sujeito criança. 

Com a passagem para o Simbólico, o Eu do discurso se diferencia. Porém, o Eu social, que domina a fala, não apaga o Eu especular matricial. Este tipo de relação do imaginário, que nasce desta primeira relação com a mãe, cuja natureza especular consiste numa oposição imediata entre a consciência e o outro, perpetua–se. Este tipo de relação impregna a relação entre os homens. A interação do Eu com o outro sempre se dá nesse plano imaginário. O homem moral, que introjetou o Supereu, que lhe dita condutas, não necessariamente superou a identificação com seu Eu ideal, que o fixa num modo de relação social limitante, que o leva para longe de seu desejo. 

Há o muro da linguagem, que impede a comunicação verdadeira entre dois sujeitos. O sujeito enuncia algo ao Outro, porém atinge apenas o outro. O sujeito consciente fala uma palavra vazia, vazia no sentido do desejo. Uma palavra plena traz a verdade do desejo para o sujeito, que se constitui no Outro, onde está o código da linguagem. Lacan estrutura o Eu como o lugar do desconhecimento, do engodo; não concebe o Eu como centrado no sistema percepção–consciência, como organizado pelo princípio de realidade.

A dinâmica do Eu na análise

Lacan acentua a descoberta de Freud: o Eu e o sujeito não são correlativos. Do seu Eu, com suas qualidades e defeitos, o analisando já sabe; o que ele vai buscar na análise está além, não pode parar aí. Ele vai ao consultório do analista procurar ajuda, pois está sofrendo com seus sintomas, insatisfeito com sua sexualidade; há algo que o impede de caminhar nos seus objetivos, e ele procura respostas. Mas, de início, irá repetir, repetir a forma que se relaciona com os outros no mundo lá fora. Ele atua, resiste em recordar o que o angustia. A princípio, o analista tem de lidar com este Eu do sujeito, com seu caráter e suas limitações, e fazê-lo progredir.

Claro que há resistência por parte do analisando, não é fácil recordar, reviver um trauma. Além do mais, o sintoma é uma satisfação substitutiva cuja via já está consolidada. Mas, sem dúvida, a maior resistência é por parte do analista, que, em determinadas situações, não consegue sustentar a transferência. É que ela não é estática, um fenômeno que, após ter acontecido, esteja garantido. Na verdade, a transferência é dinâmica, exige a capacidade do analista de dominar a técnica, de compreender em que posição está em cada tempo da análise.

O poder da psicanálise é outorgado pela transferência, o analisando está ali, querendo saber do analista, e o que ele sabe? O analisando demanda do analista resposta para seu enigma. Voltando à analisanda que se pergunta: “Tem como eu ser diferente? E, se tem, você sabe como fazer?” É aqui que o Eu do analista não pode aparecer; tudo que ele não deve fazer é responder que sim, que ele já se analisou, então ele sabe o caminho das pedras, pois se tornou um homem forte após seu próprio processo de análise. Bom não esquecer de que não se pode generalizar a dinâmica do inconsciente, não há uma medida universal. 

O lugar do analista é o do suposto saber, o analisando acredita que ele sabe. De sua parte, ele tem que ter certeza de que não sabe. Mas bem que ele sabe de alguma coisa, ele sabe de uma técnica, de uma técnica de escutar. Foi treinado para se utilizar de uma ferramenta de escuta, a atenção flutuante. Quanto ao analisando que quer saber do analista, existe algo que ele também deve aprender com a ajuda deste, ou seja, que deve desenvolver para tirar maior proveito de suas sessões – a única regra para ele é seguir a associação livre. A atenção flutuante é uma técnica de escuta, escuta não do discurso cotidiano do sujeito do enunciado, mas escuta dos pontos de quebra da fala, onde se revelam o inconsciente e sua enunciação. 

Então, para a decepção do analisando, o analista não responde às suas demandas, não se coloca como outro que responde no plano do imaginário, emparelhando–se com ele numa relação alienante, num jogo de espelho, em que o sujeito do desejo se elide na linguagem. Ele não responde nesse nível, portanto o poder outorgado pela transferência não é exercido, e, por não sê–lo, torna–se o poder do analisando. É ele quem vai encontrar as soluções para seus enigmas. Abre–se a chance de se revelar, de sair da posição de servidão perante o Outro.

Como o sujeito só pode se constituir a partir da referência ao Outro, seu desejo só é constituído através do desejo do Outro, sua estrutura é de submissão, e ele pergunta àquele: o que queres? 

Ao longo da análise, essa pergunta surge diversas vezes, de diversas formas. O analisando continuará a questionar seus Outros, acreditando que o analista é a encarnação do próprio. E o que faz este, além de redirecionar a pergunta ao analisando: o que você quer, qual seu verdadeiro desejo?

No processo de análise, o indivíduo revivencia seu Édipo. Aqui se pode falar em regressão. O Édipo é uma vivência estruturante e, recordar cada parte de seu complexo, é um trabalho árduo, que só se consegue paulatinamente. Na análise, trata–se de reestruturá–lo, dar novas significações ao que foi pouco compreendido, ou o que foi impossível de compreender devido à imaturidade do aparelho psíquico daquela época.

Esta re–significação das vivências edípicas liberta o sujeito de certas limitações, permite que ele elabore complexos inconscientes que o mantinham preso a um determinado padrão, promovendo uma mudança em sua subjetividade. 

O sujeito que se constitui no final de análise sabe que o Outro, tal como ele o concebia, não existe. Isto permite que ele desista de um ideal impossível de se alcançar, e que o fazia gozar de forma sofredora. 

A queda desse ideal leva o sujeito a encontrar outros gozos. À medida que a satisfação substitutiva do sintoma desaparece, trata–se, para o analisando, de “saber–fazer–ali–com”, de fazer outra coisa com esses elementos, os quais o construíram. 

Referências

FREUD, S. Inibições, sintomas e ansiedade [1926]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XX. 

_____. O ego e o Id [1923]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIX. 

_____. Recordar, repetir e elaborar [1914]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XII. 

_____. Sobre o narcisismo [1914]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol. XIV. 

_____. Um projeto para uma psicologia científica [1895]. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. vol.I. 

GARCIA-ROZA, L.  Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. 

LACAN, J. O estádio do espelho como formador da função do Eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. 

_____. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. 

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Fonte do Texto: 

Cogito versão impressa ISSN 1519-9479 Cogito vol.11  Salvador out. 2010

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-94792010000100004&lng=pt&nrm=iso

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