November 17, 2017

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A cerebralização da vida.

Texto de : Cássio Vilela Prado 
Neurociências: A cerebralização da vida. 

Um novo saber que se pretende solidificar na história recente do conhecimento humano é a dita Neurociência, embora talvez não deixe de ser uma nova vestimenta do chamado organicismo cerebral do século XIX que insistia, peremptoriamente, em explicar todas as funções e disfunções psíquicas a partir da anatomia e fisiologia do cérebro humano.

Desde o começo do século XIX a medicina utilizou-se, predominantemente, das referências teóricas da fisiologia e da anatomofisiologia. As descobertas neurofisiológicas e neuroanatômicas utilizadas por Bayle (1799-1858) vieram apoiar o ponto de vista organicista cujo modelo de conhecimento centradono tecido nervoso cerebralé ainda prevalente nos tempos atuais. Entrementes, cumpre lembrar que o sistema nervoso central, composto pelo encéfalo (cérebro, tronco encefálico e cerebelo) e a medula, já era especulado e alvo de elucubrações geniais desde a antiguidade, principalmente por Hipócrates em “Acerca das Doenças Sagradas” (século IX a.C.)eporGaleno(130-211a.C.), ambos se utilizando também da matemática. Mas foi como médico holandês, Herman Boerhaave (1668-1738), com a publicação de De Morbis Nervorum, em 1735, que se pode dizer da criação da interdisciplina Neurociência, embora o neurocientista Mark F. Bear relate que a palavra Neurociência é jovem e que a primeira associação de Neurociência foi fundada em 1970, conforme a sua publicação Neurociências: Desvendando o sistema nervoso, Artemd (2002).

A partir da Terceira Revolução Industrial, com os avanços dos estudos sobre as redes neurais, associados aos demais conhecimentos vindos da Genômica e da Cibernética, pode-se dizer que a Neurociência, de fato, passou a ocupar um lugar de notoriedade no campo atual do conhecimento humano, contribuindo de forma indelével para outras disciplinas como a Psicologia, a Antropologia, as Ciências da Computação…

No entanto, com a ideologia organicista: “doenças mentais são doenças do cérebro” – Bayle (1799-1858),talvez a Neurociência, assentada nesta premissa conjectural, agora com dispositivos mais tecnológicos, não deixe de vislumbrar o mesmo ideal dessa cultura que tem como objetivo nada mais que a correção de transtornos, a eliminação pura e simples do sofrimento e a “construção de cérebros e mentes mais saudáveis, melhores e mais admiráveis”, como disse Nancy Andreasen, no livro Admirável Cérebro Novo: vencendo a doença mental na era da genômica. De acordo com o psiquiatra social, Benilton Bezerra Jr, “a idéia de que doenças mentais são ‘doenças do cérebro que se expressam na mente’ conduz ao objetivo de ‘vencer a doença mental’ do mesmo modo como pretendemos vencer a luta contra a AIDS, a coréia de Huntington ou a meningite. Não é à toa que Nancy Andreasen chega a sonhar com uma ‘penicilina das doenças mentais’, num futuro que ela imagina não tão distante de nós. Certamente a humanidade pode se passar muito bem sem essas três doenças. Mas uma cultura humana na qual os indivíduos tivessem abolido por completo o pathos psíquico poderia ainda ser uma cultura desejável? Para Aldous Huxley, o ‘admirável mundo novo’ era um sonho transformado em pesadelo, uma verdadeira distopia”.

Conforme o médico e filósofo francês, Georges Canguilhem (1904-1995), saúde não é igual a não ter sintomas. Saúde não é negação da doença. Ao contrário, a saúde engloba a doença, pois ter saúde é poder adoecer e se recuperar. Saúde significa capacidade de poder suportar embates, sofrimentos, quedas, limitações e ir adiante, construindo novas formas de existência. Na verdade, uma experiência subjetiva na qual a incerteza, a imprevisibilidade, o fracasso e o sofrimento estivessem sistematicamente afastados estaria paradoxalmente mais perto da patologia do que da saúde.

Ainda, conforme o psiquiatra Bezerra Jr, “Christopher Bollas chamou de normóticos, e Joyce Macdougall de normopatas a esses sujeitos cuja estabilidade psíquica se dá à custa da criatividade a que renunciam. São sujeitos excessivamente adaptados ao mundo que os cerca e à vida que lhes é imposta. Embora não apresentam sintomas, embora não experimentem conflitos, estão longe de exibir saúde… Não se trata de eliminar o pathos do horizonte humano, mas fazer dele um impulso para a reinvenção da vida”.

Portanto, a Neurociência trouxe avanços importantes e, com certeza, ainda trará outros mais. Só não se pode demitir o sujeito do desejo do cenário existencial, assim como a singularidade, a cidadania, o respeito à diferença, o incentivo à autonomia, o apelo à solidariedade e à ética.

Ao invés de sacralizar o cérebro e de cerebralizar a vida, quem sabe possa ser o cérebro mais um aliado do homem em sua jornada rumo ao infinito?

Talvez a vida, muito além de “cem bilhões de neurônios”,diferente de ser cerebralizada, não deva ser celebrada?

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Imagem Google

*Cássio Vilela Prado-  Especialista em Psicologia Clínica – CFP

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Assistam este vídeo como complemento deste texto. Um entrevista com Elizabeth Roudinesco sobre a Neurociência e a Psicanálise. 

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Psicanálise e Amor

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